O machismo mata. O silêncio também

O machismo mata”. Esta foi uma das várias frases que ontem ecoaram pelas ruas da Baixa de Lisboa, durante a Marcha para a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra as Mulheres. Foram muitas as pessoas – mulheres e homens – que fizeram parte desse momento, num evento que marcou definitivamente em Portugal o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. Um dia que foi assinalado em 140 outros países e cujas ações deverão prolongar-se em dezembro. É inegável: o machismo mata. Tal como o perpetuar do silêncio.

Por PAULA COSME PINTO, do Expresso

Se há uns anos era poucas as mulheres que ousavam sair da sombra da vergonha e do medo causados pela violência vivida em segredo, é muito bom ver que este tema começa a deixar de ser tabu. E que há já muitas vozes dispostas não só a consciencializar os demais para este drama recorrente, como também a denunciar os abusos. Mas o caminho é longo e ainda há mesmo muito a fazer, principalmente no que toca à mudança de mentalidades (começando nas próprias mulheres) e na proteção das vítimas.

Para quem não sabe, o 25 de Novembro está relacionado com uma homenagem às irmãs Mirabal, que foram torturadas, violadas e assassinadas em 1960, a mando do ditador da República Dominicana, Rafael Trujillo. A ideia de instituir um Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres surgiu no início dos anos 80 e foi formalmente aasumido pelas Nações Unidas há 16 anos. E embora as décadas vão passando, ele continua a ser essencial. Num mundo ideal isto não deveria fazer sentido. Mas repito aquilo que escrevi aqui em Março, aquando da celebração do Dia Internacional da Mulher: estamos longe de estar nesse mundo. Aliás, estamos ainda longe de chegar à sociedade ideal, mesmo nos países supostamente civilizados.

Sabe quantas mulheres já morreram em Portugal este ano vítimas de violência doméstica?

Repito: enquanto ainda existirem Sakinehs que podem ser apedrejadas até à morte por supostos adultérios confessados sob tortura é peremptório termos um o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. Ou enquanto existirem Feng Jianmeis a quem arrancam um filho do ventre aos sete meses de gravidez por não ter dinheiro para pagar uma multa. Ou estudantes que são violadas até à morte em autocarros da Índia e cujos violadores continuam a achar que tiveram motivos para o fazer. Ou casamentos forçados de adolescentes a quem não é permitido o amor, ou excisões a meninas como forma de purificação ou tráfico de mulheres para redes de prostituição e demais atrocidades, como a escravatura. E também enquanto existirem estrelas de Hollywood a serem ameaçadas de divulgação de fotos suas privadas em redes sociais como represália a discursos públicos sobre os direitos das mulheres, ou enquanto mulheres sejam discriminadas em contexto laboral, ora com salários quase 25% mais baixos do que os dos homens, ora com discriminação relacionada à questão da maternidade.

Infelizmente, esta lista de exemplos claros de abusos, que têm como ponto de partida a discriminação de género, podia ser mais extensa. Tão, mas tão mais extensa. Em Portugal, por exemplo, 85% das vítimas de violência doméstica são mulheres. Os últimos dados do Observatório das Mulheres Assassinadas da UMAR prevê que o total das 43 mortes resultantes destas situações, em 2014, seja ultrapassado em 2015. Uma tendência crescente nos últimos três anos. Em outubro, a GNR apontava que até ao momento 40 mulheres já tinham morrido este ano e a UMAR completa os números negros, revelando que pelo menos outras 33 foram vítimas de tentativa de homicídio.

É certo que até hoje já foi percorrido um longo caminho no que diz respeito à igualdade de género. Mas ainda falta percorrer outro caminho tão, ou mais longo ainda. Felizmente, por cá já vamos tendo cada vez mais voz para falar, gritar ao mundo o que se passa. Haja coragem e, em muitos casos, meios e apoio a tempo e horas. Principalmente o das autoridades competentes. Mas ainda há muitas mulheres mundo fora às quais não é sequer permitida a palavra ‘não’. Se por nós ainda faz sentido a existência deste dia, por elas é essencial que ele continue a existir. Tal como escrevi em Março: Quem me dera que não fizesse.

+ sobre o tema

Outubro Rosa: Super-heroínas ensinam autoexame para prevenir câncer de mama

Para lembrar que nenhuma mulher está imune ao câncer...

Congresso dos EUA aprova projeto de lei que protege casamento entre pessoas do mesmo sexo

A Câmara dos Deputados dos Estados Unidos aprovou nesta quinta-feira (8)...

Dennis de Oliveira: Sobre as cantadas racistas

Charô Nunes, no final de maio, publicou um texto...

Da infância em Cidade Dutra à presidência da Pandora: conheça a história de Rachel Maia

Caçula de sete irmãos, executiva lembra dos tempos em...

para lembrar

Ancestralidade em Movimento

Quando nascemos, possuímos em nossos corpos a possibilidade de...

Revoluções sexuais e novos desafios

Quem busca parceiros sexuais em aplicativos de celular tem...

Lei Maria da Penha está sob ameaça, alerta deputada

A Lei Maria da Penha (Lei 11.340/06) comemora três anos sob...

Mulheres são mais vulneráveis ao HIV e sofrem mais preconceito

A aids é mais recorrente entre homens do que...
spot_imgspot_img

Aborto legal: ‘80% dos estupros são contra meninas que muitas vezes nem sabem o que é gravidez’, diz obstetra

Em 2020, o ginecologista Olímpio Moraes, diretor médico da Universidade de Pernambuco, chegou ao hospital sob gritos de “assassino” porque ia interromper a gestação...

Lançamento do livro “A importância de uma lei integral de proteção às mulheres em situação de violência de gênero”

O caminho para a criação de uma lei geral que reconheça e responda a todas as formas de violência de gênero contra as mulheres...

O que está em jogo com projeto que torna homicídio aborto após 22 semanas de gestação

Um projeto de lei assinado por 32 deputados pretende equiparar qualquer aborto realizado no Brasil após 22 semanas de gestação ao crime de homicídio. A regra valeria inclusive para os...
-+=