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História sobre racismo institucionalizado nos EUA e a posição de Quarterback

“Há quanto tempo você é um quarterback negro?”. Esta foi uma das perguntas que Doug Williams recebeu no Media Day do Super Bowl XXII, no qual Washington venceu Denver no segundo título da história da franquia. Aquele, definitivamente, foi um paradigma – um tanto irônico. Desde então, Williams é o único quarterback de etnia afro-americana a vencer um título da NFL até Russell Wilson no Super Bowl XLVIII. E irônico porque foi justamente pela última franquia a aceitar negros no elenco.

por Antony Curti no PróFutebol

Será que a cor da pele de um jogador na posição mais importante dos esportes americanos define sua habilidade, inteligência ou liderança? Em minha honesta opinião, define tanto quanto a cor dos cabelos ou a cor dos olhos: em nada. É justamente isso que me motivou a escrever este texto enorme.

Já adianto: não são todos que vão concordar com o que está escrito aqui. Boa parte dos leitores não irá concordar e outra boa parte irá xingar nos comentários – ou então dizer que estou agindo como “feminazi” e tocando em assuntos que não deveria. Alguns assuntos precisam ser tocados para que a digestão sobre o futebol americano no Brasil não vire uma eterna tradução do que é feito nos Estados Unidos. Meu objetivo como comentarista na TV ou como redator que fala sobre o futebol americano – e de nós todos aqui em Pro Football – não é simplesmente elogiar qualquer coisa que anda e achar que o status quo tem tudo lindo no futebol americano. É falar sobre assuntos que precisam ser debatidos, também, no Brasil.

Ora, se somos o 3º maior mercado consumidor da NFL e toda hora eles postam coisas em português em sua página, que pensemos como tal. Um desses assuntos é justamente se existe racismo com quarterbacks negros. Prepare-se, será um textão.

Um pouco de história

O primeiro quarterback afro-americano na história da NFL é justamente um dos primeiros quarterbacks da história do jogo, Frederick Douglass “Fritz” Pollard, em 1921 com o Akron Pros. Mas preste atenção neste dado: não é isso que realmente importa. Pollard não era quarterback como hoje imaginamos a posição, dado que embora o passe para frente fosse permitido pela regra, ele era “banido” pelo costume (apenas em 1933 ele assume a característica que tem hoje).

À época, a liga era algo varzeano. Não havia tanto dinheiro envolvido (frise este termo, estamos falando de Estados Unidos afinal). Quando começa a surgir um grupo mais sedimentado de donos de franquias, ergue-se uma barreira racial. De 1934 a 1946 não existe nenhum negro em qualquer time da NFL. Nenhum. Este, talvez, seja o argumento condutor deste texto; Embora tenhamos notícia na imprensa de várias atitudes racistas bárbaras, a maior parte dos atos racistas – seja com negros ou com qualquer outra – é velada. É silenciosa, é uma omissão. Mas vale lembrar, em termos lógicos, tanto a ação quanto a omissão produzem um resultado.

O resultado foi o banimento silencioso de negros por parte das franquias da NFL. Nas entrelinhas, embora ninguém assuma, o ato teve gênese na vontade de George Preston Marshall – que, coincidência ou não, você lendo este texto define, mudou o nome de seu time para Boston Redskins na mesma década.

A admissão de negros só aconteceu novamente em 1946. E o dinheiro, como sempre foi e será, acabou sendo o fato gerador para tal. A comissão que controlava os direitos do Coliseu de Los Angeles pressionou para que os locais Kenny Washington e Woody Strode (ambos de UCLA) tivessem uma chance na NFL – não a obtinham tão somente porque eram negros. De mudança após saírem de Cleveland e com a liga morrendo de medo do sucesso da nova rival AAFC com os Los Angeles Dons, a NFL e Dan Reeves (não confundir com o homônimo técnico), dono dos Rams, acabaram aceitando. Logo na sequência, Paul Brown, no alto de sua inteligência focada em conseguir os melhores atletas independente de sua cor para os recém formados Cleveland Browns, assinou com dois atletas negros.

