quarta-feira, novembro 30, 2022
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“O ataque permanente a nós, mulheres negras, é porque é aqui que o racismo se faz e se refaz todos os dias”, afirma socióloga Vilma Reis

Referência do pensamento feminista negro brasileiro, ela destaca o papel de mulheres negras na luta contra o racismo e diz que seu protagonismo as tornam o principal alvo da violência contra movimentos sociais

A socióloga Vilma Reis, 52 anos, é uma das mais importantes intelectuais e militantes do pensamento feminista e negro no Brasil de hoje. Nascida em Salvador, é professora e doutoranda em Estudos Étnicos Africanos da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Foi ouvidora-geral da Defensoria Pública da Bahia por dois mandatos e chegou a ser pré-candidata do PT à Prefeitura de Salvador em 2020.

Em entrevista à Gênero e Número, ela fala sobre as demandas e estratégias das mulheres negras no enfrentamento do machismo e do racismo e de como são elas que estão na linha de frente dessa luta.

“É nesse confronto cotidiano que os ataques racistas vêm para cima da gente, porque colocamos o nosso black para cima, o turbante, a conta de orixá no pescoço e vamos para a universidade. Eles tentam nos asfixiar o tempo inteiro e, quando não conseguem mais tirar qualquer chance de nos impedir e boicotar no mundo do trabalho, na ida ao shopping, nós criamos nossos próprios espaços”, destaca.

1- As mulheres negras estão na linha de frente do combate ao machismo e ao racismo. O que é e quais os impactos do que você chama de “racismo à brasileira” nessa luta ?

Nós vivemos no Brasil uma organização do enfrentamento a esse racismo, que é o racismo de marca, não um racismo de origem. Portanto, se joga muito a situação das pessoas. A primeira coisa é que nós estamos no enfrentamento do racismo e na sustentação de nossas comunidades. E muitas vezes estamos sozinhas nessa luta. O principal ponto sobre o racismo à brasileira é que não tem outros grupos efetivamente se importando com o racismo. E nós precisamos que as pessoas brancas, que se anunciam como antirracistas, se envolvam na luta. Nos levantamos por cada mulher e cada menina, por cada senhora idosa, rezadeira e parteira, por cada mulher que toma conta do mercado e que garante a nossa sobrevivência e que garantiu nossa chegada com dignidade até 2022. 

2- E as mulheres negras sempre estiveram ali, Vilma?

Com 15 anos de idade entrei no movimento em defesa da escola pública, na minha escola, e acompanhei a luta de todas as minhas companheiras aqui na Bahia e no Brasil. Podemos olhar o exemplo de organizações como o Coletivo Nzinga desde 1982, com Lélia Gonzalez no Rio de Janeiro, com Beth Viana e com todas aquelas mulheres que colaram mesmo na luta.  Quando a gente olha outras experiências da ONG Criola, do Maria Mulher, no Rio Grande do Sul, do Observatório e de todas as lutas organizadas por todas outras companheiras no Recife, em Pernambuco. 

Todas essas lutas são lideradas e trazidas até este ano de 2022 por mulheres negras. O que tem de mais contundente no enfrentamento ao racismo nesse país, mesmo quando você olha para a história dos blocos afros e às vezes não enxerga imediatamente as mulheres? As mulheres estão ali construindo enfrentamento. A gente pode voltar a Palmares; onde a gente for são as mulheres negras no enfrentamento. Eu falo da experiência do candomblé e das irmandade porque imagine o que é em plena escravização e brutalidade colonial, mulheres se juntarem nesse país inteiro para fazer irmandade para comprar a liberdade de outras pessoas, mulheres e homens. A gente ainda precisa colocar essa história em tela. É preciso contar sobre nossa subjetividade e formas altamente sofisticadas que nós erguemos por liberdade. 

3- Em um ano eleitoral, você vê o combate ao machismo e ao racismo no centro das discussões e nos programas de governo dos candidatos?

Eu me junto a Sueli Carneiro e Grada Kilomba ao dizer “É nós, por nós” e  nós precisamos ser prioridade na agenda política do país e nos colocarmos como prioridade. Para os partidos políticos, seja esquerda ou direita, será impossível não tratar da agenda racial e de gênero no país. E não tratar dessa agenda é estar de mãos dadas com o facismo. Para a gente não tem recuo, só se for para impulsionar o caminho da luta. Não é possível depois de tudo o que passamos não se posicionar nessas eleições. As eleições de 2022 são decisivas para o país enquanto projeto de nação.  Não é possível fazer política sem as mulheres negras e indígenas, o que tentarem fazer sem nós, é atraso e colonização atualizada.

4- No Brasil, as mulheres negras são as maiores vítimas de injúria racial segundo dados das secretarias de segurança pública. Por que avalia que as ofensas racistas são destinadas mais a elas?

