Léa Garcia foi nome importante da arte contra o racismo

Atriz que morreu aos 90 anos foi ativista, mas também se destacou por seu talento

A arte brasileira perdeu um de seus maiores representantes nas lutas pela representatividade negra e contra o racismo: a carioca Léa Garcia morreu nesta terça-feira (15), aos 90 anos. Conhecida por papéis como a Rosa de Escrava Isaura, a atriz era homenageada neste ano no Festival de Gramado e estava na cidade gaúcha, onde o evento começou no dia 11 e segue até este sábado.

De acordo com o Hospital Arcanjo São Miguel, citado em nota pela organização do evento, a causa da morte foi um enfarte agudo do miocárdio. A homenagem a ela e à colega Laura Cardoso, de 95 anos, aconteceria na noite de terça-feira (15). As duas foram vistas juntas no sábado, 12, em uma das sessões do festival.

Após a confirmação da morte, a organização informou que, a pedido da família, a homenagem será mantida. O filho da atriz, Marcelo Garcia, receberá o troféu em nome da mãe no palco do Palácio dos Festivais no início da primeira sessão.

Léa em Orfeu Negro, que rendeu a ela uma indicação em CAnnes. (Foto: divulgação)

Já a entrega do troféu Oscarito para Laura Cardoso foi reagendada. A cerimônia será realizada na sexta-feira, 18 de agosto, também no Palácio dos Festivais.

Léa, homenageada agora pelo conjunto da obra, já ganhou Kikitos – nome dado ao troféu do Festival de Gramado -, por Filhas do Vento (longa-metragem de 2004), Hoje tem Ragu (curta-metragem de 2008) e Acalanto (curta-metragem de 2013). A atriz também já foi indicada ao prêmio de melhor interpretação feminina no Festival de Cannes por sua atuação no filme Orfeu Negro (1959).

Dona Léa soma mais de 100 produções, incluindo cinema, teatro e televisão, e continuava no pleno exercício da profissão. Recentemente, ela estava em negociação para reviver Inácia, a personagem Chica Xavier no remake da novela Renascer, segundo informações do jornal O Globo.

Léa fez uma participação especial na série Vizinhos, que estreia no Canal Brasil no próximo dia 25. Dirigida por José Eduardo Belmonte, a produção traz 12 atores que se revezam em diferentes papéis para gerar reflexões sobre o próprio comportamento.

A artista esteve em cartaz nos palcos de São Paulo no final do ano passado ao lado de Emiliano Queiroz. Os dois apresentaram o espetáculo A Vida Não É Justa, dirigido por Tonico Pereira, no Sesc Santana.

Neste ano, Léa ganhou uma biografia, e compareceu ao lançamento de Entre Mira, Serafina, Rosa e Tia Neguita: a Trajetória e o Protagonismo de Léa Garcia, escrita por Julio Claudio da Silva.

Antirracismo

Nascida em 11 de março de 1933 no Rio de Janeiro, Léa Garcia teve grande importância ao coroar o espaço de artistas negros na dramaturgia brasileira.

Léa Garcia e Isaac Bardavid em Escrava Isaura, de 1976. (Foto: Acervo Globo)

Foi aos 16 anos que ela conheceu o Teatro Experimental do Negro (TEN), grupo liderado por Abdias Nascimento, conforme a biografia traçada pelo Ipeafro (Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros). A estreia da atriz nos palcos se deu em 1952, com Rapsódia Negra, em que ela interpretava uma poesia de Castro Alves. Demorou para que Abdias a convencesse a atuar, mas Léa estaria presente em sete montagens do TEN.

Foram inúmeros os espetáculos em que Léa esteve presente com sua voz firme. Dentre elas, estão Anjo Negro e Perdoa-me por traíres, de Nelson Rodrigues, além de outros clássicos, como Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, e Piaf, ao lado de Bibi Ferreira.

Orfeu da Conceição daria origem a uma das obras mais marcantes de sua carreira: Orfeu do Carnaval, lançado fora do Brasil como Orfeu Negro, de 1959. Dirigido pelo cineasta francês Marcel Camus, o longa foi laureado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes e também foi vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1960.

Em Cannes, a artista foi indicada ao prêmio de melhor interpretação feminina, mas acabou ficando em segundo lugar. Léa também colecionou participações em diversos outros filmes, como Ganga Zumba (1964) e O Maior Amor do Mundo (2006), de Cacá Diegues.

O cineasta Joel Zito Araújo, que trabalhou com a atriz em Filhos do Vento, longa premiado no Festival de Gramado, e O Pai da Rita (2021), enalteceu a trajetória da atriz após o anúncio da morte. “Perdemos ela no apogeu do seu reconhecimento artístico, que veio tarde, mas veio. […] Enquanto o Brasil perde uma estrela de primeira grandeza, o Orum fica mais bonito”, escreveu.

Na televisão

O início do apogeu da carreira da atriz na teledramaturgia ocorreu no início da década de 1970, em que Léa interpretaria uma de suas personagens mais marcantes na novela A Escrava Isaura, da TV Globo. A artista viveu Rosa, uma escrava atingida pelas injustiças sociais que se tornaria uma das vilãs do folhetim.

Outras novelas também marcariam a trajetória da artista na televisão brasileira, como Selva de Pedra, Xica da Silva e O Clone. Léa teve imenso destaque na quebra de personagens que eram direcionados a atrizes negras.

Ativismo

A atriz também levaria seu ativismo antirracista para fora dos palcos e das telas. Ela foi servidora pública no Ministério da Saúde, ingressando no Departamento Nacional de Endemias Rurais na década de 1960, e também trabalhando no Hospital Psiquiátrico Philippe Pinel até a década de 1990.

No hospital, a artista desenvolveria atividades que uniam teatro e terapia em prol dos pacientes do local, que, segundo a plataforma Google Arts & Culture, possivelmente teria sido inspirada em atividades realizadas no TEN para aliviar os efeitos do racismo.

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