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‘Dicionário dos excluídos’: inspirado em samba da Mangueira, projeto celebra nomes ‘apagados’ da História do Brasil

Da escola de samba à sala de aula. Esta é a ponte que conecta o carnavalesco Leandro Vieira e a professora Cristina Meneguello. Ele, campeão do carnaval do Rio em 2019 pela Mangueira, com o enredo “História para ninar gente grande”, que exaltou personagens não incluídos no chamado “retrato oficial” da História do Brasil. Ela, parte do corpo docente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e responsável por convocar milhares de estudantes a tirar a “poeira dos porões”, como cantou a verde e rosa em plena Sapucaí.

Inspirados pelo desfile vencedor da agremiação, 6.753 alunos participantes da Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB), promovida pela universidade paulista, criaram, na edição de 2019, o dicionário biográfico “Excluídos da História”, que reúne 2.251 verbetes sobre personagens raramente estudados pela historiografia oficial. No mês passado, o projeto, ganhador do Brasil Design Award na categoria de design de sistema educativo, foi transformado em site com acesso gratuito.

Os verbetes, enviados de todos os cantos do país, incluem desde uma líder cangaceira do interior da Bahia até o ator, dramaturgo e ativista Abdias do Nascimento, fundador do Teatro Experimental do Negro, com uma carreira consagrada. O critério para a escolha dos alunos, explica Cristina, coordenadora da olimpíada, era que as figuras, mesmo relativamente conhecidas, não fossem estudadas nos livros didáticos.

Mangueira foi campeã do grupo especial em 2019 (Foto: Luís Alvarenga / Agência O Globo)

Cristina conta que anualmente é proposto um tema aos participantes, que devem desenvolver coletivamente um trabalho final. Ainda no pré-carnaval, o samba da Mangueira já circulava nos grupos de WhatsApp do time de professores responsáveis por formular as etapas da disputa. Ali já estava sacramentado que o debate proposto pela Mangueira seria levado aos estudantes dos ensinos fundamental e médio, que precisariam pesquisar e apresentar figuras que eles considerassem esquecidas.

— É uma discussão muito pertinente. Quem tem o direito de ver sua vida transformada em lição numa sala de aula? — questiona a professora. — Existe um debate acadêmico sobre o assunto, mas é importante que os jovens tenham também essa reflexão.

Cristina pontua, entretanto, que tais figuras não foram de fato excluídas, mas levadas para um segundo plano da narrativa, como a classe operária e as mulheres. Ou seja, fizeram parte do processo, mas não estão nos tais retratos emoldurados.

— Nossos heróis são muito embranquecidos. Nossa História transformou em coadjuvantes principalmente os negros, os indígenas e os líderes locais insurgentes — analisa. — Quebrar a narrativa tradicional é essencial, pois a História é um campo permanente de pesquisa e disputa.

Identidade nacional

Outro aspecto levantado por ela é o caráter identitário mostrado no trabalho dos estudantes da olimpíada. Grande parte das equipes apresentou personagens ligados ao seu próprio estado, mostrando vários Brasis dentro do país.

É o caso de Maria Luiza Nogueira, de 17 anos, moradora de Jequié, na Bahia. Ao lado de seus colegas de equipe, a estudante contribuiu para o dicionário com a história de Anésia Cauaçu, líder cangaceira que comandou seu bando contra forças militares e o coronelado durante a Conflagração Sertaneja, em 1916.

— Sou baiana, mas não mensurava a importância do meu estado para a formação da atual sociedade brasileira. Esse trabalho me fez entender como diversos personagens foram apagados dos livros didáticos por não pertencerem às elites — diz Maria Luiza. — Hoje, entendo a História como um mundo onde sempre haverá versões a serem descobertas.

Sensação parecida com a que tem o estudante Gabriel Mariano, de 18 anos. Morador de Cuiabá, em Mato Grosso, ele e seu grupo pesquisaram sobre Laurinda Lacerda Cintra, a Doninha do Tanque, líder espiritual que atuava na cidade mato-grossense de Poconé. Ela foi presa e torturada pelas forças policiais durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, na década de 1930.

Gabriel conta que já tinha refletido sobre esses “outsiders”, mas não tinha ideia de que eram tantos.

