Manequim negro que quebra vitrine e bonecos de escravizados: racismo cresce e desafia Salvador, capital da negritude no país

Críticas à rede de lojas reacendeu debates sobre a criminalização de pessoas baseada na cor da pele, especialmente entre baianos, que estão entre as maiores vítimas da violência policial e entre os mais encarcerados

 Em apenas duas semanas, três casos de racismo ganharam destaque em Salvador, capital brasileira onde 82% da população se autodeclara negra, de acordo com dados do IBGE. O mais recente foi no Shopping Barra, após uma loja de roupas da marca Reserva pôr um manequim preto quebrando a vidraça do estabelecimento. Com repercussão nacional, a atitude reacendeu debates sobre a criminalização de pessoas baseada na cor da pele, especialmente entre baianos, que estão entre as maiores vítimas da violência policial e entre os mais encarcerados.

Em relato ao GLOBO, um funcionário do centro comercial, que preferiu não se identificar, disse que alguns clientes que iam ao estabelecimento comentavam que o manequim parecia estar arrombando a vitrine. O argumento foi repetido por centenas de pessoas que compartilharam a publicação nas redes sociais, incomodadas com o que viram como o reforço de um estereótipo associando jovens negros à criminalidade. Uma relação que se vê também nos números da segurança pública da capital baiana. De acordo com um levantamento do Ministério Público da Bahia, o perfil majoritário entre presos em Salvador é de homem (95%), negro (98%), jovem entre 18 e 29 anos (68,8%), com ensino fundamental incompleto (34,3%) e com renda mensal abaixo de dois salários mínimos (83,9%).

A deturpação da imagem de pessoas pretas também foi vista em outro caso emblemático envolvendo a venda de peças de cerâmicas de escravizados acorrentados na Hangard das Artes, loja que fica no aeroporto de Salvador. Vendidos como “obra de arte”, os objetos estavam na prateleira principal do estabelecimento, com a etiqueta “Escravos de cerâmica — R$ 99,90, a unidade”. Ao ver os bonecos, o estudante de história Paulo Cruz fez um desabafo nas redes.

— Demorei um pouco para processar o que estava vendo, porque me trouxe um sentimento dos meus ancestrais sendo vendidos por qualquer preço, por causa do racismo. É chocante porque essas ações domesticam a imagem do sofrimento, que inclusive o povo baiano repudia por se orgulhar de suas origens — relatou Cruz, que tem parentes que vivem em comunidades quilombolas baianas.

Em nota, a Reserva informou que o manequim fazia parte da vitrine chamada de “Loucuras pela Reserva” e que “não teve como objetivo ofender qualquer pessoa ou disseminar ideias racistas, e sim divulgar a liquidação da marca”. Em relação às peças de cerâmica, a Hangard das Artes informou que os objetos são “a imagem do Preto(a) Velho(a) — espíritos que se apresentam sob o arquétipo de velhos africanos que viveram nas senzalas”. O argumento foi rebatido por Cruz, que alegou que nas religiões de matriz africana, que ele segue, entidades não são acorrentadas.

Para Caliane Nunes, historiadora e integrante do coletivo de advogados negros e da Comissão de Promoção da Igualdade Racial da OAB da Bahia, apesar de a capital soteropolitana ser a mais negra fora da África, o racismo é presente pela combinação da crença da igualdade racial e da falta de representatividade em locais espaços de poder.

— Podemos ser maioria, mas não ocupamos lugares de posição política. Ganhamos menos, não fazemos parte dos estereótipos de beleza e temos dificuldade de acesso ao mercado de trabalho. Já que não temos igualdade, surgem esses ataques — diz a historiadora.

As desigualdades apontadas por Caliane se refletem na pesquisa divulgada no ano passado pela Rede de Observatórios da Segurança. Em 2020, negros somavam 98% das pessoas mortas pela polícia baiana, com 595 casos, contra apenas 11 envolvendo brancos. Em Salvador, todas as vítimas de ações policiais eram negras.

A professora de dança afro Gisele Soares viveu o medo de virar mais uma estatística de violência em Salvador no dia 10. Ela conta que estava com amigos em frente a uma banca de livros na Ladeira do Ferrão, no Pelourinho. Por não ter visto que um agente da Guarda Civil Municipal queria estacionar onde estava parada, foi xingada e teve uma arma apontada para o seu rosto.

— Nunca me senti segura por ser preta, somos sempre alvo. Agora não consigo andar tranquila nas ruas em nenhum horário — diz Gisele, que não fez uma denúncia oficial por medo de represálias.

A Guarda Municipal de Salvador informou que já foi aberto um procedimento administrativo, os agentes já foram identificados e ouvidos, mas que Gisele foi procurada por telefone e não atendeu às ligações.

Para tentar diminuir e punir casos de preconceito racial na Bahia, o Ministério Público do estado criou um aplicativo chamado Mapa do Racismo, para receber denúncias anônimas. Desde que foi lançado, em 2018, já contabiliza 70 casos de racismo, 32 casos de injúria racial e outros 61 atentados contra a fé religiosa.

— A partir desses dados georreferenciados podemos orientar a atuação ministerial. Se for constatado que em determinada comarca, ou região, há maior incidência, por exemplo, de intolerância religiosa, poderemos focar em um trabalho preventivo do MP nessa cidade — afirmou a promotora de justiça Lívia Vaz, que coordena o Grupo de Atuação Especial de Proteção dos Direitos Humanos e Combate à Discriminação que desenvolveu a ferramenta.

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