Não vote em branco

Votar em pretas e pretos é construir um projeto regenerador e democrático

Há indícios de sobra de que o movimento negro é o principal vetor de transformação na sociedade brasileira. Garantir a presença de suas lideranças nas instâncias de poder é a tarefa histórica de nossa geração.

Aqueles que ambicionam viver numa sociedade pluralista, que dê vazão à sua diversidade, devem assumir plenamente a responsabilidade que têm diante de si neste domingo (2). Centenas de nomes disputam as Assembleias Legislativas e a Câmara dos Deputados, e os eleitores podem ficar perdidos diante de tal oferta.

A tendência é buscar um nome conhecido, o que favorece a reeleição de parlamentares com mandato ou figuras que sejam facilmente reconhecíveis. Uma vez que os espaços de visibilidade seguem sendo ocupados majoritariamente por homens brancos, há grande risco de reproduzirmos o mesmo padrão de baixa representatividade.

Para alguém branco como eu, votar numa pessoa branca é reproduzir o que Cida Bento chama de pacto narcísico da branquitude. É ser incapaz de ver beleza e potência no que não é espelho. É escolher, de novo, o ex-colega de escola, o amigo do amigo, o parente do vizinho. Votar em branco é rebaixar o horizonte de transformação e reproduzir o velho funcionamento da esquerda e seu conformismo com o que se entendeu por democracia no Brasil dos últimos 35 anos.

Não somos apenas o último país das Américas a abolir a escravidão. Somos também a sociedade que, desde então, implementou de maneira cruel e ardilosa um projeto supremacista que visa o extermínio real e simbólico da população negra. O racismo é o principal entrave para o desenvolvimento de nosso potencial enquanto sociedade. Seu combate deve ser entendido não como uma agenda identitária, mas sim como um projeto transversal e coletivo, que diz respeito a todos.

A resiliência do apoio a Jair Bolsonaro (PL), que ainda hoje conta com a simpatia de ao menos um terço dos eleitores, é indicativa de que o supremacismo branco segue mais vivo do que nunca —com a novidade de que está cada vez mais disposto a se afirmar sem disfarces.

À exceção da CPI da Covid, a resposta de nossos congressistas nos últimos quatro anos não esteve à altura do fenômeno. Não há exagero em dizer que a Coalizão Negra por Direitos, uma articulação nacional iniciada em 2018 e que reúne hoje mais de 250 organizações do movimento negro, foi quem protagonizou alguns dos episódios mais contundentes de oposição ao governo Bolsonaro.

Em junho passado, a coalizão lançou a plataforma www.quilombonosparlamentos.com.br, iniciativa que apresenta 120 candidaturas aos legislativos estaduais e federal, comprometidas com a agenda do movimento negro. Quem sonha com uma frente ampla progressista se sentirá contemplado: é a maior articulação partidária de esquerda de que se tem notícia no país em muito tempo. Há postulantes de oito partidos: PT, PSOL, PSB, PC do B, REDE, PDT, UP e PV.

No dia 2 de outubro, vote preto e vote preta. Não há maneira mais eficaz de construir um projeto político regenerador, que trabalhe por uma sociedade mais justa, democrática e sustentável.

+ sobre o tema

O golpe de 2016 e seu estudo nas universidades

Se várias universidades resolveram colocar o tema “O golpe...

Marina diz em NY que não mudará a economia

Por: CRISTINA FIBE Candidata do PV pede fim de...

Às agressões humanas, a Terra responde com flores

Mais que no âmago de uma crise de proporções...

para lembrar

Onde está o Movimento Negro?

Sorrindo, e triste ao mesmo tempo, vou lendo a...

Movimento negro com mais peso no Valongo

Comitê do cais toma posse com dez entidades de...

Lula Rocha, ativista do movimento negro e militante do Círculo Palmarino, morre aos 36 anos

Faleceu na manhã desta quinta-feira (11), em Serra (ES),...

O movimento negro garante humanidade para todos

O antirracismo é a compreensão da estrutura racista e...

Jornal pioneiro contra racismo deu voz a movimento negro há 100 anos

Há 100 anos, a criação de um jornal na cidade de São Paulo deixava marcas com o pioneirismo em relatos contra o racismo e a ampliação...

Morte de jovem que marcou movimento negro ainda tem questões em aberto

Até os dias de hoje, depois de 45 anos, não se sabe o local exato em que Robson Luz foi torturado pela polícia. O...

GT sobre comunicação antirracista amplia prazo de consulta pública

O Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) formado para elaborar um Plano Nacional de Comunicação Antirracista prorrogou o prazo para contribuições da sociedade sobre o...
-+=