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O racismo religioso também atinge os pentecostais

A intolerância contra as religiões afro-brasileiras tem sito protagonizada pelos evangélicos. Como participantes da religião hegemônica e colonizadora, os evangélicos reproduzem hoje o que o catolicismo fez ao longo dos 350 de escravidão e que ainda continuou a praticar pós abolição. Porém, o racismo religioso reproduzido pelas igrejas não livra as pessoas negras evangélicas de outras experiências de racismo e nem representam toda a experiência protestante no país.

por Zózimo Trabuco enviado para o Portal Geledés

A História dos grupos protestantes no Brasil que formam as atuais denominações começa no século XIX em duas fases de inserção: o protestantismo de imigração e o protestantismo de missão. O primeiro estava ligado à imigração e atendia às demandas religiosas dos colonos dos países de origem, aportados em terras brasileiras, favorecidos pelas mudanças políticas, econômicas e culturais que abriram as portas da imigração no século XIX. Neste contexto se instalam os anglicanos com a imigração inglesa (1810) e os luteranos com a imigração alemã (1824). O segundo resultou das missões religiosas de agentes autônomos ou ligados às juntas missionárias, provenientes, sobretudo, dos Estados Unidos. Na era das missões aparecem: congregacionais (1858), presbiterianos (1862), metodistas (1869), batistas (1882), e episcopais (1898). Esse conjunto de denominações tem sido nomeado como protestantismo “histórico” ou “tradicional”.

O surgimento das igrejas pentecostais ocorreu no século XX. O nome do movimento faz referência à passagem bíblica que descreve a descida do Espírito Santo sobre a igreja primitiva reunida em Jerusalém no dia de Pentecostes. No texto, fiéis de diferentes localidades começaram a falar em outras línguas ao mesmo tempo em que ouviam a todos em seu próprio idioma. Esta passagem também é usada para fundamentar a doutrina pentecostal da Glossolalia, também conhecida como o dom de línguas, o falar “línguas estranhas” ou a “língua dos anjos”.

No Brasil, o pentecostalismo se instala em três movimentos. O primeiro corresponde à chegada das denominações Congregação Cristã do Brasil (1910) e Assembleia de Deus (1911). Esses grupos foram classificados como pentecostalismo clássico, por possuírem as características do pentecostalismo nascente, como a crença no batismo no Espírito Santo como uma “segunda benção”, através da qual aqueles que passaram pela “primeira benção”, a conversão, receberiam os dons espirituais: dom de cura, profecia, visões e a glossolalia. O segundo movimento inseriu-se num contexto de urbanização, aumento do fluxo migratório nas grandes cidades e a formação de uma sociedade de massas. Os principais grupos surgidos neste contexto foram a Igreja do Evangelho Quadrangular (1951), a Igreja Pentecostal O Brasil Para Cristo (1955) e a Igreja Deus é Amor (1962). Estes grupos foram classificados como pentecostalismo autônomo ou de cura divina, porque contribuíram para a proliferação de pequenas comunidades de fé autônomas às denominações institucionalizadas e porque tinham nas manifestações de cura uma importante experiência religiosa e veículo de pregação. O terceiro movimento pentecostal coincidiu com o início do processo de distensão da Ditadura Militar, da consolidação da indústria cultural e da crise do “milagre econômico” de fins dos anos 1970. Suas principais denominações foram: Igreja Universal do Reino de Deus (1977) e Igreja Internacional da Graça de Deus (1980) e Renascer em Cristo (1985). Estes grupos foram classificados como neopentecostalismo e igrejas surgidas a partir deste movimento apresentaram uma combinação de cura, exorcismo e teologia da prosperidade. Em seus discursos e práticas, a superação de males físicos, psicológicos e sociais através da benção divina é entendida como um milagre ou uma libertação das raízes espirituais destes males, muitas vezes atribuídas à possessão demoníaca ou associadas à influência de outras religiões, sobretudo afro-brasileiras. Notabilizaram-se ainda pelo uso massivo e regular dos meios de comunicação e estratégias de ocupação do poder político.

O protestantismo de origem missionária que se instaurou no Brasil na segunda metade do século XIX foi fundamentalmente norte-americano, sulista e escravagista. Muitos missionários tinham escravos, outros, quer favoráveis ou contrários ao escravismo, não criticaram publicamente o sistema, mantendo o discurso da igreja como uma organização espiritual, que não deveria se intrometer nos assuntos de ordem política. A relação do protestantismo com a negritude, no Brasil, foi marcada desde o início pelo sentimento de superioridade dos missionários, pela dependência econômica e cultural das igrejas brasileiras às missões estrangeiras, pelo preterimento das lideranças brasileiras nas estruturas eclesiásticas, tratadas de “nativas”, e pelo estigma da cor negra associada ao pecado.

O pentecostalismo representou outra experiência de negritude no seio do protestantismo por ter se desenvolvido predominantemente nas camadas mais pobres da população, de maioria negra. Nas igrejas pentecostais, mais do que no protestantismo histórico, a vivência de um cristianismo negro esteve mais presente, mesmo marcada por ambiguidades. Em primeiro lugar, porque as pessoas negras encontraram nas igrejas pentecostais, principalmente naquelas inseridas em bairros periféricos, um novo espaço de sociabilidade. Em segundo lugar, porque o conflito com as religiões afro-brasileiras e a maior inserção na cultura popular fez surgir experiências religiosas e expressões litúrgicas influenciadas por uma religiosidade negra multifacetada. Em terceiro lugar, porque o pentecostalismo contribuiu com a formação de lideranças negras comunitárias e se tornou uma possibilidade de ascensão social de pessoas negras através da reprodução da ética protestante.

