Exu não é gratiluz

Exu é uma divindade, um orixá, e nunca será o que a colonialidade branca quer que ele seja

A psicanalista do Sul contava cheia de autoridade branca travestida de candura que ouvira um filósofo da Paraíba (nordestino, vejam), muito legal, que, depois de pedir licença às africanidades, pontificou que Benjamin, o filósofo, era um Exu. Isso mesmo, um Exu. Eu tinha ouvido direito.

Não houve debate, a professora negra não comentou a coisa, ela tinha compromisso com a harmonia do grupo multirracial. Eu não tinha. Não era bolsista a quem a branquitude podia requerer um comportamento menos participativo em benefício dos pagantes, e meu ouvido não era penico.

Ilustração: Denise Gonçalves

Por que as pessoas não dizem que fulano de tal é Jesus Cristo, com as devidas escusas do cristianismo? Porque o respeitam.  Exu é uma divindade, um orixá, e como tal, um filósofo branco não pode ser Exu. Isso é uma forma de diminuir Exu e só se faz esse tipo de correspondência porque o consideram uma coisa menor e manipulável, passível de desterritorialização em proveito dos que desde a invasão colonial usurparam nossos saberes, roubaram nossos artefatos e escravizaram nossos corpos.

“Não, nada disso. Eu discordo. Exu é uma energia, da forma como eu sinto, como eu percebo, ele é uma energia.”

“Exu é um orixá, não é amostra grátis de cartilha gratiluz.”

“Exu é uma energia.”

“Exu é um orixá.”

“É uma energia.”

“É um orixá.”

“É uma energia.”

“Quem és tu para dizer o que é Exu?”

“E tu, quem és?”

(Gargalhando exunicamente)

“Eu sou negra, sou herdeira da cultura africana que forjou Exu. Tenho história, cultura, ancestralidade, e na minha cultura negra, Exu é um orixá. É assim que eu aprendi e é assim que é, não porque eu deseje que seja, mas porque isso é fruto de um conhecimento histórico e de uma memória ancestral.”

“Você é muito grosseira e autoritária, na minha piração, no meu jeito de sentir, Exu é uma energia.”

“Olha, você pode pirar na casa do caralho, mas deixa meu Exu em movimento na encruzilhada da cultura negra, porque Exu não é bagunça.”

“Que arrogância! Exu não é seu.”

“E seria seu, sinhazinha? Sim, Exu é meu, é da cultura que eu pertenço e que forjou a ele e a mim. Não vou discutir sentimentos brancos sobre meu Exu que é preto, é da minha gente, e você quer transformar em produto gratiluz a serviço das suas pirações de branca rica que se diverte com a cultura negra. Assim vocês fizeram com o samba (as cantoras de samba que vocês reconhecem e que ganham dinheiro hoje são brancas), com a macumba, com o candomblé, com a capoeira. Conheço como vocês operam com a nossa cultura para engordar a conta bancária de vocês.

Teorizar a partir de Exu virou modinha, não é? Mas entenda uma coisa, Exu não é e não será o que a sua colonialidade branca quer que ele seja. Exu é um orixá preto, não é ferramenta para brancos se intitularem desconstruídos, esse é o início da conversa. Se isso não estiver suficientemente compreendido, não tem conversa. Não bato boca com quem não tem patente nessa guerra.”

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