As questões levantadas tanto por Lélia Gonzalez quanto por Luiza Bairros, sendo que Luiza fez o texto “Nossos Feminismos Revisitados”, de 1995, e mais recentemente, quase 30 anos depois, com a vinda de Ângela Davis ao Brasil, que disse que “Quando uma mulher negra se move, toda sociedade se move com ela”, esse ataque permanente a nós mulheres negras é porque é aqui que o racismo se faz e se refaz todos os dias. Somos o grupo que confrontamos com os racistas. Na hora de defender nossos territórios, a vida dos nossos e nossas vidas, não temos vacilo. E a nossa presença cria uma reação secular do estupro colonial ao quarto de empregada. Nós botamos a verdade dos racistas no meio da rua. Por isso, claro que somos o grupo que o racismo quer destruir. É nesse confronto cotidiano que os ataques racistas vêm para cima da gente, porque colocamos o nosso black para cima, o turbante, a conta de orixá no pescoço e vamos para a universidade. Eles tentam nos asfixiar o tempo inteiro e, quando não conseguem mais tirar qualquer chance de nos impedir e boicotar no mundo do trabalho, na ida ao shopping, nós criamos nossos próprios espaços. Nós que pensamos, desafiamos e qualificamos a democracia brasileira e, inclusive, o campo dos direitos humanos.

5- Na sua avaliação, quais são as estratégias para luta política na promoção e garantia dos direitos das mulheres negras?

Tem vários movimentos acontecendo. A primeira coisa é uma luta contundente para parar a matança em nossas comunidades. Entre muitas das lideranças que organizam esse movimento no Brasil inteiro, somos nós as mulheres, dos movimentos “Mães de maio”, “Mães de Manguinho” e  “Mães do Cabula”, entre tantos outros. Enquanto eu era ouvidora geral da Defensoria Pública da Bahia, em 2017, pela primeira vez nós recebemos o Movimento Internacional de mães e familiares vítimas do terror de Estado. E ali eu pude vivenciar uma experiência de ver quando a gente fala que são as mulheres negras que estão à frente da luta, ali é um retrato muito contundente dessa forma de organizar a luta pela nossa sobrevivência e resistência. 

No outro aspecto, ao mesmo tempo, os jovens e as jovens que sobrevivem a essa guerra racial, a essa matança, a luta das mulheres que continuam no trabalho doméstico, que são diaristas… E nos quilombos ou em outras formas de agricultura familiar, a luta que nossas companheiras têm feito para que suas filhas alcancem uma outra vida que elas não tiveram. Principalmente, a conquista de um espaço  no mundo do trabalho e na universidade. Isso me toca profundamente porque a luta da minha geração, que tem 50 anos, é que nossas filhas e sobrinhas não enfrentem o horror do trabalho doméstico sem direitos. 

 Na hora de defender nossos territórios, a vida dos nossos e nossas vidas, não temos vacilo. E a nossa presença cria uma reação secular do estupro colonial ao quarto de empregada. Nós botamos a verdade dos racistas no meio da rua. Por isso, claro que somos o grupo que o racismo quer destruir. É nesse confronto cotidiano que os ataques racistas vêm para cima da gente, porque colocamos o nosso black para cima, o turbante, a conta de orixá no pescoço e vamos para a universidade.

6- Quais os desafios?

Temos uma batalha pela frente, de enfrentar o cinismo das gestões públicas nos municípios e nos governos dos Estados, assim como do Governo Federal. Para garantir o direito ao trabalho dessa nova geração que experimentou a realidade das universidades, mas que para um imenso número de homens e mulheres negros, nunca experimentaram ter qualquer direito no serviço público e adentrar o mercado de trabalho. O serviço público no Brasil ainda é extremamente branco e concentrado na classe média. As mulheres negras tiveram que enfrentar professores e gestores que não queriam cotas raciais, a mídia corporativa e uma verdadeira guerra contra cotas. Precisamos que o sistema público funcione porque nós só temos esse. 

7- Como o antirracismo pode ajudar nesse sentido?

É muito importante que as pessoas se metam no meio dessa guerra racial contra nós. E além disso, tem uma questão objetiva para quem não sabe como se engajar na luta antirracista. No mundo do trabalho, por exemplo, você tem que sentir um  estranhamento se chega em um espaço de poder e não tem nenhuma pessoa negra, especialmente com toda força do protagonismo político das mulheres negras. É preciso estranhar. Eu sou uma mulher negra que todos os dias acessa lugares de poder, não foi um lugar comum ser ouvidora geral da Bahia, estou falando de lugares de poder. Se você vai fazer uma seleção, é preciso se preocupar com o enfrentamento ao racismo e ao patriarcado. Deve ser um compromisso. 

Outro ponto é irmos para o embate público. O que Luiza Trajano fez com o programa de trainee da Magazine Luiza foi mexer com a estrutura racista do mercado de trabalho. Esse é um convite que fazemos às pessoas que querem ter uma postura antirracista. Trajano não imaginava a profundidade da coisa, mas os ataques que sofreu mostraram que precisamos aprofundar nas políticas de ações afirmativas. Não deixar brecha para fraudadores em concursos, que estão roubando de forma criminosa as oportunidades de mulheres negras e homens negros. E ainda precisamos questionar a  estrutura racista. Não é sobre pessoas, mas uma estrutura que é materializada pelo silêncio e covardia de pessoas brancas que não se pronunciam. Esse é um debate intenso sobre o comportamento dos brancos do Brasil. 

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