Nada disso impediu a vivência do racismo nas igrejas. Tal como o protestantismo histórico, o pentecostalismo também reforçava o estigma da cor negra e de tudo o que pudesse ser associado às culturas africanas. Demonizava-se o Candomblé e a Umbanda, embora assimilando, muitas vezes, alguns aspectos da cosmologia e dos bens simbólicos dessas religiões. O neopentecostalismo, surgido no final dos anos 1970, acrescentou a este racismo teológico e doutrinário, a pregação da maldição hereditária e da batalha espiritual, que resgatavam discursos que contribuíram para legitimar a escravidão e a segregação.

A doutrina da maldição hereditária apregoava que a África e os negros seriam descendentes de Cam, o filho de Noé que foi amaldiçoado com a servidão a seus irmãos, de quem deveria ser escravo, por ter “conhecido” a nudez do pai. Para romper com esta maldição, os negros deveriam se converter e libertarem-se de qualquer ligação espiritual com a África ou seu legado. Na reelaboração realizada pelo neopentecostalismo, qualquer filiação religiosa anterior à conversão submeteria o sujeito a um espírito amaldiçoado transmissível aos descendentes. A doutrina da batalha espiritual enfatizava o conflito do bem e do mal, permeando a vida do cristão e das igrejas com exércitos de espíritos, principados e potestades a habitar nas estruturas do mundo, causando males sociais e individuais. Os lugares, como as pessoas, precisariam ser exorcizados e conquistados para Jesus.

A temática negra foi assumida no protestantismo através da criação de pastorais antirracistas. O pioneirismo coube aos metodistas que criaram em 1973, por iniciativa de pessoas negras da denominação, a Comissão Nacional de Combate ao Racismo, oficializada pela Igreja Metodista em 1985, quando também foi instituída a Pastoral de Combate ao Racismo. Um ano depois, agregando outras denominações, surgiu a entidade interdenominacional Comissão Ecumênica Nacional de Combate ao Racismo (CENACORA).

As igrejas protestantes no Brasil nunca estiveram polarizadas ou engajadas em função do conflito racial. O que não significa que o conflito não esteja subjacente ou explícito na segmentação protestante – uma escala de classe e cor por denominação – em movimentos dissidentes e na disputa do campo religioso, incluindo aí a intolerância às religiões afro-brasileiras. Uma mesma denominação pode apresentar igrejas com experiências religiosas muito diferentes a depender da composição étnica e social dos seus membros e do lugar que ocupe na geografia urbana. Uma igreja central nunca é igual a uma periférica.

O pertencimento de pessoas negras ao protestantismo tem sido historicamente maior nas denominações pentecostais instaladas no século XX do que nas igrejas criadas no século XIX, nomeadas como “históricas” ou “tradicionais”. A incorporação de elementos de uma religiosidade negra não cristã e a formação de lideranças eclesiásticas e comunitárias negras também é maior na experiência pentecostal. Entretanto, foi no seio do chamado protestantismo histórico, principalmente em sua vertente ecumênica, que surgiram pastorais e militâncias antirracistas. A contradição entre um pentecostalismo majoritariamente negro e refratário ao debate racial e um protestantismo progressista oriundo de igrejas históricas e majoritariamente branco, se apresenta como desafio para as pastorais e militâncias antirracistas no protestantismo brasileiro.

A espiritualidade pentecostal, herdeira de modos de crer e praticar a fé das culturas negras e periféricas da diáspora, também sofre um olhar discriminatório, que a coloca na esfera do “exótico”, do “primitivo” e do “grotesco”, formas históricas de deslegitimação das religiosidades negras e periféricas, compartilhadas em estudos acadêmicos e na opinião pública. Muito do que é condenado nas práticas litúrgicas pentecostais sempre esteve presente na religiosidade popular, mas o sentido positivo do termo “popular” muitas vezes é negado ao pentecostalismo. Em seu lugar, outro adjetivo menos nobre lhe é atribuído: religiosidade de “massa”.

A crítica aos elementos problemáticos do pentecostalismo e comuns a outras experiências religiosas, como os discursos de intolerância, os projetos de poder político e as práticas de manipulação da fé coletiva para fins de enriquecimento ilícito, não devem desculpar ou esconder que há um preconceito contra os pentecostais, principalmente os que estão nas igrejas de maior presença negra e periférica. E pessoas negras e periféricas estão majoritariamente em igrejas pentecostais.

Este artigo simplifica muitas informações e análises com o fim de provocar o debate. Para um conhecimento mais adequado e abrangente segue abaixo algumas leituras recomendadas. Há muito a pesquisar sobre protestantismo e relações raciais durante a escravidão e pós abolição, sobre igrejas como organizações populares de sociabilidade e pertença comunitária e finalmente sobre os instrumentos sociais fornecidos pela experiência protestante a pessoas negras no seu enfrentamento cotidiano do racismo. Sem estudo crítico, o olhar sobre o pentecostalismo continuará refém do preconceito.

Bibliografia

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 TRABUCO, Zózimo. “À direita de Deus, à esquerda do povo”: Protestantismos, esquerdas e minorias (1974-1994). Salvador, Editora Sagga, 2016.

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