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A FLUP – Festa Literária das Periferias denuncia o genocídio dos jovens negros brasileiros

A FLUP – a Festa Literária das Periferias – começou em 22 de maio, promovendo seus saraus, concursos de poesia, e honrando uma extensa programação, que vai até o dia o dia seis de novembro. Será a última etapa de uma das feiras de livros de maior relevância para o país, quando o Instituto Zuzu Angel receberá um evento de moda, em que todos os estilistas convidados são negros. Juntos, irão denunciar, através da moda, o genocídio de jovens negros das periferias pelo Estado Brasileiro – entre eles Marielle Franco e Amarildo de Souza – repetindo Zuzu Angel, que, com sua moda, denunciou no exterior a execução de jovens brancos de classe média, pela ditadura militar, em 1971.

por Hildegard Angel no Jornal do Brasil

Julio Ludemir, diretor da Festa Literária das Periferias – imagem: Jornal do Brasil

A Coluna conversou com Júlio Ludemir, escritor, roteirista e um dos criadores da FLUP ao lado de seu fiel companheiro, Écio Salles. Para a dupla, tudo começou em Nova Iguaçu, com um projeto embrião, que envolvia feiras literárias e uma oficina para desenvolver textos jornalísticos sobre os problemas que envolviam o município. Naquele momento, afirma Júlio, “foi percebido que havia uma juventude interessada por literatura, e com um perfil mais crítico e maduro do que o meu quando jovem”. Assim, nasceu a primeira edição da FLUP.

Nesta entrevista a JOÃO FRANCISCO WERNECK, Júlio se define como um “mendigo profissional” nesse tempo à frente da Festa ao lado de Écio. Só que foi justamente este “mendigo” que ergueu o troféu da London Book Fair International Excellence Awards 2016, na categoria “Festival Literário”, em uma das cerimônias mais importantes do circuito literário, em Londres.

Écio Salles fundou a FLUPP com Ludemir – imagem Jornal do Brasil

Para Júlio, “não basta dar voz a essas pessoas, é preciso criar um produto, uma rede de contatos também é fundamental, pois essas pessoas precisam se falar, se conhecer. Nosso objetivo é entregar escritores para o mercado”. E a FLUP não deixa a desejar. Desde que foi criada, são 16 livros publicados e cerca de 250 autores revelados ao Brasil e ao mundo, como Geovani Martins, do Vidigal, cujos direitos de seu livro “O Sol na cabeça” já foram comprados por nove países. O evento prova que há algo a mais nas periferias, além de violência e do futebol.  A ideia sempre foi aproximar a arte e a literatura das comunidades carentes. E é um orgulho constatar que o projeto não só deu certo, como é um sucesso ao abrir portas para um segmento social que parece esquecida pelas autoridades públicas.

Como nasceu a FLUP? 

A Flup é um projeto de duas pessoas, uma delas sou eu, a outra é o Ecio Sales. É um projeto absolutamente dividido, particionado, e não tem uma autoralidade. Ele foi feito para a Cidade do Rio de Janeiro, e começou em momento em que Ecio era secretário de Cultura em Nova Iguaçu, e eu o adjunto. Nesse tempo, nós fizemos uma série de ações que envolviam literatura. E sempre houve um questionamento em torno do sucesso desses projetos, como se os jovens de hoje não gostassem mais de ler, ou escrever. Foi naquele momento a gênese da FLUP, quando eu tive a epifania de criá-la. Fiz a sugestão ao Ecio, e a gente começou a articular o projeto, imensamente difícil, que só foi exitoso por causa de uma particularidade muito específica que o Brasil vivia naquele momento.

A qual particularidade você se refere? 

Um governo popular, uma geração de pessoas que estava tirando proveitos das cotas, e que estava mais escolarizada. Uma maturidade daquele governo, sobretudo. Inclusive, se fosse pensada antes, a FLUP não teria acontecido, ela estaria no campo do delírio. Porque já era visionária naquele momento em que foi pensada. Havia o preconceito de que não havia leitor ou escritor nas favelas cariocas. Na verdade, a periferia era vista como o lugar do analfabetismo funcional, da ignorância, onde as escolas públicas não existem. Havia um imaginário popular sobre o que era o favelado, um povo da música, do samba, da festa, e só. Só que na verdade havia uma demanda por leitura e produção textual, sobretudo em áreas de UPP.

Você falou das Unidades de Polícia Pacificadora. Antigamente, a grafia da FLUP tinha dois “P”. Agora só tem um. Por que? 