O segundo quarterback negro veio apenas em 1950 com George Taliaferro. Aliás, guarde este nome, já voltaremos nele. Estamos na metade do século e absolutamente nenhum jogador brilhou na posição – enquanto isso Jackie Robinson já era All-Star na MLB com os Dodgers. Na década de 1960, o governo federal americano (sobretudo na figura do democrata Robert F. Kennedy) pressionou para que George Preston Marshall integrasse sua equipe e permitisse a presença de negros. Dono dos Redskins (e notório segregacionista), Marshall é autor da infame frase “assinaremos com pretos quando o Harlem Globetrotters assinar com brancos”. A pressão do governo foi de que a legislação federal deveria ser aplicada também em associações privadas – ou seja, a equipe não poderia jogar no D.C Stadium, localizado em terras da União, caso não capitulasse à imbecilidade racista. Não tendo opção, Marshall cedeu por conta do dinheiro.

O primeiro quarterback negro escolhido numa primeira rodada de Draft profissional veio apenas em 1969 com o Oakland Raiders e Al Davis (que sempre foi sensível à questão de oportunidades às minorias étnicas), seu nome era Eldridge Dickey, de Tennessee State (considerada um “black college”). Na mesma época, James Harris foi o primeiro negro a começar uma temporada como titular – na época ainda estamos falando da progressista AFL, em Buffalo no caso. Os relatos de Harris são notórios. “Tendo crescido num ambiente segregado, frequentado uma universidade só para negros… Me senti estranho naquele primeiro huddle, numa posição de liderança e dando ordens para outros dez jogadores brancos”.

A bem da verdade, a parte de corajosos pioneiros, a presença de negros na posição até Doug Williams foi bastante diminuta. Williams foi escolhido pelo Tampa Bay Buccaneers na primeira rodada do Draft de 1979. Depois dele, nenhum quarterback negro entrou na NFL por cinco anos. Esta é a deixa para que eu possa falar de uma lenda injustiçada.

O caso Warren Moon e o paradigma Randall Cunningham

Não tendo espaço para quarterbacks negros na NFL, Warren Moon acabou tendo que tentar uma chance numa liga que passasse por cima de qualquer preconceito por uma barganha de talento. Moon entrou a CFL em 1978 e prontamente liderou o Edmonton Eskimos ao título da Grey Cup.

Em… Cinco temporadas seguidas. Veja, o futebol canadense tem características diferentes do futebol americano – mas em termos de jogo aéreo e algumas das intangíveis e talento desejado, há semelhança do que se deseja num quarterback de CFL e num quarterback da NFL. Não é possível que nenhum scout da NFL não tenha percebido isso e um outro, menos experiente, tenha dado essa sorte. É desprezar a inteligência das pessoas afirmar isso. Para mim, pura e simplesmente, foi racismo. Não existe qualquer outra resposta a essa injustiça do ponto de vista lógico. Não depois de cinco títulos e ser um exímio passador.

Somente depois desses cinco títulos seguidos a NFL baixou a guarda racial – muito também pela questão de barganha. Moon veio a se tornar pro bowler em nove oportunidades e está listado como um dos jogadores com mais jardas aéreas totais na história da liga.

Isso que mais me intriga. Muitas pessoas (uma vez perguntei no Twitter) acham hoje que Warren Moon corria bastante com a bola. De maneira velada, isso se dá apenas porque ele era negro. Mas o ponto é que nem ele e nem Doug Williams podem ser considerados scramblers – mas, sim, pocket passers. Doug Williams teve nove jardas corridas na temporada em que venceu o Super Bowl, em 1987. Moon, conquanto móvel, o era tanto quanto Aaron Rodgers é hoje. Ou até menos. Sua melhor temporada em termos de jardas corridas foi em 1989, com 268. Rodgers teve números melhores do que 268 jardas pelo chão em quatro de suas oito temporadas como titular em Green Bay. E é branco.

