Número de brasileiros que se declaram pardos é maior do que o de brancos pela primeira vez na história

Enviado por / FontePor Jornal Nacional, no G1

Novos números do último Censo do IBGE divulgados nesta sexta-feira (22) mostram uma transformação no retrato do Brasil.

Números do Censo do IBGE, divulgados nesta sexta-feira (22), mostraram uma transformação no retrato da nossa população. Pela primeira vez, o número de brasileiros que se declaram pardos é maior do que os que se dizem brancos.

A estudante de engenharia Andressa Azevedo Moraes nunca imaginou que, depois de tanto preconceito, passaria a se ver de um jeito diferente ao longo do tempo:

“Durante muitos anos eu alisava os meus cabelos, eu não usava alguns tipos de batom, porque eu podia chamar atenção para a minha boca. Então, assim, eu vinha nesse espaço de me colocar como uma pessoa branca ali, que vai seguir um certo trajeto. Mas aí teve o momento do estalo, que é quando você fala assim: peraí, não tô me encaixando, mesmo fazendo todo esse esforço. E aí é quando a gente começa a estudar, a conviver com outras pessoas e a entender o que a gente é, né? E o tornar-se negro é um pouco disso assim”.

A estudante de ciências econômicas Milena Cristina Rodrigues da Silva, de 24 anos, também passou por um processo de descoberta. Filha de pais pardos, até a adolescência, se achava branca. Depois, mudou.

“É uma busca pelo pertencimento e aí, hoje, eu me sinto melhor assim, me identificando como uma pessoa negra. Antes eu não me percebia assim. Eu me percebia como imune a isso, sendo que foi só uma autoconsciência que fez com que eu percebesse isso”.

A declaração de cor da pele em qualquer formulário de identificação com dados pessoais fica a critério de quem preenche. Ela retrata a forma como cada um se vê. O Brasil já foi majoritariamente de pessoas que se declaravam brancas, mas, pela primeira vez, isso mudou.

Série histórica dos dados de raça e cor da população brasileira desde o Censo de 1991 (Foto: JN)

A série histórica começou em 1991. No censo de 2022, 45,3% da população se declararam pardos e 43,5%, brancos. Esse grupo é maior entre as pessoas a partir de 45 anos.

“O pertencimento étnico de cada pessoa passa por uma série de questões, acionamento de uma série de critérios. Pode ser cor da pele, traços, pertencimento étnico, pertencimento comunitário; e a forma como esses critérios são acionados dependendo do contexto, tanto socioeconômico quanto interracial que a pessoa se encontra”, afirma Marta Antunes, coordenadora de pesquisa do IBGE.

Aumentou também a parcela da população que se considera preta. Passou de 7,6% em 2010 para 10,2% da população brasileira em 2022.

Crescimento ainda na população que se declara indígena: passou de 0,5% em 2010 para 0,8% em 2022.

Já a parcela de pessoas amarelas diminuiu em relação ao último Censo.

A região Norte tem o maior percentual de pardos; a região Sul, a maior proporção de brancos; e o Nordeste, o maior percentual de pretos na população.

Maior proporção de brancos, pardos e pretos pelo Brasil (Foto: JN)

Nesta sexta-feira (22), em Salvador, o presidente do IBGE, Marcio Pochmann, falou sobre a mudança revelada pelo último Censo.

“O trabalho político de conscientização permitiu que o Censo realizado pelo IBGE fosse, cada vez mais, percebido como um avanço da população não branca no Brasil. Isso é uma expressão de uma conscientização que está em curso”.

Não só são estatísticas. São histórias de conscientização e de busca pelo pertencimento como a de Milena, Andressa, Douglas e tantos outros brasileiros.

“No final das contas é uma luta conjunta, né? E quando você busca unir forças, você torna a luta mais forte”, defende Douglas da Silva Fortunato, mestrando em engenharia de materiais.

“Veio muito do reconhecer o meu cabelo também, os meus traços e de amar como eu sou. Você pode achar que não é bonito, mas é bonito sim e é a minha ancestralidade que está aqui comigo”, ressalta Andressa.

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