—Geralmente são figuras ligadas às lutas sociais, em busca do interesse do povo, e que incomodam a política tradicional — comenta.

Tanto engajamento e descobertas encheram os olhos do carnavalesco Leandro Vieira, responsável por abrir simbolicamente esse barracão empoeirado e inspirar a formação de uma liga de heróis esquecidos.

— Nosso desfile continua “ganhando”, e agora se trata de uma vitória ainda maior, que é estender aquele carnaval a outras áreas de saberes coletivos — celebra. — Um dicionário de pessoas excluídas a partir de um enredo que jogou luz sobre os vencidos é um ganho imenso para nossa tão mal contada História. E, claro, para a formação de uma identidade nacional.

Dez ‘histórias que a História não conta’

Luiz Gama (1830 – 1882)

Em 21 de junho de 1830, em Salvador (BA), nasceu Luiz Gonzaga Pinto Gama, figura que se destacou pela contestação do regime escravocrata no Brasil, ajudando muitos negros escravizados a conseguirem sua liberdade por meio da Justiça através do seu papel como rábula, advogado sem formação acadêmica, mas com permissão judicial para exercer sua função.

Filho de um português e de uma africana ex-escrava, Gama foi entregue ao pai muito novo devido às participações de sua mãe, Luiza Mahin, em rebeliões como a Revolta dos Malês. Aos 10 anos, foi vendido ilegalmente como escravo por seu pai e comprado por um traficante em São Paulo. Já na maioridade, foi à Justiça para exigir sua liberdade, o que só conseguiu tempos depois após provar que era filho de uma mulher livre.

Luiz entrou para o Exército, mas foi expulso devido a atos de insubordinação. Passou a trabalhar na Secretaria de Polícia da Província de São Paulo, onde leu diversos livros sobre Direito e tornou-se um rábula. Dedicou sua vida para conseguir a autonomia dos negros escravizados no país com recursos criados por ele mesmo. Estima-se que tenha sido responsável pela libertação de pelo menos 500 pessoas.

Abdias Nascimento (1914 – 2011)

Abdias do Nascimento nasceu em 14 de março de 1914, em Franca, São Paulo. Neto de escravos, cresceu absorvendo saberes dos afrodescendentes mais velhos. Começou a trabalhar com 9 anos, entrando na escola apenas aos 11, quando estudava de manhã e trabalhava à tarde.

Aos 16, mudou-se para São Paulo e, com identidade falsa, alistou-se no Exército. Participou nas revoluções de 1930 e 1932, quando iniciou seu ativismo político na Frente Negra Brasileira, entidade minoritária mais destacada no Brasil.

Em 1944, cria o Teatro Experimental do Negro, com o objetivo de valorização social da cultura afro-brasileira. Um ano depois, propõe, na Convenção Nacional do Negro, a lei do racismo como crime de lesa-pátria.

Em 1968, ao ser fortemente perseguido por seus protestos e ativismo político, Abdias buscou exílio em Nova York, onde morou por 13 anos, ensinando ideais pan-africanistas.

De volta ao Brasil, criou o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro). Também iniciou a produção e publicação de suas obras, incluindo livros e pinturas, que lhe garantiram diversos prêmios.

Em 2011, morreu aos 97 anos, na cidade do Rio de Janeiro.

Mercedes Baptista (1921 – 2014)

Nasceu no dia 20 de maio de 1921, em Campos de Goytacazes, Rio de Janeiro. Bem nova, ela se mudou para a cidade do Rio e se estabeleceu como empregada doméstica, mas foi trabalhando na bilheteria de um cinema que seu sonho de trabalhar com a arte nasceu.

Aos 24 anos, começou seu caminho no balé na Escola de Danças do Theatro Municipal. Em 1948, ingressou no corpo de baile do teatro, sendo a primeira mulher negra a alcançar tal feito. Mercedes sempre foi alvo de discriminação, sendo excluída de apresentações e impedida de pisar nos palcos. Por causa disso, ela migrou para o Teatro Experimental do Negro como bailarina e, mais tarde, como colaboradora e coreógrafa.