O grande ponto é que o imaginário popular considera, por default, que um quarterback negro irá correr bem com a bola porque existem muitos bem sucedidos nesse quesito. Michael Vick, Vince Young e o pioneiro de todos, Randall Cunningham. Mas e se eu te dissesse que causa e efeito são coisas completamente diferentes? Será que eles não correm bem com a bola porque foi a única oportunidade encontrada?

Do ponto de vista lógico, funcionou assim: o status quo, impenetrável no imaginário conservador ronaldreagano americano dos anos 1980 (e ainda hoje, embora em menor parte), é que negros não são tão inteligentes do que brancos e não são tão capazes de estar em posição de liderança (ou seja, duas características vitais para um quarterback). Assim, para ter uma chance na posição, foi necessário que de certa forma eles revolucionassem o jogo. É o que aconteceu com Randall Cunningham. Em 1990, Randall correu para 942 jardas. Todas aquelas crianças negras viram nele uma oportunidade de estar no centro das atenções, de ser como ele, de correr como ele, de ter uma chance como eles.

Daí surge uma questão muito simples: você é bom no que você pratica. Se um jogador tiver uma habilidade genética (que independe de raça) sendo bom corredor e não tão bom passador, ele irá privilegiar o treinamento daquilo que ele é bom. É o mais fácil e a maior parte das pessoas é assim. Qual seria a diferença, em efeitos práticos, de um Johnny Manziel (branco) e de um Michael Vick (negro)? Para mim, nenhuma que tenha como origem a cor da pele. São dois jogadores atléticos que priorizaram a capacidade de improvisação a qualquer outra, como leitura defensiva ou liderança.

O surgimento de Randall Cunningham como alternativa acontece no mesmo ponto histórico (anos 1990) em que os ataques do College Football se revolucionam para tirar vantagem de defesas menos atléticas, complexas e inteligentes (até porque haveria menos tempo para treinar, devido ao fato deles estarem na faculdade e terem aulas/provas etc). Nesse sentido, técnicos vem dando prioridade às capacidades atléticas desses jogadores (seja ele negro ou branco, como os Tim Tebows e Johnny Manziels que temos por aí) em oposição à qualquer outra intangível necessária no nível profissional. Com o paradigma de Cunningham (de que era necessário ser como ele para quebrar a barreira racial na posição, historicamente deduzida acima), esses adolescentes dos anos 1990 acabaram se transformando em scramblers. É natural de um quarterback negro ser scrambler? Não. Os primeiros antes de Cunningham, os quais listei acima, não eram. A bem da verdade, o primeiro, Fran Tarkenton, era caucasiano. A relação causa-efeito não existe. “Quarterback são tachados de móveis e não pocket passers por serem negros e recebedores brancos sempre são sempre descritos como “surpreendentemente rápidos”. Essas generalizações são apenas a ponta do iceberg e são das menos ofensivas”, disse-me Rodrigo Sanzovo, que grava o podcast comigo.

O problema começa no College

“Tudo se inicia no college scouting, fase em que olheiros, além de observar os jogadores dentro de campo, estudam a vida dos jogadores em busca de informações sobre sua vida pessoal. É histórico e bem sabido que se questiona muito mais o caráter e o background de atletas negros do que de seus iguais de pele branca”, disse-me Rodrigo, que acompanha o College e o recrutamento a fundo. “Não é raro ver atletas negros sem o menor histórico de confusão serem caracterizados na mídia como tendo “questões sobre seu caráter” meramente por abraçar a cultura negra norte-americana, isto é, pura e simplesmente se vestir e agir de forma diferente que o “padrão” com os quais os times se sentem confortáveis”, completou.

