Estereótipos sobre crianças e adolescentes alimentam violências cotidianas

Quando o assunto é proteção de adolescentes, nós, pessoas adultas, temos muito o que aprender. E eu estou me incluindo nessa conta aí, viu? Também pudera. As pessoas adultas de hoje foram crianças nascidas praticamente junto com o ECA (ou um pouco antes dele).

Eu, por exemplo, nasci em 1984 —seis anos antes do Estatuto da Criança e do Adolescente ser promulgado. Então, minha educação e convivência familiar e comunitária com pessoas adultas foi permeada pela forte lembrança do que pregava o Código de Menores, uma lei de 1927 que estava dentro do Código Penal e, por isso, na prática, tinha uma ideia punitivista de como tratar crianças e adolescentes pobres.

Se você resgatar memórias de sua infância, é muito provável que se recorde de alguns recursos de punição utilizados pelos adultos que cuidavam de você para lhe educar. Não estou dizendo que esses adultos eram más pessoas, até porque não gosto dessa ideia de pessoas boas versus más. Acredito que nossos pais e avós nos educaram com as ferramentas que tinham naquele momento, porque essas foram as ferramentas usadas para lhes educar também.

Infelizmente, o Código de Menores deixou uma marca profunda em nosso jeito de perceber a existência de crianças e adolescentes. Ele nos ensinou a banalizar e naturalizar o uso da violência como método de educação e de expressão de afeto.

“Eu te bato para você aprender o que é certo.”

“Você apanhou porque fez coisa errada.”

“Melhor eu te bater do que o povo da rua.”

Vamos usando essas frases sem perceber o que elas realmente transmitem.

A gente não aprende o que é certo apanhando, a gente fica com trauma e, por medo, reprimimos alguma atitude. Por medo e não por compreender a gravidade de algum ato.

A gente não apanhava porque fazia algo errado. A gente apanhava porque, diante de algo errado que fazíamos, nossos adultos de proteção não tinham ferramentas para estabelecer um diálogo conosco (porque ninguém também lhes deu essas ferramentas).

Não existe essa ideia de que “é melhor eu bater do que o povo da rua”. Apanhar em casa não o isenta de ser agredido na rua, infelizmente. Mas ter um ambiente protetor em casa nos possibilita pedir ajuda, caso soframos alguma violência na rua.

Aprendemos a cuidar de crianças a partir da ideia de que elas não conseguem estabelecer uma conversa e refletir sobre seus atos. Então consideramos a violência como um recurso positivo de educação, quando ela não é.

Aprendemos que adolescentes são “aborrecentes”, aprendemos que a adolescência existe para aborrecer pessoas adultas, então tratamos qualquer demanda de adolescentes como uma afronta à nossa autoridade de pessoa adulta, quando, na verdade, adolescentes também estão tentando entender a si e ao mundo.

Nós, pessoas adultas, estamos num momento delicado de aprender novos modos de educar, amar e proteger crianças e adolescentes. E, por vezes, é chato ter que aprender algo novo a essa altura da vida, mas é importante fazermos esse esforço, afinal crianças e adolescentes merecem o melhor que podemos oferecer, e nós podemos oferecer uma vida sem agressão.

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