segunda-feira, setembro 20, 2021
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Lígia Ferreira redescobre o jornalismo de Luiz Gama

Pouco conhecida dos brasileiros em geral e ausente dos currículos das escolas  de comunicação, a obra jornalística do também poeta e advogado abolicionista  Luiz Gama está agora mais acessível ao público graças a essa  nova coletânea. O destaque ao trabalho jornalístico de Gama se justifica, uma vez que ele foi, durante praticamente toda sua vida, um homem de imprensa, articulista e comentarista jurídico, inclusive no âmbito internacional. Conhecido como poeta, principalmente pela ampla difusão dos versos do poema “Quem sou eu” (mais conhecido como “Bodarrada”), o único intelectual brasileiro submetido à escravidão passou à história por sua atuação como advogado dos escravizados, mas tinha também como profissão o jornalismo, atividade à qual se dedicou durante praticamente toda a vida.

Muitas pessoas que conheço e outras tantas que não conheço consideram a professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Lígia Fonseca Ferreira como a maior conhecedora da vida e obra do jornalista, advogado abolicionista e poeta Luiz Gama (1830 – 1882), herói da pátria e patrono da abolição do regime escravocrata no Brasil. Responsável  pelo resgate da obra escrita de Gama, a professora Lígia organizou como trabalho pioneiro a reedição  crítica das Primeiras Trovas Burlescas de Luiz Gama e Outros Poemas, (Martins Fontes, 2000), coletânea que inclui o texto cotejado de Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, único livro publicado em vida (1859) pelo baiano radicado em São Paulo, Luiz Gonzaga Pinto da Gama.   O segundo livro de Lígia sobre o tema é Com a Palavra Luiz Gama: poemas, artigos, cartas máximas (IMESP, 2011), obra organizada, como sugere o nome, para que o leitor tenha uma ideia dos variados campos em que Luiz Gama exerceu seu talento literário.

E o mais recente trabalho dessa intelectual negra paulistana nascida no bairro de Pinheiros é Lições de resistência: artigos de Luiz Gama na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro,  lançado em e-book e em papel pela SESC Edições. O trabalho reúne artigos publicados na imprensa abolicionista de São Paulo e do Rio de Janeiro durante as décadas de 1860 a 1880, período em que Gama tornou pública e atuou nos tribunais contra a permanência de escravizados que deveriam estar protegidos pela Lei do Ventre Livre, assinada em 1831. Com introdução e notas da organizadora, prefácio do conhecido historiador Luiz Felipe de Alencastro e orelha do advogado e professor Silvio Almeida, a obra traz uma introdução de quase 70 páginas, necessárias, segundo a autora,  para apresentar ao público um livro com muitos textos inéditos: são no total 61 artigos comprovados de Luiz Gama publicados de 1864 a 1882, sendo 42 inéditos e focados nos temas da escravidão, liberdade/emancipação e  ideias republicanas. 

Em suas 389 páginas, o volume inclui ainda um vasta cronologia do autor, além de um  apêndice com cinco cartas de Luiz Gama e quase 400 notas de pesquisa, sem as quais, segundo a autora, seria impossível para o leitor, muitas vezes, entender de quem ele está falando ou a que lei se refere. “Este não é um livro de cabeceira – adverte a autora -, muitas vezes eu preciso fazer a remissão: ‘olha, para entender o que ele está falando aqui, olha aquele artigo ali. Olha, ele se referiu a isso aqui na carta que mandou para o fulano’. Então é uma leitura que vai exigir que o leitor não seja preguiçoso, que se interesse e converse com Luiz Gama, porque ele era um grande comunicador, e mostrar isso era meu grande objetivo com esse livro.”      