Os times da Universidade de Miami no futebol americano universitário entre o início das décadas de 1980 e da década de 1990 e da Universidade de Michigan ao início da década de 1990 no basquete universitário colaboraram para uma libertação cultural da mesma maneira que houve a libertação de direitos civis da década de 1960.

É tão forte o status quo que no recrutamento para jogadores no College existem rótulos “pro-style” e “dual-threats”. Será que a quantidade de melanina na pele determina isso? Novamente a questão da causa-efeito se mostra presente. Já adianto que não. Por “pro-style”, entenda aqueles que acabam tendo as habilidades e os talentos para brilhar no sistema profissional.

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Na pesquisa para este texto, achei algo bastante interessante no Bleacher Report. Abaixo você vê a classe de 2012 dos 15 melhores “pro-style” quarterbacks do Ensino Médio. Todos brancos.

Agora veja a lista dos 15 melhores prospectos “dupla-ameaça” para 2012. Majoritariamente negros. Veja se você reconhece alguém. E, caso reconhecer, lembre-se qual era a maior virtude dele no processo de Draft para a NFL em 2015. Depois disso, leia o próximo parágrafo.

No topo, à esquerda, temos um quarterback que vem se destacando como um dos melhores na posição passando a bola. Um jovem que jogou em Florida State, um ataque rotulado como pro-offense. Que fazia leituras, progressões em recebedores e que é pocket passer. Como maior trunfo no processo de Draft, havia o fato dele ser “pronto para a NFL” e inteligente conhecedor do jogo. Seu nome, Jameis Winston.

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Por maiores fossem meus problemas com as questões extra-campo de Winston quando de sua época em Florida State (algumas graves, como acusações de estupro), tenho de reconhecer que ele vem se provando um líder, um jogador inteligente. E nessa mesma lista de Winston, um jogador que não foi lapidado como passador, Trevor Knight – que será reserva em Oklahoma no College Football Playoff. Um pequeno detalhe: está vendo todos os quarterbacks super cotados antes de entrar no College? Só um deles está na NFL como titular, Winston.

A questão, com efeito, é de oportunidade, não de cor de pele. Bons passadores são aqueles que são lapidados como bons passadores. Esta é a relação de causa-efeito. Muitos até acabam até tendo a oportunidade que merecem como quarterbacks no College – mas suas habilidades de passador não são lapidadas, dado que sabem que serão preteridos como passadores pocket passer. Então se especializam em serem atléticos, fortes, rápidos. Feita essa primeira especialização, poucos técnicos têm a coragem de desenvolver o passador, o quarterback. Eles sabem que na NFL é impossível defender o passe perfeito. Mas também sabem que no College a via mais rápida às vezes acaba sendo a spread offense com temperos de read option.

… E termina na NFL

O que começa errado, em suma, termina errado, esse é um princípio lógico-aristotélico. O caso de Terrelle Pryor é clássico. Pryor é o detentor do record para corrida mais longa na história da NFL para um quarterback, com 93 jardas. Saindo do Ensino Médio, era um jogador como Jameis Winston, uma ameaça dupla. 1,98 metros e 106 quilos de pura massa magra, Pryor foi recrutado por Ohio State – que até aquele momento executava a clássica unidade ofensiva da Big Ten, com linha forte e jogo parecido com o da NFL.

Ao invés de investir em desenvolver seus talentos de passador como Jimbo Fisher fez com Winston em Florida State, o técnico Jim Tressel usava Pryor como uma arma secreta, buscando explorar seu atleticismo. Depois de sua carreira como jogador de universitário, ele despencou na NFL sendo um passador tão bom quanto o era na época. O resultado foi catastrófico, obviamente. “Por mais que a habilidade atlética seja desejável em qualquer signal caller, no momento em que essa dimensão do jogador deixa se surtir o efeito de outrora devido ao fato das defesas da NFL serem mais inteligentes e rápidas do que as do College, o jogador é forçado a fazer a evolução de anos em pouco tempo. Naturalmente, tamanho salto não se dá numa janela de uma, duas temporadas, o que faz com o quarterback deixe de ser uma opção para guiar uma franquia em pouquíssimo tempo”, relata Eduardo Miceli, nosso redator aqui em Pro Football.