Após conseguir uma bolsa de estudos com Katherine Dunham (a matriarca da dança negra norte-americana) nos Estados Unidos volta ao Brasil e, em 1953, funda o Ballet Folclórico Mercedes Baptista. A instituição voltada para a formação de bailarinos negros teve papel fundamental na disseminação e valorização da cultura afro no país, o que transformou a bailarina também em ícone do ativismo negro.

Mercedes morreu em 19 de agosto de 2014 devido a diabetes e problemas cardíacos.

Esperança Garcia (1751 –?)

Reconhecida pela OAB, em 2017, como a primeira advogada piauiense, foi escravizada no interior da então província do Piauí durante toda sua vida. Nascida em 1751, foi retirada da Fazenda Algodões, onde aprendeu a ler e escrever, devido à expulsão dos jesuítas comandada por Marquês de Pombal.

Realocada para uma fazenda em Nazaré do Piauí, foi separada da família, sendo vítima de estupros, espancamentos, torturas, tentativas de homicídio e proibição de culto.

Em 1770, Esperança escreveu uma carta-petição ao governo central manifestando sua indignação com a separação de sua família e denunciando as violências a que os escravizados eram submetidos. Num contexto em que a erudição era proibida para negros, mulheres e nordestinos, e a ausência de direitos básicos à população escravizada era realidade em todo o território nacional, Esperança Garcia acabou por representar essas minorias em sua carta.

O documento só foi descoberto pelo pesquisador Luiz Mott, na década de 1970, e desde então instiga e inspira uma nova forma de pensar a história dos negros no Brasil.

Cacique Tibiriçá (1470 – 1562)

Tibiriçá, também conhecido como Martim Afonso, foi uma figura importante na história de fundação da atual cidade de São Paulo. Ele foi cacique de parte da nação indígena que residia em Piratininga e líder tupiniquim.

Foi batizado pelos jesuítas Leonardo Nunes e José de Anchieta. Converteu-se ao cristianismo e passou a se chamar Martim Afonso de Sousa em homenagem ao fundador homônimo da capitania de São Vicente.

Tibiriçá teve papel de destaque auxiliando os jesuítas na proteção de invasões indígenas à vila de São Paulo e acompanhou sua obra de fundação. J

José de Anchieta por fim, atesta em sua carta ao Padre Diogo Laínes que Tibiriçá morreu em 25 de dezembro de 1562, vítima de uma peste que assolou a região da aldeia paulistana.

Elvira Komel (1906 – 1932)

Nascida na cidade de Barão de Cocais em 24 de junho de 1906, a advogada Elvira Komel foi a primeira mulher a exercer a profissão no Fórum de Belo Horizonte. A mineira requereu ao juiz de Direito da capital, em 1928, sua inclusão na lista dos eleitores do estado, conquistando o direito de votar.

Durante a Revolução de 1930, Elvira publicou nos jornais da cidade um manifesto dirigido às mineiras, convocando-as a apoiar o movimento e comunicando a criação do Batalhão Feminino João Pessoa, que reuniu cerca de oito mil mulheres de 52 municípios para apoiar a renovação política no estado e, consequentemente, militar pela ampliação dos direitos políticos das mulheres, como a conquista do voto feminino.

Em 1932, aos 26 anos, Elvira contraiu meningite e veio a falecer, justamente enquanto se preparava para disputar uma vaga de deputada estadual.

Antonieta de Barros (1901 – 1952)

A professora Antonieta de Barros nasceu em 1901 em Florianópolis, Santa Catarina. Foi criada apenas pela mãe com poucas condições financeiras. Por mais dificuldades que tenha enfrentado, conseguiu concluir a escola. Continuou seus estudos, formando-se em 1921 na Escola Normal em português e literatura.

Antonieta dedicou sua vida à educação. Criou um curso para alfabetizar pessoas de baixa renda, chamado Curso Particular Antonieta de Barros, que dirigiu até 1951, um ano antes de sua morte e que continuou em funcionamento até 1964. Em 1922 a professora fundou e dirigiu o jornal A Semana. Por lá escreveu até 1927 sob o pseudônimo Maria da Ilha.

Tratando de temas como educação, racismo, direitos das mulheres e políticas públicas, ela ocupou espaços importantes na sociedade catarinense e ganhou a visibilidade que necessitava para se lançar à carreira política.