Resgate da obra

Formada em letras pela Universidade de São Paulo e doutora na mesma área pela Universidade Paris III – Sorbone, Lígia conta que chegou a pensar em se dedicar ao jornalismo e revela ter sido aluna desse curso na ECA USP durante três anos, quando já cursava letras, tendo optado finalmente por permanecer  no curso de letras.  Seu contato mais intenso com a obra de Luiz Gama, no entanto, não aconteceu em nenhuma das duas escolas e sim na França, onde viveu durante 13 anos, de 1984 a 1996. Foi lá que começou a estudar sistematicamente a literatura negra brasileira e onde, ao ingressar no doutorado, resolveu pesquisar a origem dessa vertente literária, chegando por esse caminho à figura de Luiz Gama. Ela revela ainda que tinha um orientador francês, o já falecido professor Georges Boisvert, conceituado lusitanista e também grande conhecedor da cultura brasileira, admirador  da obra de  Luiz Gama:  “Esse meu orientador – conta –  se apaixonou pelo Luiz Gama e dizia ‘mademoiselle, eu acho que a senhora consegue fazer (a tese) só com esse autor. Mas a senhora vai ter que sair em busca de muita coisa; para uma tese de doutorado, a senhora terá que nos apresentar elementos novos’. E foi assim que eu comecei a minha aventura com Luiz Gama”.

Morando ainda em Paris, mas vindo periodicamente ao Brasil, Lígia passou a aprofundar os estudos sobre seu objeto de pesquisa,  até ter sua atenção despertada para um aspecto que considerou novo e capaz de permitir um avanço no conhecimento de Luiz Gama:  o fato de existir muita coisa escrita sobre ele, sobre sua vida,  mas pouco conhecimento da obra desse homem que teve na força da palavra seu principal instrumento de trabalho. “O meu projeto e o que tem me levado todos esses anos – explica a pesquisadora – é trazer ao conhecimento público a obra do Luiz Gama. Ele começou com o primeiro livro, que foi uma parte dos estudos que fiz para o doutorado, quando resgatei a obra poética e produzi uma edição comentada, estudada.” Essa mesma lógica, de resgate da obra, foi que a levou ao segundo livro, Com a Palavra Luiz Gama,  coletânea organizada para dar a quem a lê uma ideia de tudo que ele escrevia, uma antologia nunca antes reunida, com artigos, poemas, cartas e máximas, que são pensamentos com uma forma filosófica.

 Jornalismo de Luiz Gama 

Neste seu terceiro livro, Lições de resistência: artigos de Luiz Gama na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro, Lígia procura dar destaque ao trabalho jornalístico de Gama e lembra que são reunidas em livros as crônicas do Machado de Assis, de Olavo Bilac e de tantos escritores que atuam no jornalismo,  afirmando que uma parte importante da obra de um autor é constituída pela sua participação no jornalismo, especialmente em um período como aquele em viveu e atuou Luiz Gama, em que o jornalismo era um meio de comunicação e de produção de escrita muito importante. “Não havia escritor, até agora, mas especialmente no século XIX e uma boa parte do XX, – diz Lígia – que também não fosse jornalista. É a obra jornalística. Falo do Luiz Gama com o um homem de imprensa, jornalista, mas que foi também  articulista, comentarista jurídico, inclusive no âmbito internacional.”  

Os artigos selecionados  abrangem um período que vai de 1864 a 1882, ano da morte de Luiz Gama, e demonstram que sua  atuação na imprensa ocorreu nos principais veículos de São Paulo e do Rio de Janeiro, com artigos que na maior parte abordam a escravidão, liberdade/emancipação e ideias republicanas, pelas quais Gama atuou intensamente, temas que, pode-se dizer, retomam atualidade nestes tempos de desprezo pela democracia e valores republicanos. Foi também pioneiro ao editar, em parceria com o desenhista italiano Ângelo Agostini, os periódicos críticos e humorísticos Diabo Coxo e o Cabrião, tornando-se posteriormente proprietário de outro semanário humorístico ilustrado, O Polichinello

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Lígia Ferreira /Arquivo Pessoal

Lígia Ferreira considera Luiz Gama um exemplo de enunciação negra dentro da imprensa geral. Assim como fez de maneira precursora na literatura, também nos artigos ele revela um eu negro, marcando seu pertencimento racial. Numa entrevista que me concedeu, Lígia observou que, ao se referir aos escravizados, Gama está falando de sua própria realidade. 