Vendo esses recentes casos de quarterbacks móveis (que acabam não acabam sendo negros por uma relação de causa-cor e efeito-corredor, como dissemos acima), muitos jogadores acabam recebendo uma transição “forçada” para outras posições. O que não ocorre sistematicamente com brancos. André Bassi, nosso editor executivo e especialista em College Football, me relatou o seguinte sobre:

“Essa estrutura já começa lá mesmo no Draft. Todos sabemos que nem sempre um quarterback universitário se transforma num bom quarterback profissional, mas volta e meia vemos franquias da NFL se arriscando mesmo assim. Só que quando falamos de quarterbacks negros vindos do college football, há também uma outra tendência.

Lá em 1949 tivemos o primeiro caso: George Taliaferro foi uma lenda de Indiana e acabou sendo o primeiro jogador negro draftado pela NFL, mas só atuou como quarterback em seus dois primeiros anos como profissional, sendo posteriormente convertido a halfback. Mesmo sendo a primeira,  não foi a última vez que isso aconteceu, e podemos claramente dizer que a história dos quarterbacks negros na NFL se mistura à história dos wide receivers, running backs e cornerbacks negros que atuavam como quarterbacks antes de se tornarem profissionais.

E antes que você diga que é exagero meu ou venha usar como token um quarterback negro bem sucedido na NFL que não foi convertido, gostaria de citar um dado interessante do site Ebony: Desde o primeiro Draft da NFL em 1936 até o de 2008, 719 quarterbacks haviam sido selecionados, dos quais apenas 96 eram negros; destes 96, 33 foram convertidos para outras posições (mais de um terço), enquanto apenas 10 dos 617 quarterbacks brancos foram convertidos.

Isso significa que eles não sejam ou não possam ser bons pocket passers? Absolutamente não. Talvez isso só signifique que eles nunca tenham tido oportunidades reais de se desenvolverem como bons pockets passers, pois deles já se esperava um estilo de jogo diferente desde cedo justamente pelo fato de serem negros – o que me faz alterar levemente meu discurso inicial: essa estrutura não começa apenas no Draft, mas muito antes disso.”. Pois é, começa muito antes, como dissemos acima. Mas o exemplo de 2015 com Cam Newton pode ser o que precisamos para que o paradigma seja quebrado.

O caso de Cam Newton e o porquê dele ser importante

A exemplo de Randall Cunningham sendo bem sucedido e admirado como scrambler – e assim fomentando o imaginário de milhares de crianças negras que queriam ser como ele e viam em suas ferramentas uma chance de ser bem sucedido – Cam Newton pode ser o mesmo exemplo, mas como passador.

Newton está arquitetando uma mudança histórica nesse sentido. Quando ele vence os jogos, na maioria dos casos é com passes – como o foi na semana passada contra o New Orleans Saints. Mais: está fazendo isso sem ter nenhum wide receiver de calibre. E aí eu me pergunto: por que isso não é reconhecido como deveria? Depois de ler todo este texto, talvez você tenha alguma resposta para isso. Por que quando Rodgers e Brady perdem, pingam desculpas “ah, mas ele perdeu o principal recebedor!” e quando Cam Newton está invicto até a semana 13 e se torna apenas o nono quarterback da história da NFL em tal feito, ninguém fala nada?

Ou pior: sempre quando o assunto é Cam Newton, surgem desculpas para sua performance. “Ah, mas Brady tá tirando água de pedra”. “Ah, mas Carson Palmer isso, aquilo”. Da mesma forma que em 1930, em 2015 o negócio é vencer. E ele vence. Nenhuma outra característica é mais nobre num quarterback do que a capacidade de vencer quando importa. Caso contrário, Tom Brady e Joe Montana, com seus quatro anéis de Super Bowl, não seriam rotulados como os melhores da história.

