quarta-feira, novembro 30, 2022
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‘Mulheres Radicais’ expõe força da arte feminina da América Latina

Nova mostra na Pinacoteca do Estado de São Paulo reúne 120 artistas com legado global

por Camila Alam, do Carta Capital 

O teor político e de militância permeia toda a exibição (Reprodução/Instagram)

Em uma manhã de domingo, de céu azul e temperatura fria, começa a se formar uma fila na bilheteria da Pinacoteca do Estado de São Paulo. É o fim de semana de abertura da mostra Mulheres Radicais: Arte latino-americana, 1960-1985 e o museu está movimentado.

No primeiro andar do prédio, sete salas reúnem um recorte especial da arte criada por 120 artistas latinas e chicanas (americanas de origem latina) durante o século passado. São muitas obras inéditas, unidas a outras pertencentes ao acervo da Pinacoteca, sob temas como autorretrato, corpo, medo e papéis sociais.

Juntas, as mais de 250 peças formam uma exposição de peso no Brasil, o único país latino a abrigar a mostra depois de sua passagem pelo Hammer Museum, de Los Angeles, e o Brooklyn Museum, de Nova York.

Além do ineditismo, os trabalhos expostos em fotografia, vídeo, pintura e outros suportes atraem por reunir coragem e força. “‘Mulheres radicais’ significa muitas coisas”, diz a pesquisadora ítalo-argentina Andrea Giunta, que divide a curadoria com a venezuelana-britânica Cecilia Fajardo-Hill, em colaboração com Valeria Piccoli, curadora-chefe da Pinacoteca.

“Para mim, elas são radicais, porque experimentaram e contribuíram para mudar as linguagens da arte. Elas não vieram depois dos artistas homens, mas ao mesmo tempo. Levaram o corpo ao limite e trabalharam, em muitos casos, em contextos perigosos. Isso não é fácil, especialmente quando se está sob ditadura.”

Durante o período que a mostra enfatiza, de 1960 a 1985, muitos dos países latinos viviam sob regime ditatorial. Em uma das salas da exposição, nomeada “Resistência e Medo”, artistas como as brasileiras Regina Silveira e Anna Maria Maiolino, a colombiana María Evalia Marmolejo e a argentina Diana Dowek abordam a violência dos períodos opressivos, trazendo imagens que tratam de desaparecimento, tortura, censura e repressão.

Passeando pela sala, a visitante Ana Paula Franzoia, jornalista de 52 anos, reconhece a semelhança entre os períodos e as culturas. “É legal perceber, pela linha do tempo, como as coisas que aconteceram são tão similares. As mulheres da América Latina passaram por quase as mesmas coisas em épocas parecidas”, observa. “Aqui, a gente se dá conta de como conhecemos pouco a produção feminina”, completa.

De fato, por muito tempo as mulheres artistas foram pouco ou quase nunca catalogadas na história da arte. Hoje, percebe-se um trabalho de resgate de diversas produções. Ao preencher esse vácuo, torna-se cada vez mais perceptível que muitas destas artistas excluídas ou estereotipadas são, na verdade, visionárias em sua época, exercendo papel fundamental na criação de linguagens.

Por vezes, são pouco lembradas pelos livros e grandes exibições, e muito menos pelo grande público. A clara tentativa de reafirmar essas posições traz à luz nomes desconhecidos ou coloca outros em seu devido lugar.

A própria Pinacoteca recebeu nos últimos anos algumas mostras que trabalham esse resgate, como a Mulheres Artistas: As pioneiras (2015) e, mais recentemente, a individual da artista sueca precursora do abstracionismo, Hilma af Klint.

O teor político e de militância permeia toda a exibição. Ao tratar da emancipação do corpo feminino ou dos lugares sociais onde a mulher estava inserida naquele contexto histórico, as obras trazem naturalmente o questionamento à tona.

Apesar disso, engana-se quem acredita que o olhar pairava sob o mesmo horizonte. “O que achei mais interessante de ver aqui é que muitas artistas não se consideram feministas, mas a exposição é superfeminista”, observa a atriz Maria Cândida Portugal, de 22 anos, que visita a mostra com o namorado.

“O feminismo carrega essa maneira de falar sobre as opressões, sobre a violência, sobre a falta de oportunidade, a sexualidade, a sexualização das mulheres. E isso está tudo aqui, falado por mulheres que não se consideram feministas.”

Na verdade, existe uma pequena parte da mostra intitulada Feminismos, e a curadora explica o porquê. “Muitas delas dizem que não querem ser classificadas como mulher artista. Dizem: ‘sou artista’. Respeitamos isso.

Para ser uma artista feminista ou para ser uma pesquisadora e curadora feminista, que é o que eu sou, é preciso se identificar com isso, é preciso dizer.  É um posicionamento na vida”, diz. “Não podemos dizer isso de uma artista que não tem essa identificação.”

Assim sendo, os temas da exibição vão levando os visitantes a universos distintos, mas que possuem algo em comum: a necessidade de expor vozes que, muitas vezes, e até hoje, se encontram reprimidas. Na sala Mapeando o Corpo, vemos trabalhos que explicitam temas velados, como a menstruação e a masturbação.

A produtora cultural Tânia Mills, de 64 anos, visita a mostra com mais duas amigas e entende que, às vezes, as obras causam certo estranhamento. “Esta sala que fala da sexualidade, da menstruação, tem umas fotos que nos assustam um pouco.”

Se a revelação do sangue menstrual pode gerar aversão, a sua exibição também pode ser libertadora. “Aqui vejo a representação da mulher em várias situações que geralmente a gente não vê. E isso é muito forte.”

Força é a palavra que vem à mente durante a visitação de Mulheres Radicais. Uma força de enfrentamento, de luta contra opressões culturais e políticas. Mas também de demonstrações de afeto, afirmação, colaboração.

Maria Cândida deixa a mostra depois de passear pelas salas e conclui: “Olha a quantidade de mulheres que tem aqui. É muito bonito vê-las todas reunidas. Faz pensar que, se a gente está perdida, podemos nos ajudar. Vamos segurar na mão da outra e vamos juntas. Isso aqui é muito forte, é uma mensagem de poder”.

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