terça-feira, outubro 4, 2022
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Dois momentos com Abdias do Nascimento

A primeira peça escrita por Abdias Nascimento intitula-se Sortilégio. Trata do conflito e do dilema de um homem negro diante do seu amor por uma moça também negra e sua paixão por uma mulher branca. Emanuel ama Ifigênia, mas se casa com Margarida, a branca. Traído pela esposa e trespassado pela dor e humilhação, Emanuel mata Margarida e busca refúgio em um terreiro, onde é sacrificado por aquela que fora sua paixão, a negra Ifigênia. A peça, encenada pela primeira vez em noite de gala no Theatro Municipal, em 1957, foi dirigida por Léo Jusi, com Abdias no papel principal e Léa Garcia encarnando Ifigênia.

Em 2002, em um curso organizado pelos professores Peter Fry, Olivia Cunha e Flávio Gomes, os alunos montaram o espetáculo Sortilégio, e o autor da peça foi convidado para assistir à montagem no pátio central do IFCS/UFRJ, recém-restaurado. Abdias compareceu com seus trajes de gala ao estilo nigeriano, acompanhado pela esposa Elisa Larkin Nascimento e o filho do casal. Abdias havia sido casado com Léa Garcia, uma das divas do teatro e do cinema nacional, com a qual tivera dois filhos.

O pátio se encheu de estudantes de todas as cores, e a interpretação dada a Sortilégio pela então novíssima geração, quase cinquenta anos depois daquela encenada no Municipal, foi inesquecível, memorável. Eu havia adquirido minha primeira câmera fotográfica digital e fiz o único registro da peça e de todo o evento.

Senti grande orgulho por aqueles jovens se esmerando para dar o melhor de si representando um drama de amor, paixão e mistura de sentimentos e cores. Maior ainda foi minha emoção ao ver meu amigo admirado pelos estudantes que tão bem haviam interpretado seu drama ficcional.

Meu outro encontro com Abdias foi no ano do centenário da Abolição da escravatura. No dia 20 de novembro de 1988, fomos juntos aos eventos comemorativos na Serra da Barriga, em Alagoas, onde Abdias fez um discurso entusiasmado. O povo, que se divertia na festa de largo, típica da região, com música, dança, comida e bebida, ficou estático diante da voz tonitruante de Abdias, vinda do palanque.

Joana-Marinho
Joana Marinho sendo cumprimentada por Abdias (Foto: Imagem retirada do site G1)

Nesse dia entrevistei-o longamente, e Abdias me revelou seu desejo de ser enterrado naquele lugar que simboliza a luta de Zumbi, líder do maior e mais conhecido quilombo da nossa história, o quilombo de Palmares. Abdias disse que eu seria testemunha deste seu sonho. Soube que a família irá lançar suas cinzas na Serra da Barriga e fico feliz porque a vontade do meu amigo será realizada.

 

 

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