Em primeiro lugar, ela nasceu com dois “P” por causa de um trocadilho infame que eu fiz.  E aconteceu que, no segundo ano de FLUP, nós entendemos duas coisas fundamentais. A primeira delas é que o público do evento é justamente o mais crítico ao projeto das UPP’s. É uma juventude de periferia que entrou nas faculdades através das cotas, e que teve de imediato a percepção de que as unidades de polícia pacificadora eram uma ideia equivocada. O segundo fator foi a morte do Amarildo. A partir daquele momento, um projeto que veio revestido de ideias populares, que precisava ter uma contrapartida cultural e social, mostrou todas as suas vulnerabilidades. Nós entendemos que nosso público não iria a um festival que tivesse a mínima associação a um estado que matou e escondeu o corpo do Amarildo. Foi uma grande contradição:  a FLUP nasceu como a festa literária internacional das UPP’s. E a gente precisou rever esse conceito, e a transformamos na Festa Literária das Periferias. A verdade é que ninguém queria participar de uma festa associada às UPP’s.

O tema deste ano é “uma ode a nossas origens africanas”. Por que a escolha? 

Em primeiro lugar, pela evidente relevância do tema, que precisa ser debatido. E há um conjunto de fatores que nos levou para esse caminho. O Cais do Valongo, por exemplo, que foi redescoberto recentemente e ganhou o status de Patrimônio Cultural da Humanidade. Esse Cais do Valongo é um evento histórico que precisa ser lembrado para nunca mais ser repetido. Ele foi o maior porto escravagista do mundo, com milhares de negros trazidos da África. Nunca houve tantas pessoas escravizadas passando por um mesmo porto. Isso é algo que precisa ser lembrado para sempre, como o Holocausto, para que nunca mais seja repetido, principalmente em um país como o Brasil, com sérios problemas raciais, que renega com frequência a história de seu povo.

Qual a importância de uma feira literária dedicada para as favelas?

É uma preocupação que acompanha a história da FLUP. A nossa feira nunca se propôs a ser pequena, exatamente por ela acreditar na grandeza do público para o qual ela trabalha. Uma grandeza social, cultural e numérica. As nossas principais referências sempre nasceram pequenas, e só depois foram se consolidando. A FLUP já nasceu com a pretensão de ser grande, porque nós queríamos dizer que havia uma nova geração de jovens no país. Quando a gente propõe este ano essa festa, com essas características, onde todos os autores convidados são negros, a gente também está evitando uma ideia de gueto. São autores que fugiram do gueto, que falam para todos, para qualquer um, sobre qualquer tema. Estamos falando da maioria da população.

A Flup tem um formato extenso, que vai de maio até novembro. Tem algo a ver com essa pretensão de nascer grande? 

Ela tem um formato muito próprio, que talvez seja a sua maior virtude. Ela é processual, o que significa o seguinte: ela recomeça do zero todos os anos. Então é importante que ela seja longa. A gente pode ir construindo uma relação com comunidade. Eu não sou o Pedro Bial, eu não sou a Regina Casé. Eu não sou rico, e não posso promover um evento em um lugar sendo visto como um desconhecido.  É preciso uma relação de confiança com aquelas pessoas. Então, é uma relação que se estabelece para a construção de uma nova literatura. Quando a gente cria um ambiente literário duradouro, com debates, mesas, slams de poesia e processos que duram por alguns meses, o resultado é um ambiente que estimula a produção. Essa troca de experiências é fundamental.

São sete edições de FLUP. Há alguma história curiosa? 

São tantas histórias tocantes… Mas vou te dar uma. Na edição que marcou a nossa ida para a Mangueira, o traficante Tuchinha tinha acabado de ser morto. Havia carros pela comunidade, em represália, com cabeças decepadas pelo tráfico. Foi uma negociação extensa, cansativa, que envolveu inúmeros atores, como polícia, tráfico, lideranças comunitárias, governo.

No Vidigal também foi complicado? 

No Vidigal, ano passado, às vésperas do evento, explodiu a guerra na Rocinha. As pessoas perguntavam: Qual é o plano B? E nós tivemos que negociar tréguas temporárias na cidade. Isso acompanha a nossa história, a negociação de paz entre polícia, traficantes, facções rivais. Só que negociar um armistício é algo irreal na Cidade do Rio de Janeiro. Havia a negociação, mas qual a certeza de que a bomba não iria explodir a qualquer momento?

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