Francisco Marcelo: hildegard e o apartheid

Morador da Vila do João, na Maré, o geógrafo e doutorando em Educação pela UFF Francisco Marcelo, 40, escreveu artigo exclusivo para o Favela 247, criticando a jornalista Hildegard Angel por ter publicado em seu blog texto defendendo a cobrança de taxa nas praias da Zona Sul e a diminuição “drástica” do transporte público que faça o trajeto Zona Norte – Zona Sul, para conter a “hordas de jovens assaltantes”. “Fique tranquila, Hildegard, uma força tarefa dos governos municipal, estadual e federal vem trabalhando firmemente na construção de uma cidade desigual e apartada social, econômica e geograficamente”, comenta Francisco

Por Francisco Marcelo Do Brasil247 

O Apartamento do Bronzeado

O artigo da jornalista Hildegard Angel, publicado no último dia 13, em nada nos causa estranheza ou surpresa. Em um pequeno texto ela sugeriu, entre outras coisas, a cobrança compulsória de uma taxa para quem quiser frequentar as praias da Zona Sul. Sua fúria aponta para os moradores da Zona Norte, a quem chama de horda de assaltantes e arruaceiros. Em poucas palavras o que a jornalista propõe nós já vimos em prática no passado recente em países como a África do Sul, por exemplo: o apartheid.

De fato concordo com a jornalista quando diz o que muita gente pensa, mas não expressa: “é preciso expulsar esse povinho de nossas praias da Zona Sul” (sic). Ela inclusive chega a sugerir maior investimento em transporte coletivo para a Zona Oeste fazendo com que as pessoas, desculpem, pessoas não, hordas, passem a frequentar mais as praias da Barra da Tijuca, Recreio e São Conrado. Segundo ela, praias imensas.

Fique tranquila, Hildegard, uma força tarefa dos governos municipal, estadual e federal vem trabalhando firmemente na construção de uma cidade desigual e apartada social, econômica e geograficamente. A concentração de investimentos de grande volumes em reais em áreas sabidamente elitizadas da cidade com a justificativa pífia dos jogos Olímpicos, em detrimento de áreas mais precisadas, vai ao encontro de sua proposta, mais pragmática, de fechar definitivamente o acesso aos bairros da Zona Sul e Barra da Tijuca.

Segundo Bertolt Brecht: “do rio que tudo arrasta se diz violento, mas ninguém chama de violentas as margens que o aprisionam”. Sua proposta assim como as que vêm sendo implementadas pelos “nossos” governantes, reforçam o velho discurso da cidade que não se comunica, incapaz de reconhecer e valorizar suas mais diferenças e diversidades culturas. Propõe insanamente que a parte mais nobre da cidade, espaço público, é bom lembrar, seja um espaço de distinção.

A mesma distinção que discrimina os moradores da Zona Norte, porque não dizer os jovens da Zona Norte, que são alvos de todo tipo de preconceito e discriminação. Que são vítimas dos olhares enviesados e da violência simbólica dos “distintos” moradores da Zona Sul e alguns turistas, assim como da violência e discriminação policial. Nos resta saber se continuaremos fechando os olhos para o que nossa cidade vem se transformando, ou se ainda continuaremos reforçando estereótipos negativos sobre a população menos favorecida e fechando os olhos para axiomas sociais que apontam para uma guetificação, uma segregação, uma quase exclusão social da grande maioria da população. Ou se de fato apontaremos para a construção de uma polis.

Lamento, Hildegard Angel, que esse processo ainda esteja sendo lento para você. Para os do lado de cá, posso lhe garantir que esse fluxo já foi muito maior. Assim como a discriminação e perseguição contra nossa população jovem que ainda insiste em acreditar que a cidade é de todos e todas. Segundo alguns psicólogos, quando um filho se sente preterido ele busca chamar a atenção dos pais das mais diferentes formas, uma delas é causando alguns problemas sociais ou assumindo uma postura de revolta. Como os integrantes de algumas camadas de nossa sociedade que têm a cultura da terapia, da análise, que tal imaginarmos que o que esses jovens da Zona Norte, como diz você – aliás não tenho conhecimento de nenhuma pesquisa que aponte a origem geográfica das pessoas que frequentam as praias da Zona Sul –, não estejam enviando um recado: “NÃO AGUENTAMOS MAIS SER PRETERIDOS”.

Francisco Marcelo40, é geógrafo pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre e doutorando em Educação pela UFF e morador da Vila do João, uma das 16 favelas da Maré.

 

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