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Grupo democratiza psicanálise com sessões gratuitas na praça da Alfândega

Coletivo também quer revigorar região da cidade que muitas vezes é marginalizada

Por Eric Raupp, do Correio do Povo

Coletivo Psicanálise na Praça começou a atuar no local em julho deste ano | Foto: Guilherme Almeida/Correio do Povo

Troque o divã e as poltronas de uma sala com estantes cheias de livros metodicamente organizados por cadeiras de praia e bancos com a pintura descascada, colocados sobre o chão irregular de pedras da praça da Alfândega. Eis o consultório do coletivo Psicanálise na Praça, coletivo de profissionais de Porto Alegre que, inspirado por experiências existentes em outros estados brasileiros, propõe a democratização da prática psicanalítica, com o atendimento individual e gratuito de pacientes de todas as idades. “Muitas vezes as pessoas não têm acesso a esse trabalho e existe uma visão de que é uma prática elitista. Apesar de viver num círculo burguês, Freud nunca foi assim, era subversivo, das massas”, comenta Fernanda Vial, uma das organizadoras do grupo ao lado da colega Cândice Damé.

Os 11 psicanalistas que compõem a iniciativa começaram a atender gratuitamente na área entre o Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (Margs) e o Memorial dos Correios em julho deste ano. Aos sábados, exceto nos dias de chuva, das 11h às 14h, o grupo prepara o espaço para receber os interessados para uma sessão de terapia, colocando a placa que explica o projeto para que os pedestres possam entender do que se trata. “A ideia é levar a psicanálise para todos, porque acreditamos que seja um caminho que pode possibilitar a produção de pensamento. Além disso, nosso objetivo é trabalhar o coletivo, reconhecer o outro por meio do repensar desse momento tão individualista em que vivemos. Isso é muito importante nos dias de hoje”, comenta Fernanda entre os goles de chimarrão.

O modelo foi inspirado em atuações sociais das cidades de São Paulo, Curitiba e Vitória. Quando o interessado se aproxima e fala que quer participar, uma dupla entre paciente e analista é formada. Eles então pegam uma cadeira e escolhem onde querem sentar ou se acomodam em um banco para conversar. Às vezes, os participantes pedem conversar especificamente por um homem ou uma mulher, mas, caso isso não ocorra, a determinação do psicanalista é feita pela disponibilidade do staff. Apesar de não ser necessária, a continuidade das conversas é recomendada, por isso, há muitos recorrentes ao serviço que voltam, podendo ser atendidos pelo mesmo profissional da sessão anterior ou não.

“Sempre que as pessoas procuram esse tipo de ajuda, elas vão com seus medos e receios. Isso ocorre aqui, mas, desde que começamos, há uma procura cada vez mais crescente, porque as pessoas vão confiando no trabalho, é algo que vai se estabelecer”, comenta Evelise Bastos de Braga, uma das psicanalistas do grupo, sobre o primeiro contato. Ela também diz que não são somente passantes que pedem para falar com alguém e ressalta a dificuldade que teve ao iniciar as atividades. “Foi complicado todos nós sair dos nossos consultórios para oferecer atendimento ao ar livre a céu aberto. É um movimento de evolução nosso também. Enxergar a praça como local de trabalho e nos oferecer enquanto sujeitos de escuta não era fácil”, recorda.

A praça como cenário

A escolha da praça da Alfândega como o ponto de realização das atividades se deu principalmente por sua localização na cidade, mas o lado histórico-social também foi levado em conta. Conforme Evelise, o coletivo visa resgatar a história do lugar, quebrando preconceitos contra a região. “O centro acaba muitas vezes sendo marginalizado, e as pessoas não vem para cá porque têm medo. Elas têm uma ideia de ser um local violento, de segregação”, conta. Ela também destaca que, lá, é possível encontrar “pessoas de todos jeitos, classes, etnias”. Assim, foi preciso pensar em como se conectar com as figuras da praça, pois o coletivo não queria ser entendido como um intruso. “Observamos que a praça tem uma organização muito estabelecida. Há moradores de rua que vivem nesse ambiente, trabalhadores que vendem suas coisas, comenta Evelise.

Para Fernanda, “quando a memória é esquecida, há algo que se repete”. Por conta disso, ela analisa que é relevante fazer com que as pessoas ocupem os espaços públicos. Para o futuro, ela planeja a continuidade do trabalho e planeja novas ações. “Hoje em dia, devido a tudo que tem acontecido com esse momento político, cultural e social do país, há uma necessidade de fazer um resgate da palavra para que possamos dialogar. Nossa ideia é de que façamos saraus para compartilharmos ideias e reflexões, unindo música, história e psicanálise”, comenta. “Só dessa forma podemos resgatar a nossa memória, seja ela social ou histórica, como sujeitos pensantes”, finaliza.

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