Em 1934 foi eleita a primeira mulher deputada estadual negra do país e primeira deputada mulher do estado de Santa Catarina. Foi constituinte em 1935 e exerceu seu mandato até o advento do Estado Novo. Com a volta da democracia, a parlamentar continuou sua militância em favor dos mais necessitados.

Elizabeth Teixeira (1925)

Em 13 de fevereiro de 1925, na cidade paraibana de Sapé, nasceu Elizabeth Altino Teixeira. Frequentou a escola e aprendeu a ler e escrever, além de saber um pouco de matemática.

Aos 16 anos ela conheceu o amor de sua vida, o operário João Pedro Teixeira. Como seu pai não admitiu o namoro, porque ele era negro e pobre, Elizabeth fugiu com o mesmo.

Os dois atuaram frontalmente pelas Ligas Camponesas da Paraíba. Até que no dia 2 de abril de 1962 João Pedro foi covardemente assassinado em uma emboscada, a mando de latifundiários. Imediatamente, Elizabeth se tornou uma liderança das ligas locais.

Com o golpe de 1964, ela passou a ser perseguida, sendo presa várias vezes. Ao ser libertada, e tentar retomar a luta, foi informada que havia um complô para assassiná-la. Então decidiu “sumir”. Foi viver clandestinamente na cidade de São Rafael, no interior do Rio Grande do Norte, com o nome de Marta Maria da Costa.

Com o advento da Anistia, saiu da clandestinidade e passou a viver em João Pessoa, onde retomou a luta. Elizabeth é um exemplo de luta e dignidade para os trabalhadores e trabalhadoras.

Zabé da Loca (1924 – 2017)

O som que ecoa do pífano de Isabel Marques da Silva transcende sua história que começou em 12 de janeiro de 1924, no município de Buíque, Pernambuco, onde vivenciou uma infância sofrida ao lado de seus 15 irmãos, lutando contra doenças, fome e sede.

Ainda jovem, Zabé migra com sua família para o município de Monteiro, na Paraíba, em busca de melhores condições. É nesse momento que lhe é apresentado o pífano, flauta típica do Nordeste.

A pifeira casa-se com Delmiro, pai de seus dois filhos, que veio a falecer pouco tempo depois. Viúva, teve a casa em que morava com os filhos destruída por desmoronamento, e sem condições financeiras, em 1978, vê-se obrigada a morar em uma loca, espécie de pequena gruta, na zona rural de Monteiro.

Em 2003, aos 79 anos, foi morar em um assentamento, e, sem esquecer a loca que a abrigou, gravou seu primeiro CD, ganhando reconhecimento e prêmios como uma verdadeira mestra da música popular nordestina.

Em 2014, fundou a Associação Cultural Zabé da Loca, que ensina mulheres e crianças a tocarem pífano e outros instrumentos, preservando a cultura local.

Com saúde frágil e enfrentando o Alzheimer, Zabé faleceu aos 93 anos, em Monteiro, deixando um importante legado para a identidade regional.

Joãozinho da Gomeia (1914 – 1971)

Nascido em 1914 na cidade de Inhambupe, na Bahia, João Alves Torres Filho muda-se para Salvador ainda na infância. Aos 15 anos, foi acometido por uma forte dor de cabeça e partiu em busca de sua cura numa casa de canbomblé. Lá, acaba iniciando sua trajetória no culto aos orixás.

Aos 26 anos, assume o terreiro em questão, torna-se babalorixá e fica conhecido como Joãozinho da Gomeia. Predestinado a vivenciar a tradição religiosa afro-brasileira, com forte personalidade remodela a perspectiva social sobre as religiões africanas.

Sua forma de agir, vivenciar e divulgar o candomblé foi alvo de muitas críticas. Mesmo conhecido na Bahia, em 1942 migra para o Rio de Janeiro. A primeira tentativa em terra carioca falha por conta da perseguição religiosa, culminando em sua prisão. Contatos com figuras influentes garantem sua soltura.

Em 1947 firma-se no estado, mais especificamente em Duque de Caxias, e se torna personagem recorrente em jornais e revistas. Anos depois é diagnosticado com um tumor cerebral e morre em 1971 durante operação para retirada do tumor, em São Paulo, morre.

Transgressor, negro, homossexual, bailarino e pai de santo, é reconhecido como parte fundamental para a comunidade do candomblé.

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