Os artigos revelam um homem negro que convivia com a elite intelectual da  então pequena São Paulo, um grupo de pessoas na época circunscrito aos alunos e professores da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, integrantes do poder judiciário, jornalistas, alguns poucos empresários e pessoas com outras profissões, muitos deles pertencentes à Loja (maçônica) América, a maior da  cidade,  que Gama presidiu durante vários anos e de onde saíram diversos nomes importantes dos movimentos republicano e abolicionista, como Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e Joaquim Roberto de Azevedo Marques, proprietário de fundador do Correio Paulistano, jornal onde Luiz Gama escrevia com frequência e grande liberdade. E também Ferreira de Meneses, jornalista negro do Rio de Janeiro, depois fundador da Gazeta de Notícias, importante jornal abolicionista carioca, com o qual ele colaborou.  Era uma loja dedicada à filantropia, partindo dela iniciativas como a criação de um curso para alfabetização de adultos e de uma biblioteca popular. Essa rede de sociabilidade, – que incluía outros abolicionistas negros, como José do Patrocínio – foi, segundo Lígia, o apoio com que contou Luiz Gama para conseguir a alforria de centenas de homens e mulheres escravizadxs

Lígia Ferreira afirma que foi para ela uma felicidade ter concluído seu novo livro a tempo de celebrar os 190 anos de Luiz Gama e que sonha com o  dia em que, além das faculdades de direito, ele  também seja lido e estudado nas escolas de jornalismo, nos cursos de comunicação brasileiros,  principalmente agora que se tem uma outra compreensão do que ele representou ao seu tempo, acrescentando que Luiz Gama só foi um abolicionista com o sucesso  que teve, por ter sido também um  jornalista de sucesso. “Este livro – conclui – era o presente que eu gostaria de oferecer a Luiz Gama e também aos jornalistas, porque acho que eles eram os seus grandes amigos. Espero que possa ser mais conhecido e lido, pela população brasileira por que acho que neste momento estamos precisando de exemplos como o de Luiz Gama, da sua inteireza, da sua coerência, da sua defesa permanente das liberdades democráticas”.

Como exemplo da atualidade dos textos jornalísticos de Luiz Gama e uma espécie tira gosto, ofereço ao leitor pequeno trecho retirado de artigo publicado por ele no Correio Paulistano em novembro de 1871 e incluído por Lígia Ferreira nessa obra fundamental: “Se algum dia, porém, os respeitáveis juízes do Brasil esquecidos do respeito que devem à lei, e dos imprescindíveis deveres, que contraíram perante a moral e a nação, corrompidos pela venalidade ou pela ação deletéria do poder, abandonando a causa sacrossanta do direito e, por uma inexplicável aberração, faltarem com a devida justiça aos infelizes que sofrem escravidão indébita, eu, por minha própria conta, sem impetrar o auxílio de pessoa alguma, e sob minha única responsabilidade, aconselharei e promoverei, não a insurreição, que é um crime, mas a “resistência”, que é uma virtude cívica, como a sanção necessária para pôr preceito aos salteadores fidalgos, aos contrabandistas impuros, aos juízes prevaricadores e aos falsos impudicos detentores.” 

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Divulgação

Serviço:

Lições de resistência: artigos de Luiz Gama na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro

LIGIA FONSECA FERREIRA (Org.)

Edições Sesc São Paulo

2020, 392 p.

R$ 68,00

 

E-book (Amazon)

R$ 21,25

 

Flavio Carrança é jornalista com passagem por diversas  redações de jornal, rádio e TV, diretor do Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo, onde coordena a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial – Cojira SP. É coautor de Espelho Infiel: o negro no jornalismo brasileiro, coletânea organizada em parceria com Rosane da Silva Borges e publicada em 2004 pelo Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – IMESP  e por Geledés – Instituto da Mulher Negra. É também coautor, com Maria Aparecida da Silva Bento, da coletânea Diversidade nas Empresas & equidade racial, publicada em 2017 pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades – CEERT.
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