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Nilma Bentes: “História mostra que mulheres negras sempre estarão dispostas a lutar”

Nilma Bentes: “História mostra que mulheres negras sempre estarão dispostas a lutar”

Realidade da população negra na Amazônia e enfrentamento ao racismo são temas da entrevista

Por Lilian Campelo Do Brasil de Fato

Os passos na militância de Raimunda Nilma de Melo Bentes, mais conhecida como Nilma Bentes, vem de longe. Paraense do bairro da Pedreira, ela foi uma das fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa) na década de 1980, em Belém, e uma das idealizadoras da Marcha das Mulheres Negras, que ocorreu em Brasília (DF), em 2015.

Ao Brasil de Fato, em entrevista que integra o especial dedicado ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, ela fala sobre sua trajetória na militância do movimento negro, a realidade da população negra na Amazônia, e seu enfrentamento ao racismo. Confira!

Brasil de Fato: Como você começou sua militância no movimento negro?

Nilma Bentes: Olha, a gente considera que o movimento negro começa na África, quando africanos e africanas lutavam para não ser embarcados. Mas a rearticulação do movimento negro aqui [no Brasil] começa no processo de abertura democrática, no final da ditadura militar. Embora, a rigor, cada uma de nós, por termos o nosso manto preto ou quase preto, querendo ou não, somos militantes em movimento. Posso dizer que entro oficialmente no movimento negro quando a gente cria o Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), em 1980. Era assim, uma espécie de ‘exército pretaleone’ – só para parafrasear o filme e também para não ser tão séria, dura. Cada pessoa negra reage de forma diferenciada às manifestações do racismo, mas a maioria ainda engole em seco. Infelizmente a gente ainda tem de tentar convencer muitos de nós negros a se engajar na luta.

Costumo dizer que existem passos. Primeiro, às vezes, a gente tem de dar a notícia à pessoa que ela é negra – muitos não gostam da notícia – e que ela não está sendo discriminada só porque está na pobreza, condição da maioria de nós, e sim por força do racismo… e machismo-sexismo, quando falamos de mulher negra. Segundo que deve gostar de ser uma pessoa negra, de ter orgulho e não vergonha, pois quem deve ter vergonha são os brancos escravizadores, opressores. Terceiro que deve lutar contra o racismo e de preferência de forma coletiva. Não tem sido tarefa fácil pois a mídia, a escola, as igrejas – hegemonizadas por brancos e brancas ligados ao racismo estrutural, institucional, ambiental, religioso e outros adjetivados -, não colaboram para ampliar e acelerar o processo que busca construir a equidade sócio racial e de gênero.

O racismo tem beneficiado todas as pessoas brancas – de alta, média e baixa renda; crianças, adolescentes, jovens, adultas, idosas; portadoras de deficiência ou não; homo-bi-transsexuais. A base da discriminação é ‘ser pessoa negra’, as demais discriminações são ‘agravantes’ para nós.

A Marcha das Mulheres Negras foi uma grande manifestação. Na sua avaliação qual legado a marcha deixa para as mulheres e o movimento negro no país?

Não é fácil dizer algo sobre isso, mas é possível dizer que, de alguma forma, há um legado tanto a nível individual, quanto coletivo. Embora a gente desconfiasse, ficou constatado que mulheres negras se importam – e muito – com outras mulheres negras. Embora a gente desconfiasse, não sabíamos o quanto tínhamos força e o quanto é muito importante a gente se agregar. Mesmo que a visibilidade, inclusive midiática, não tenha sido a que queríamos – seria milagre se contássemos com o apoio da mídia racista-machista -, foi uma grande jornada e acredito que ainda está impulsionando a organização de grupos de mulheres negras em muitos estados do Brasil apesar do momento político que estamos atravessando.

Pode nos descrever um pouco de como foi a Marcha?

Desde a véspera, quando as delegações começaram a chegar ao Ginásio Nilson Nelson, começou uma acumulação, uma inflação de emoção. Sou super emotiva, mas procuro não demonstrar e então procurei me abrigar nas atividades de organização de nossa delegação do Pará: cuidar para que as faixas ficassem visíveis, que ninguém se perdesse ou coisas desse tipo. Mas, no fundo, em alguns momentos, meu peito só faltava estourar mas procurei ‘me garantir emocionalmente’. Estava me preparando para fazer uma fala no carro-som, mas quando ocorreu o problema da bomba lançada por um fascista, perdi a chance. Não fez falta. Lá pelas tantas deitei no gramado e acho que senti uma espécie de catarse.

Algumas pessoas que me abordam eu digo o que realmente penso, sobre ter sido a propositora da Marcha: certamente fui escolhida para ser um canal de comunicação. Propor não significa realizar, efetivar e muitíssimas pessoas fizeram a Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver acontecer do jeito que aconteceu: lindíssima! O nosso livro-relatório (do Pará), mostra um pouco do que foi, do nosso ponto de vista, o processo de construção da Marcha 2015.

