segunda-feira, agosto 15, 2022
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Matumona propõe ‘Filosofia da Reconstrução’ para África

 

O padre Muanamosi Matumona defende a existência de uma filosofia africana, contrariamente ao que muitos investigadores ocidentais e angolanos afirmam. Na sua obra “Filosofia Africana, na linha do tempo”, publicada este mês em Portugal, pela editora Esfera do Caos, o prelado católico define a filosofia africana como “interpretação das realidades africanas.

Uma forma própria de filosofar sobre os factos locais num sistema comparado ao da filosofia ocidental”.

Muanamosi Matumona escreve que no contexto actual a filosofia africana é convidada a reflectir seriamente sobre os problemas concretos dos povos, propondo linhas para a sua solução, que consistirá, essencialmente, na reconstrução do continente.

Propõe uma “Filosofia Africana da Reconstrução”, que deve ser leccionada como uma disciplina autónoma nos estabelecimentos de ensino, obedecendo aos princípios pedagógicos, de modo a que os africanos reconheçam a sua dignidade e a sua missão neste século XXI. “… é de admitir que a África não pode ser condenada à morte. A pressão do afropessimismo deve ser questionada ou até refutada com objectividade”, sugere.

Padre Matumona, docente da Universidade Agostinho Neto e do Seminário Maior de Luanda, entende que a filosofias africana recebeu uma herança que merece ser considerada, uma vez que foi nela que ganhou e vai ganhando forma, enquadrandose no espaço e no tempo.

“Se a reflexão africana pode ser aceite como filha da cultura, é também justo encará-la como filha da história do mesmo continente, já que a história é também uma experiência válida, uma escola e testemunha de tudo o que o homem pensa, projecta e pratica. O homem africano soube aproveitar tudo o que viu e que viveu

ao longo da sua história para erguer o que hoje se chama, com toda a razão, a filosofia africana”, concluiu.

Muanamosi Matumona sustenta, ainda na defesa da existência da filosofia africana, que um dos elementos ao qual se pode recorrer para realçar a capacidade racional e a legitimidade de considerar o seu esquema mental como uma filosofia é o seu mundo cultural, cuja complexidade representa um conjunto de valores que só é possível estruturar mediante o uso da razão: ” o negro-africano tem a sua visão própria sobre o mundo, o homem e Deus. Trata-se de um sistema real e eficaz muito diferente da realidade ocidental, mas também antigo e vai se actualizando consoante o evoluir do tempo”. Ressalta a tradição oral como uma marca forte da cultura tradicional africana, pois representa um património, um elemento que influencia o modo de ser, de estar e de pensar do negro-africano. Dela (a tradição oral) depende muito a sobrevivência do passado que é transmitido de geração em geração.

Considera, assim que, os mais-velhos são detentores de uma memória e de uma sabedoria que asseguram esta tradição. “Numa sociedade em que a escrita se manteve durante muito tempo ao abandono, é normal dizer que em África, quando morre um velho, desaparece uma biblioteca. Pois a tradição oral é a biblioteca, o arquivo, o ritual, a enciclopédia, o tratado, o código, a ontologia poética e proverbial, as danças, os jogos, a música”, disse ressalvando que se a “tradição oral ocupa um lugar de destaque na cultura bantu, o mesmo não significa que este universo nunca conheceu a escritura”.

O padre Muanamosi Matumona recorda que durante muito tempo se pensou que o negro-africano é um povo sem escrita, e o povo sem escrita não tem cultura. Na verdade, diz o prelado que é também professor de filosofia, que a África Negras conheceu a escrita já em meados dos séculos IX-X, especialmente no Sudão, Ghana, Mali e etc.

Certas tribos, cita, usaram expressões gráficas escritas, supondo que tenham tido algum parentesco com os hieróglifos egípcios. Com esta proeza, pode afirmar-se que os negros transcreveram as suas línguas, também possuidoras de um valor a considerar, na medida em que expressam um esquema de pensamento, sendo reflexo da sua identidade, da sua cultura e do seu pensar. “…Isto tem uma justificação, pois a língua ultrapassa o seu campo para levantar um problema predominate antropológico. Um povo com uma língua é sinal da existência de uma filosofia.

Nesta sequência, estamos perante um dado que a estrutura a antropologia e a filosofia africana muito antes da invasão da modernidade. Aceitase deste modo que as escritas são o espelho da cultura e do esquema do pensamento negro-africano”.

Essa reflexão do padre Muanamosi Matumona é uma critica a tese de Hegel e os seus discípulos. Segundo esses, “no interior de África, a consciência ainda não chegou à intuição de um elemento objectivo fixo, de uma objectividade (…) Mas os africanos ainda não chegaram ao reconhecimento do universal, a sua natureza é o constrangimento em si: o que chamamos religião, Estado, o ente em si e para si, o que tem validade absoluta, tudo isto ainda ali não existe (…) Nos negros, o característico é que a sua consciência ainda não chegou à intuição de qualquer objectividade firme como, por exemplo, Deus, lei na qual o homem estaria com a sua vontade e teria assim a intuição da sua essência. O negro representa o homem natural em toda a sua selvajaria e barbárie”.

Padre Matumona concluiu, questionado se o “ocidentalismo” esquecia que a África é o berço da humanidade; e que durante muitos séculos contou com os seus intelectuais que participaram na realização do progresso universal.

Esquecia, ainda, que os negros africanos desempenharam um papel importante no florescimento e na promoção de uma das primeiras civilizações do mundo: a civilização egípcia. “O ocidentalismo de então não levava em consideração a tese que se preocupa em fazer notar o mundo dito civilizado que os negros foram os grandes “motores” da civilização egípcia.

 

Fonte: O Pais

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