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Pesquisadora defende educação sobre cultura afro-brasileira

Invisibilidade de manifestações culturais, sobretudo de mulheres negras, foi constatada durante estudo de pesquisadora da UFPB

No Portal Correio

Análise se deu pela trajetória de Vó Mera, símbolo da cultura de matriz africana na Paraíba. (Foto: Divulgação UFPB)

A pesquisadora Ana Tavares, destaca, na dissertação “Cultura de matriz afro-brasileira: um estudo à luz da história de vida de Vó Mera”, a necessidade de incentivo e disseminação de múltiplas práticas culturais, especialmente a de mulheres afro-brasileiras, no estado da Paraíba.

Com a análise da trajetória da cirandeira Vó Mera, a pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) afirma que, em seu trabalho, buscou disseminar manifestações culturais paraibanas de mulheres e qualifica a artista popular como um símbolo da cultura de matriz africana.

“Essas manifestações estão inseridas em diversos espaços da sociedade e fazem parte da memória e identidade coletiva. Vó Mera tornou-se uma fonte para a memória da cultura afro-brasileira. Militantes desta cultura buscam visibilidade e ocupar espaços culturais, que priorizam a elite paraibana”, revela.

De acordo com Ana Tavares, mesmo sendo um dos estados brasileiros que dissemina as práticas e manifestações da população afro-brasileira, as atividades culturais na Paraíba ainda fazem distinção de classe, gênero e raça. “Encontramos os grupos e templos religiosos predominantemente nos bairros periféricos do estado, sendo coordenados e frequentados, em sua maioria, pelas mulheres negras. Historicamente, as vozes da população negra foram – e continuam sendo – silenciadas para evidenciar e legitimar as vozes do povo branco”, endossa.

Para Ana, a difusão das expressões artísticas e de aspectos da religiosidade das mulheres afrodescendentes encontra espaços, principalmente, nos terreiros de umbanda e candomblé. “Mesmo com a atuação dos grupos que desenvolvem trabalhos pautados na cultura da população negra em vários lugares, os terreiros de umbanda e candomblé têm um destaque no cenário cultural paraibano”, constata.

Dentre as soluções apontadas pela pesquisadora para a valorização da cultura afro-brasileira, práticas educacionais se notabilizam. “Destaco a disseminação, especialmente, nas práticas educacionais. Seja no ensino formal ou informal, é preciso uma mudança de mentalidade sobre a compreensão de cultura e a legitimação das múltiplas culturas”, argumenta.

Considerado ‘o país mais negro fora da África’, o Brasil ainda enfrenta desafios para o cumprimento da Lei 10.639/2003 (alterada pela Lei 11.645/2008), que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas brasileiras. “Há lacunas sobre as discussões que envolvem a cultura da população negra, pois o povo negro ainda tem suas vozes silenciadas e, de certa maneira, são pessoas invisibilizadas”, enfatiza Ana Tavares.

Debate sobre cultura afro-brasileira é necessário

Na condição de pesquisadora sobre a cultura afro-brasileira, Ana ressalta que manter em voga discussões em torno da temática é fundamental para reconstruir a trajetória cultural e a memória dos afrodescendentes, especificamente das mulheres negras.

“Isso partiu da minha vivência, das minhas inquietações enquanto mulher negra, artista e militante da cultura popular. As mulheres também são protagonistas da memória patrimonial das manifestações afro-brasileiras e precisam ter oportunidade de conhecer e compreender a história de vida de negras como Vó Mera”, acentua.

Segundo Ana, é essencial que as mulheres negras reflitam seu papel na sociedade contemporânea, especialmente no cenário cultural, que tende a não contemplar as diversas manifestações culturais existentes.

“Quando uma mulher negra toma conhecimento das práticas de empoderamento de outra mulher negra, passa a refletir sobre suas práticas, apresentando questionamentos até então silenciados, seja por medo ou por ausência de um posicionamento que considere o seu lugar de fala”, reforça.

Biografia

Domerina Nicolau da Silva, popularmente conhecida como Vó Mera, nasceu em Alagoinha, interior da Paraíba, em 1934. É cirandeira, coquista, compositora, atriz e laureada Patrimônio Artístico do Rangel, bairro no município de João Pessoa onde ela reside desde 1960.

Iniciou sua trajetória como artista profissional cantando nos eventos religiosos e culturais promovidos pelas igrejas católicas de João Pessoa, tendo na percussão o seu neto, Fernandinho, com apenas 8 anos de idade. É fundadora do grupo Vó Mera e seus Netinhos (a partir de 2003, passou a se chamar Vó Mera e suas Netinhas) e mentora da Casa de Cultura Vó Mera.

Seu primeiro álbum, “Vó Mera e suas Netinhas”, foi lançado em 2008 e gravado em parceria com a UFPB e a Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope).Em 2016, Vó Mera fez uma participação na telenovela da Rede Globo “Velho Chico”, interpretando a parteira Encarnação.

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