quarta-feira, outubro 27, 2021
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‘Eu sou da fronteira entre culturas’, diz Mia Couto

Moçambicano lança seu primeiro romance histórico e reflete sobre a memória

Por Leonardo Cazes Do O Globo

O moçambicano Mia Couto escreve sempre no limiar entre culturas, a portuguesa e a dos povos originários do seu país. Em “Mulheres de cinzas” (Companhia das Letras), seu primeiro romance histórico que abre a trilogia “As areias do imperador”, o escritor aborda o encontro violento das linhagens que formam a identidade de Moçambique. A história se passa no final do século XIX, período em que o sul do país foi palco de confrontos entre os colonizadores lusos e as tropas de Ngungunyane, último líder do segundo maior império do continente comandado por um africano.

A trama é conduzida por dois narradores: Imani, a adolescente da tribo VaChopi educada pelos jesuítas, e o sargento português Germano de Melo, republicano degredado após participar de revoltas contra a monarquia. São os dois lados da confluência entre ficção e ciência, oralidade e escrita, África e Europa que marcam a obra do próprio Couto. Em entrevista ao GLOBO por e-mail, o escritor afirma que a memória é um assunto que “me persegue” e critica a transformação de Ngungunyane, um déspota violento, em símbolo da resistência à colonização. Na próxima quarta-feira (18), ele vai lançar o livro no CCBB do Rio, às 18h30m. A atriz Fernanda Torres vai ler trechos da obra.

Você tem uma longa carreira como romancista, mas só agora decidiu escrever um romance histórico e começa logo com uma trilogia. Por quê?

O assunto da memória é algo que me persegue, o modo como a construção da identidade nacional de um país faz uso da invenção da memória e do esquecimento. Existe um processo de apropriação de um tempo que é plural e diverso. O imperador Ngungunyane é um personagem fascinante, foi alvo de mistificações diversas. Por um lado, dos portugueses, emprestando-lhe grandeza apenas para engrandecer a sua própria vitória sobre o soberano africano. Por outro, dos próprios moçambicanos que necessitam de heróis como lendas fundadoras da sua nação. Esta tentação de ficcionalizar Ngungunyane estava há algum tempo dentro de mim.

Como foi sua pesquisa para construir o romance?

A pesquisa teve dois territórios distintos. Do lado moçambicano, as fontes eram sobretudo orais. Tive que viajar pelas regiões de Zavala, onde vive a etnia VaChopi, e entrevistei dezenas de pessoas. É evidente que esses registros eram muito díspares e férteis em termos de reconstrução. Mas, no fundo, era o que queria. No caminho, fiquei amigo de uma pessoa dessa etnia que vive em Maputo e que se tornou meu guia pela língua e pela cultura daquele povo. E por que aquele povo? Porque foram os VaChopi os mais massacrados pelo imperador. Já do lado da memória escrita, foi mais fácil. Há centenas de publicações sobre o período que os portugueses denominam de “campanhas de pacificação em Moçambique”. Mas, mesmo aí, perante a aparente verdade da escrita, existem versões contraditórias que revelam filosofias e atitudes diversas em relação à África entre os portugueses.

Qual o limite entre ficção e história em “Mulheres de cinza”?

Os fatos históricos estão ali como rochedos que dão sustento ao resto da paisagem. Os grandes momentos, as batalhas, as negociações, os chefes dos vários exércitos, esses são inspirados na história oficial. Todo o resto é invenção. E todo o resto é o mais importante, pois eu quero fazer uma história sobre os modos de invenção do passado.

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De que forma o confronto entre os portugueses e Ngungunyane marcam Moçambique?

Existe uma forte lembrança desse período. Para Portugal, foi um momento dramático porque correspondia a uma crise política profunda: a agonia final da monarquia e o advento da república. E Portugal tinha que dar prova às outras potências coloniais que exercia efetivamente o controle dos “seus” territórios na África. A missão do capitão Mouzinho de Albuquerque não era apenas a vitória militar, mas o resgate do orgulho nacional. Esse momento histórico foi vivido como uma epopeia. Em Moçambique, o império de Ngungunyane teve implicações sociais profundas, mas ele incidiu apenas por 60 anos e na metade sul do país. Nesse vasto território criaram-se reações diversas: de devoção e incorporação de um lado, de rejeição de outro. Quando acontece a independência, foi preciso buscar heróis para fundar os pilares mitológicos da nova nação. E recorreu-se a essa figura de Ngungunyane com alguma ingenuidade porque, ao invés de funcionar como um fator de unificação, essa memória foi um elemento de divisão. Brecht disse: “Ai do país que precisa de heróis”. No nosso caso, o herói foi mal escolhido, porque o país prescindia bem daquele herói.

O encontro entre duas culturas tão diferentes é um dos pontos altos do livro. Esse é um assunto que te interessa em particular?

Eu sou desse território: o da fronteira entre culturas. Essa é a minha voz, uma voz repartida entre mundos, entre a escrita e a oralidade, entre a ciência e a ficção, entre a Europa e África, entre a língua portuguesa e as outras línguas do meu país. Não é apenas o meu caso. Todos os escritores moçambicanos vivem distribuídos por esses universos.

No Brasil, a história do país anterior à chegada dos portugueses é completamente ignorada. Como ocorre em Moçambique hoje?

No Brasil, não se sabe. Em Moçambique, acha-se que se sabe. As duas coisas são graves. Talvez a presunção de saber seja mais difícil de vencer. Aqui a literatura pode ter uma função quase terapêutica porque é preciso dizer que não houve um único passado. Houve muitos. E isso colide com a ideia de uma certa unicidade e linearidade do tempo. Há que não ter medo dessa diversidade. Essa relação serena com a pluralidade exige um trabalho de sedução. É preciso dizer: cada um de nós é feito de muitos. E o tempo em que vivemos tem muitos tempos dentro.

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