O significado da cor

Vera Baroni, 70 anos, redescobriu-se como mulher negra feminista após adentrar o universo do candomblé, religião de seus ancestrais.

Por Marcionila Teixeira Do Diario de Pernambuco

Vera Baroni nasceu com a pele preta da mãe. Um dia, perto de completar 60 anos, recebeu um convite. Aconteceu durante uma apresentação de afoxé, no Pátio de São Pedro, no Centro do Recife. Naquela ocasião, sua cor começou a ganhar outros significados. Os símbolos do passado ressurgiram fortes. Era uma criança, quando, dentro de casa, percebia o movimento silencioso da mãe em adoração aos orixás. Um culto às escondidas, permeado pelo peso da lei das contravenções penais. Os tempos eram difíceis para os seguidores de religiões de matrizes africanas. Na realidade, nunca foram fáceis. Mulher negra feminista, Vera, já adulta, ainda parecia temer o sobrenatural observado nas cenas de menina. O convite para conhecer mais um terreiro foi aceito.

Em dezembro, Vera completa sete anos de iniciada no candomblé. Ao que parece, puxou não apenas a cor da pele da mãe, mas também sua religião. A advogada com especialização em direitos humanos e saúde coletiva também é yabassé, responsável pelo preparo dos alimentos sagrados no candomblé. Através de suas mãos hábeis, prepara comida para agradar aos orixás e matar a fome dos vizinhos do terreiro que frequenta em Dois Unidos.

O orgulho negro de Vera também alimentou-se de histórias de outras mulheres como ela. Em 2003, quando criou um movimento novo em Pernambuco, a Uiala Mukaji, Sociedade das Mulheres Negras de Pernambuco, ela foi a campo. “Uma das nosssas finalidades era buscar histórias de mulheres negras pernambucanas. Na época, descobri que a maioria era do candomblé. Percebi que não podia mais fugir de minha religião. Minha mãe nasceu em Cachoeira, berço do candomblé na Bahia”, conta.

Ao adentrar na religião de seus ancestrais, Vera rompeu com um universo católico forte, que lhe empoderou como defensora de direitos humanos. Nascida no Rio de Janeiro, ela tinha quinze anos quando, a convite da paróquia do bairro onde morava, conheceu uma massa de nordestinos nas salas de aula de uma escola radiofônica montada no Colégio Sion. O método Paulo Freire auxiliava a adolescente a ensinar a ler e escrever uma maioria analfabeta, formada por domésticas e trabalhadores da construção civil, afastada de seus estados de origem, forçada a migrar pela necessidade de sobrevivência.

“Ficava admirada especialmente com a forma como o pernambucano falava de sua terra, da saudade que sentia das manifestações e do fazer cultural. No Rio de Janeiro, terminavam isolados nas obras, eram desrespeitados, chamados de paraíba. Na escola, se sentiam bem”, lembra. Em tempos de ditadura, as escolas radiofônicas foram consideradas subversivas e terminaram fechadas. Vera partiu. Pernambuco fazia parte de seus planos. Tornou-se recifense por opção em 1967.

Na semana passada, Vera Baroni, agora com 70 anos, conquistou o Prêmio Orgulho de Pernambuco, na categoria cidadania, entregue durante as comemorações pelos 190 anos do Diario. Ocupou o alto da página da coluna social. Mas a agraciada deseja mais. Quer o fim do racismo nas relações. “Caiu o mito da democracia racial. Se ela existisse, os negros estariam em espaços de poder. A hora é de respeitar as diferenças”. Vera está coberta de razão. Hoje muito mais que ontem.

+ sobre o tema

A cor do pecado: no século xix, a sensualidade da mulher negra

______________________   Resumo Esta pesquisa tem por objetivo principal analisar a presença...

Bruna da Silva Valim é primeira negra a representar SC no Miss Universo Brasil

Bruna da Silva Valim, candidata de Otacílio Costa, foi...

A Mulher Negra Guerreira está morta…

Há poucas horas, enquanto lutava com a realidade de...

Elizandra Souza celebra 20 anos de carreira em livro bilíngue que conta a própria trajetória

Comemorando os 20 anos de carreira, a escritora Elizandra...

para lembrar

Carta aberta a uma mãe

Carta aberta de uma mãe que não sabe o...

Descolonizar a língua e radicalizar a margem

Uma resenha sobre “Um Exu em Nova York” de...

“Kbela”, filme sobre a relação da mulher negra com o cabelo crespo, foi eleito melhor do MOV

O curta-metragem carioca Kbela, da diretora Yasmin Thayná (PUC-Rio),...

Evento gratuito voltado à literatura afro-brasileira é realizado em Porto Alegre

12ª Festipoa Literária começa nesta segunda-feira (29) e segue...
spot_imgspot_img

Negra Li mostra fantasia deslumbrante para desfile da Vai-Vai em SP: ‘Muita emoção’

A escola de samba Vai-Vai está de volta ao Grupo Especial para o Carnaval 2024, no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, neste sábado...

Livro põe mulheres no século 20 de frente com questões do século 21

Vilma Piedade não gosta de ser chamada de ativista. Professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e uma das organizadoras do livro "Nós…...

“O Itamaraty me deu uma bofetada”, diz embaixadora Isabel Heyvaert

Com 47 anos dedicados à carreira diplomática, a embaixadora Isabel Cristina de Azevedo Heyvaert não esconde a frustração. Ministra de segunda classe, ela se...
-+=