Desde o Vietnã o país não ficava tão dividido

Eleitor de Obama, escritor elogia o presidente e suas medidas, mas diz que a virulência dos ataques da oposição gerou nação partida e período “muito, muito maluco”

Paul Auster, 63, diz que lhe faz mal ler resenhas de seus livros, pois “raramente se consegue algo intermediário, é amor ou ódio”. Com “Invisível”, houve entre a crítica de língua inglesa mais amor do que ódio (o “New York Times” considerou-o seu melhor romance; na Inglaterra teve objeção e elogio). O maniqueísmo que marca a crítica também domina hoje a política dos EUA, avalia. A oposição conservadora ao governo Obama, que o escritor apoia e elogia, gerou, segundo ele, um país “terrivelmente dividido”. Auster falou à Folha por telefone, de sua casa em Nova York. (FABIO VICTOR)

 

FOLHA – Uma das subtramas do livro é a relação incestuosa entre irmãos. Como foi escrevê-la? E como foi a reação nos EUA?
AUSTER
– Foi difícil, porque queria fazer algo honesto, verdadeiro, convincente sobre o prazer estético quando se está nos braços de alguém que se ama, detalhes de intimidade física. É muito difícil de escrever. Eu não leio resenhas, então não posso dar uma resposta detalhada. Meu editor me diz o que escreveram. E, de maneira geral, a crítica americana ignorou este assunto [risos]. Acharam tão difícil que ignoraram. Mencionaram, mas com poucos detalhes. [A resenha do “New York Times” trata das páginas “belas e perturbadoras” sobre incesto; na que está no site do “Washington Post”, a relação não é citada].

FOLHA – Li que, durante uma leitura do livro numa universidade, ocorreu algo curioso a esse respeito…
AUSTER
– Isso, foi muito interessante. Um ano atrás, antes de o livro ser publicado, eu e minha mulher fizemos uma leitura na Universidade Brown, em Rhode Island. Li a parte da “grande experiência”, quando eles tinham 14 e 15 anos [uma noite de beijos e carícias entre os irmãos]. No início alguns alunos deram risinhos nervosos, ao perceberem o que acontecia. De repente todos ficaram calados. E, quando a leitura terminou, disseram “muito interessante”, mas ninguém conseguiu falar nem perguntar nada.

FOLHA – É curioso, pois ao mesmo tempo os EUA são a terra da indústria pornô, da liberalidade.
AUSTER
– Sim, é verdade, somos um lugar dividido, um país esquizofrênico. A pornografia é enorme e, ainda assim, o puritanismo continua.

FOLHA – Depois de vários livros sobre a velhice, sobre moribundos, “Invisível” fala mais sobre a juventude. Por quê?
AUSTER
– Não queria continuar a falar sobre homens se desintegrando. E, em 2006 e 2007, houve vários aniversários de 40 anos de eventos dos anos 60, o que trouxe de volta este período para mim. E pensei: quero voltar, quero explorar 40 anos atrás. Mas quero escrever sobre tudo, jovens, velhos, gente de meia-idade, crianças.

FOLHA – Embora você não leia resenhas, eu queria…
AUSTER
– Eu me educo para não lê-las.

FOLHA – Pediria que comentasse trechos de duas: 1) “A prosa é o melhor da literatura americana contemporânea: clara, elegante, ágil. É o melhor romance já escrito por Paul Auster” [publicada no “New York Times”]. 2) “O romance fica piruetando em torno de totens culturais, e os personagens são desvendados pela lista de autores, compositores, pintores de que gostam. O resultado (…) [é] como ouvir um pós-graduado tentando impressionar calouras do primeiro ano. (…) Os diferentes pós-modernismos de Auster parecem estratégias de evasão. É assim que todo o livro parece: evasivo” [publicada no britânico “The Observer”].
AUSTER
– É por isso que não leio essas coisas. Porque tenho quem ame o que faço e quem odeie o que faço. E não me faz nenhum bem lê-las. Obviamente discordo da segunda, que é britânica. Os britânicos são muito hostis com certo tipo de literatura moderna, são muito convencionais.

FOLHA – Como em outras obras suas, “Invisível” está cheio de aforismos [leia abaixo]. Qual é o papel deste recurso em seu trabalho?
AUSTER
– Ah, é uma pergunta engraçada, porque nunca pensei em mim mesmo como um escritor aforístico. Essas declarações possivelmente condensam algo mais geral.

FOLHA – Como democrata e eleitor de Obama, como analisa os primeiros passos do governo dele?
AUSTER
– Continuo apoiando Obama, acho-o provavelmente um dos mais inteligentes e capazes presidentes que tivemos. O problema é que o país está terrivelmente dividido. A facção anti-Obama é muito grande e barulhenta, falando, atacando. É notável a serenidade que ele mantém, enquanto avança com suas leis. A reforma do sistema de saúde foi um passo importante, acho que o salvou. Se tivesse perdido, estaria em dificuldade. É um momento muito, muito maluco nos EUA. Dificilmente lembro de algo semelhante, pelo menos desde a Guerra do Vietnã, em que o país tenha ficado tão dividido.

Fonte: Folha de S.Paulo

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