Existe uma Amazônia negra que o Brasil pouco conhece. Que Amazônia negra é essa que o país não conhece?

A Amazônia brasileira é enorme. São mais de 5 milhões de quilômetros quadrados,umas dez vezes o tamanho da Espanha e cerca de sessenta vezes o tamanho de Portugal, mas existe enorme dificuldade de acessos físicos. Sim, a população negra da Amazônia alcança cerca de 11,6 milhões de pessoas, mas é invisibilizada. Aliás, a população negra brasileira (54% do total), também é invisibilizada. Muitas pessoas não sabem, mas, proporcionalmente, pelo Censo de 2010, a população negra do Pará é a maior do Brasil (76,76% do total da população do Estado. Em números absolutos é em São Paulo que está a maioria da população negra (14,2 milhões), seguidos de Bahia, Minas e Rio de Janeiro.

A gente, do Cedenpa e Imena [Instituto de Mulheres Negras do Amapá] criou a Rede Fulanas NAB [Negras da Amazônia Brasileira] e temos tentado fortalecê-la na medida que as possibilidades surgem. Costumo registrar que há uma potencialização de auto-rejeição coletiva na Amazônia por força da subalternização dupla, das populações negra e indígena; por isso acredito que as dificuldades de mobilização são maiores já que boa parte de ambas, introjetaram uma inexistente inferioridade racial. Mas é possível que para muitos negros e negras é ‘menos pior’ ser indígena. No livro que escrevi em 1993, Negritando, afirmo que toda pessoa branca é racista e toda pessoa negra se auto-rejeita e que a questão é só de percentual.

Houve algum fato de racismo que a marcou?

Desde criança sinto o peso do racismo e é quase certo que, se me tornei uma pessoa um tanto anti-social e até agressiva, é por causa dele. Meu grau de auto-rejeição é um bocado elevado, aliás. Uma das manifestações de racismo que muito me marcou foi ser rejeitada para fazer um curso no Ceará por minha fotografia. Todos os anos uma pessoa do meu trabalho era indicada e naquele ano eles não aceitaram minha inscrição. Cito esta porque me prejudicou profissionalmente, pois sou graduada em Agronomia. Mas poderia registrar várias outras situações.

Diante da sua experiência e anos de militância no que avançamos em relação a luta pela igualdade racial e de gênero?

Se pensarmos no que nossos antepassados passaram no tempo do escravismo estamos um pouco melhor. Mas as chacinas, as mortes evitáveis, incluindo mulheres nas maternidades, feminicídios, etc; são revoltantes e não devemos deixar de nos indignar. Quando iniciamos por aqui em 1980 não se devia falar em racismo, só em preconceito de cor. Não se devia falar negro ou negra. Era afro-brasileira. Falar em racismo e falar pessoa negra era muito agressivo. Aliás, os brancos sempre querem que a gente lute contra eles, com armas que eles mesmo escolhem. Costumo dizer que não há possibilidade de se lutar contra o racismo sem desagradar os racistas, evidentemente.

Em todo caso, avançamos em minar, fissurar ou ferir de morte o mito da democracia racial, como disse Florestan Fernandes: “o mito da democracia racial, impede a democracia racial”. Conseguiu-se avançar nas questões das cotas, apesar de recuos em muitos lugares, que passaram de cotas raciais para sociais. Não foi fácil conseguir um certo consenso para buscar isso. Algumas pessoas sentem pena dos ‘Fernando Holiday da vida’. Não sou dessa ala. Eu os acho similares aos negros que traem negros; cospem para o alto. Malcolm X foi assassinado por um negro; aqui tivemos Henrique Dias, negro que aprisionava negros e índios no tempo do escravismo. Sou da ala que pensa que não se deve defender o negro pelo negro; a mulher pela mulher, etc.

Também é de registrar como avanço a atuação, na última Constituinte, com a criminalização do racismo e algum avanço para quilombolas, que hoje existem em alguns estados, incluindo o Pará, vagas para ingresso de quilombolas nas universidades. O Estatuto da Igualdade Racial é outro exemplo. É certo que nunca conseguimos avançar do jeito e tamanho que queríamos. Tudo tem ficado no campo do possível, na conjuntura da época. Parece que, de fato, a gente tem de ‘fazer a realidade’ uma vez que ela não está dada.

A história mostra que mulheres negras sempre estarão dispostas a lutar contra as injustiças, pela equidade. Sim, devemos fazer por merecer – estarmos vivas – e dar continuidade à luta de nossas ancestrais como foi destacado na Marcha de 2015: “nossos passos vêm de longe”.

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