Eu não sou e não quero ser um homem

Na maior parte do tempo eu sou chamada de “moço”, “moleque”, “parça” e até “amigão”.

Por Marina Garcia, do HuffPost Brasil

Mas eu não sou um homem.

Na maior parte do tempo usar o banheiro feminino sem receber olhares estranhos é um grande desafio.

Mas eu não sou um homem.

Se eu estou em um restaurante com a minha namorada o garçom se dirige a mim para entregar a conta.

Mas eu não sou um homem e eu não quero ser um homem.

Durante muito tempo eu ouvi que lésbicas que não se vestem de maneira feminina, estavam tentando ser homens. Eu ouvi isso da minha família, eu ouvi isso na rua e eu ouvi isso de outras lésbicas.

Eu comecei a me vestir assim porque parecia a maneira mais confortável de me portar, eu posso correr se estou com pressa sem me preocupar com a sapatilha que vai sair do meu pé. Eu posso secar o meu cabelo em menos de 5 minutos e eu posso me arrumar para ir a qualquer lugar rapidamente sem precisar lembrar que maquiagem existe.

Mas eu não posso (e eu nunca posso) ser uma mulher que ama outra mulher. A cada segundo isso é questionado.

Muitas vezes no meu dia a dia outras pessoas me veem e me tratam no masculino como se essa fosse a maneira correta, já que eu estou “tentando ser um homem”, não é mesmo?

Nesse mês da visibilidade lésbica, o meu grande desejo é que isso acabe.

Todas as vezes que me tratam no masculino mesmo sabendo que eu sou uma mulher, eu sou invisibilizada.

Todas as vezes que me tratam como o homem da relação, eu sou invisibilizada.

Todas as vezes que outros homens me tratam como “amigão” ou como se eu fosse um deles, eu sou invisibilizada.

Parece que lésbicas “caminhoneiras” não podem existir. Mas existem.

Eu existo, nós existimos.

Ser mulher não é um sentimento, um estado de espírito ou uma porção de estereótipos. Isso não está ligado a nossa roupa ou ao nosso corte de cabelo. Nós continuamos sendo mulheres.

E amamos outras mulheres.

+ sobre o tema

Garoto vítima de homofobia se suicida em Vitória; pais culpam escola do filho

No último dia 17 de fevereiro um garoto se...

“Nosso objetivo é a extinção da Justiça Militar”, diz ex-sargento homossexual discriminado

Fernando Alcântara e Laci Araújo, sargentos assumidamente gays, denunciaram...

STF julgará se Marco Feliciano será processado por homofobia

Procuradoria da União também acusa deputado de racismo A Procuradoria...

Casais homoafetivos viram ‘pães’ no Dia dos Pais

De acordo com o IBGE, 16% das famílias brasileiras...

para lembrar

10 Vezes que Atores Brancos Interpretaram Personagens de Outras Etnias (nos últimos dez anos)

Os primos do blackface: whitewashing, estereotipização e apropriação cultural. Por Lara Vascouto...

Coração suburbano também fere e se locupleta da estigmatização das negras

Sou fã de Elisa Lucinda. Fã mesmo, de verdade,...

Mulher Negra – Uma análise da raça

Um corpo descomunal, envolto em sedução, olhar profundo, seios...

Aluno do 5º ano faz ‘protesto’ contra racismo em prova de escola em Nova Iguaçu

A professora Joice Oliveira Nunes teve uma surpresa ao...
spot_imgspot_img

“Através do olhar da representação”: Sobre o estereótipo e a comunicação

Resumo: O presente texto toma como ponto de referência e modelo metodológico “O espetáculo do ‘outro’”, de Stuart Hall, um capítulo de um manual...

Cor da Pele

As pessoas tendem a elogiar os negros dizendo: Nossa, mas você é um negro lindo! Que negrinha mais linda! Que mulata bonita! Nunca ouvi...

Lucy Ramos: “Podemos fazer personagens sem estereótipos”

Realizada com a personagem Vanda de 'O Tempo Não Para', atriz lembra como lidou com transformação no visual para a novela: "Precisava de uma...
-+=