Hora de discutir a relação

Por: Fabi Mesquita

É a primeira vez que vou me pronunciar sobre o PT e a crise.

Não sei se demorei a fazê-lo mas não podia mais evitar o assunto.

A maioria das pessoas com as quais convivo sabe que venho de uma formação de esquerda e que desde a mais tenra idade mantive-me engajada em diversas causas sociais como direitos das mulheres, Ecologia, justiça social, pacifismo e empoderamento Juvenil. Muitas dessas bandeiras eu trabalhei junto ao PT, por muitos e muitos anos.

Entrei para a militância política, com pouco mais de 11 anos de idade, em parte por ser fruto desse meio e em parte por ter um coração indomável, inconformado com as misérias da vida.

Durante muito tempo eu acreditava na revolução política como única alternativa para transformações sociais de grande porte e achava que através da militância partidária realizaríamos nosso sonho de ver um Brasil melhor.
Aos 14 anos, meus olhos marejavam quando ouvia tocar ” a bandeira do meu partido, é vermelha de um sonho antigo, cor da hora em que se levanta, levanta agora, levanta a aurora”.

Pois bem, a bandeira do “meu” partido tem se tornado mais pálida a cada dia. Digo “meu” entre aspas, porque sempre fui libertária demais, aquariana demais para ir mais longe do que apoiar as causas nas quais acredito, e por isso, embora fosse conhecida por muitos anos como a Fabiana do PT, eu nunca fui filiada nem a esse nem a partido algum.

A bandeira do meu partido começou a perder o seu brilho lá no início de seus governos federais quando começou a trair a causa ambientalista.

Sou uma mulher disciplinada e treinada para aceitar direções tomadas pelo partido mesmo quando não concordasse com elas, mas isso desde que essas decisões não afetassem meus princípios, e as muitas traições relacionadas às questões ambientais iniciaram um processo meu de mergulho interior muito profundo. Desde esse momento eu me recolhi a um certo estado de discrição, não fiz mais campanhas públicas, não pedi mais votos, não militei mais na causa partidária, só nas humanas. Mais adiante vi com grande frustração muitas outras burradas na área de saúde, educação, questões de gênero e direitos humanos, mas errar é humano e eu não esperava um governo perfeito , então tentava lidar positivamente com esses desapontamentos. Eu até tentei relevar quando alguns casos isolados de corrupção começaram a pipocar por aí, eles eram casos isolados e poderiam acontecer a qualquer partido, já que a corrupção é inerente aos seres humanos e não às siglas, mas puxa vida, agora as coisas foram longe demais!

Não me sinto confortável justificando o comportamento horroroso de alguns supostos “companheiros” com o péssimo comportamento daqueles que se envolveram com a privataria tucana. Primeiro de tudo, porque nós sempre nos autoproclamamos os diferentes, os éticos, os de moral ilibada. Então esse papo de “eles também fizeram” parece no mínimo coisa de criança no primário, eu furei o olho dele, mas ele também furou o olho do outro.

Não é desculpa, não é justificativa! Eu devia ter uns dez anos de idade quando aprendi com a minha professora de História. Um erro não justifica o outro.

Também não acho justo o tratamento dado à imprensa. Deus sabe que às vezes eu tenho vergonha de dizer que eu sou jornalista. Concordo que revistas como a VEJA não só são um verdadeiro lixo editorial como são ainda daninhas, nocivas, mentirosas e de rabo preso com o que há de pior por aí, mas hoje, até veículos sérios como a Carta Capital (que sempre apoiaram o Lula e os governos petistas) estão cobrando uma postura mais séria por parte da direção do partido.

Eu não quero crer que estejamos nos tornando uma militância burra e sem capacidade crítica, e o pior, sem capacidade de autocrítica! É muito triste que não usemos esse momento para uma reflexão interna de tudo que está se passando.
Há exageros? Sim, estamos todos lançados na vala comum.

É a caça as bruxas que condena à fogueira pessoas ilibadas, simplesmente porque elas estão debaixo de uma mesma sigla que algumas outras que são corruptas, mas também é o momento para limpar, tirar do partido o que não presta, pedir desculpas, sanar a ferida e fazer algo!

Me perdoem, mas ficar nesse processo ridículo de autocomiseração, transformando réus em mártires e justificando um monte de gente que traiu a nossa bandeira, isso não dá.

Nós também fomos traídos! Não foi apenas a sociedade. Nós petistas também fomos traídos por gente que não merecia estar sob a luz da nossa estrela.

Nós a militância honesta, limpa, que ralou sem ganhar nada, que dedicou literalmente sangue, suor e lagrimas para construir esse partido, temos o direito a (no mínimo) uma explicação.

Eu não vou levantar aqui para fazer a defesa cega de gente sem compromisso com causa nenhuma, só porque eles estão fazendo uso de uma sigla na qual eu investi quase toda a minha vida.

Bíblia debaixo do braço não faz ninguém cristão, camiseta do greenpeace não faz ninguém ambientalista e ficha de filiação não faz ninguém socialista. (e muito menos honesto).

Meu compromisso é com o povo que sempre amei, com o meu país, com os meus verdadeiros companheiros de luta e acima de tudo, com a verdade.

Precisamos lembrar que a música, a bandeira do meu partido que tanto cantamos ao longo da nossa trajetória política, termina com a seguinte frase: “Mas a bandeira do meu partido, vem entrelaçada com outra bandeira, a mais bela, a primeira, verde-amarela, a bandeira brasileira!”
(e se não for assim, eu não quero!)

Ps: Sim, eu quero a CPI da Privataria Tucana e quero tucanos ladrões na cadeia, mas eu também quero ladrões petistas na cadeia e todo e qualquer tipo de parasita que tire do nosso povo o que ele já tem de tão pouco. E recadinho para turma de direita: O Erasmo Dias não tinha razão de nada. Esse homem, (se é que podemos chamar uma abominação daquelas de homem.) era um ser desprezível, assassino e torturador . Andei lendo por aí que ele tinha uma razão quase profética de dizer que todos aqueles militantes que lutaram contra a ditadura estavam desde o princípio movidos por sentimentos de interesse pessoal e não por ideologia. Certamente quem fala esse tipo de besteira não tem a menor noção do que é tomar choques nos testículos ou ter o filho arrancado de seu ventre ou os mamilos arrancados com alicates. Não sabem o que é perder a família, a vida e a liberdade.

Pra quem repassa esse tipo de mensagem só uma pergunta: Você é um direitista convicto ou só um inocente útil mesmo? Não misturemos as coisas sim? O fato de algumas pessoas estarem envolvidas com coisas erradas não dá o direito de ninguém lançar na vala o nome de milhares de militantes decentes que foram torturados, mutilados, privados de liberdade (e muitos, da vida) para que você pudesse, entre outras coisas, ter essa liberdade que tem, até para postar essas suas bobagens no Facebook ok? Muita gente lutou e luta por um mundo melhor e a maioria dessas pessoas não ganha absolutamente nada com isso, exceto o amor e a liberdade, o que pra mim, parece riqueza grande o suficiente (emobora para outros tantos pareca que não). Jogar a água suja fora com o bebê dentro é no mínimo uma estupidez.

 

 

Fonte: Dom da Primavera 

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