Como resposta, muitos irão apontar que Newton não tem tantos touchdowns aéreos na temporada ou qualquer outra coisa do gênero. É aí que as estatísticas avançadas surgem como argumento; Quando atrás no placar durante o último quarto, Newton tem 76.9% de passes completos, 11,7 jardas por passe (ou seja, um first down, em média, por passe), três touchdowns e nenhuma interceptação. Se isso não é ser um grande quarterback, eu sinceramente não sei mais o que é ser um.

Cam Newton é meu MVP neste ano porque é o jogador mais valioso da liga, simples. Sem ele o Carolina Panthers não seria nem de longe o mesmo time. Se quiser dar mais desculpas, endeusar a defesa, lembro que Luke Kuechly perdeu jogos por concussão neste ano e que a defesa foi uma mãe contra os Saints na semana passada. Se ainda quiser menosprezá-lo “ah, era a defesa dos Saints”, lembro que era um adversário divisional fora de casa – e esses jogos nunca são fáceis. Aquele passe para Greg Olsen numa quarta descida, para manter a campanha da virada viva, foi fantástico.

Acima de ser MVP, a temporada de 2015 para Cam Newton é especial porque forma um paradigma com efeitos positivos para o longo prazo. Uma criança afro-americana que assiste a Cam hoje, enxerga nele uma possibilidade de ser quarterback na NFL, passar a bola com precisão e ser bem sucedido – sem precisar ser atlético para tanto.

Não torço para o Carolina Panthers, não tenho origem negra; Mas sou ser humano. E quero ver as pessoas tendo chances iguais aos olhos dos treinadores. Que um head coach na oitava série não coloque um garoto negro para correr, negligenciando sua capacidade de passador porque “é assim faz tempo”. Se depender de Cam Newton, um quarterback negro não será quarterback negro. Eu nunca mais precisarei usar o termo num texto, porque as pessoas não verão diferença (diferença esta que tem uma origem torta, para buscar oportunidade, como disse acima) entre ele e qualquer outro, dado que ele passa tão bem quanto qualquer outro e tem mais vitórias neste ano do que qualquer outro. “Ele lidera o time para a melhor campanha da história da franquia”, disse-me um antigo escritor aqui do site, Rafael Guimarães.

Mesmo que Donovan McNabb e Steve McNair tenham guiado seus times ao Super Bowl – e que Russell Wilson tenha vencido recentemente – ainda persiste o estigma aos três de que eles eram mais “corredores do que passadores”. A Wilson, sobretudo – e ele merece entrar nesta conta como passador, sobretudo com o que está fazendo nos últimos três jogos – as mesmas desculpas apareciam. “Ah, mas ele tinha o Marshawn Lynch”, “Ah, mas ele faz muita option e não passa tanto”. Não. Neste ano o paradigma é outro. E Cam Newton está solidificando isso. Sem wildcat, sem um ataque somente baseado em read option. Mas com aquela jogada impossível de defender: o passe perfeito.

Aliás, não vou mais usar o termo mesmo. Da mesma forma que você não vê as pessoas chamarem Marcus Mariota de quarerback havaiano, eu não farei mais essa diferença estúpída. Apenas darei rótulos para a capacidade do jogador quanto a passes, corridas e até recebendo como Tom Brady semana passada.

Frederick Douglass “Fritz” Pollard, Doug Williams, George Taliaferro, Eldridge Dickey, James Harris, Vince Young, Randall Cunningham, Michael Vick, Steve McNair, Teddy Bridgewater, Tyrod Taylor, Russell Wilson e Cam Newton não são quarterbacks negros. Eles são apenas quarterbacks.

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