Poucas modelos negras reabrem debate sobre cotas em desfiles

Enviado por / FonteDo Terra

Os desfiles da semana carioca de moda tiveram celebridades e até modelos transexuais. Porém, em um país onde a metade da população tem origem africana, a presença de negros nas passarelas é rara, reabrindo o debate sobre as cotas.

Poucas modelos afrodescendentes foram vistas nas passarelas da semana carioca de moda, no Rio de Janeiro, que até este sábado apresenta 24 coleções para a temporada de inverno. Por outro lado, o Brasil é o país com maior população negra do mundo depois da Nigéria.

“Só nos chamam quando o tema do desfile está vinculado à cultura negra”, disse à AFP Luana Génot, 23 anos, umas das oito modelos negras de um total de mais de 200 da agência 40 Graus Models, a principal do Rio.

Pela primeira vez, em junho de 2009, a São Paulo Fashion Week – a mais importante da América Latina – se viu forçada a impor uma cota de pelo menos 10% de modelos negros, depois de uma decisão da procuradoria pela pressão dos movimentos de afrodescendentes. Mas na edição posterior, de 2010, apenas oito das 344 modelos que desfilaram tinham origem africana.

“Em 2010, lamentavelmente, um juiz conservador eliminou as cotas”, declarou à AFP o frei David, um religioso franciscano que dirige a ONG Educafro, empenhada em facilitar o acesso de negros e indígenas ao mercado de trabalho. Esta organização reivindicou que a procuradoria do trabalho implante novamente as cotas e a audiência é esperada apenas alguns dias antes da abertura da SPFW.

“Não podemos discriminar os negros no Brasil, onde 51% da população é negra ou mestiça. Penso que a promotoria responderá favoravelmente a nossas pressões e esta decisão influencirá no ambiente da moda em todo o país”, disse o religioso.

No âmbito educativo, o Brasil adotou cotas há alguns anos para facilitar o acesso de negros à universidade. Os organizadores do Fashion Rio não responderam às consultas da AFP, apesar de, em uma edição anterior, terem afirmado que “não existe nenhuma discriminação racial” no setor.

Luana Génot, que, além de ser modelo, estuda publicidade na Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio), descreveu suas dificuldades para o chegar às passarelas: “Me dizem com frequência: ‘Que faremos com seu cabelo?’. Colocam a minha maquiagem por último e dizem que é para que o pincel não fique com tons muito escuros”. “Nos dizem também que a coleção de inverno é para os brancos na Europa, ou até que os negros têm muitos quadris e nádegas. Me impressiona ver que, no Brasil, onde a metade da população descende de escravos negros, haja tão pouco espaço para nós”, disse ela.

A jovem, que defende que as passarelas mostrem a miscigenação que todos veem nas ruas do Brasil, organizou em novembro, em sua universidade, durante a Semana da Consciência Negra, uma discussão sobre a diversidade étnica no mundo da moda. Sergio Mattos, diretor da agência 40 Graus Models, reconheceu em declarações ao jornal O Globo nesta semana que “as semanas da moda são cruéis com as modelos do Rio, que têm mais curvas e a pele bronzeada”. A loira de olhos azuis Bruna Loureiro foi descartada em um desfile por sua pele ser “muito dourada, quando a marca de roupa preferia as peles muito, muito brancas”.

O debate sobre as cotas ganhou espaço na nova edição do popularíssimo reality show Big Brother Brasil, na quarta-feira. Questionado sobre a necessidade de cotas, Daniel Chaniz, o único negro entre os doze participantes e modelo profissional, se declarou “contrário”, uma posição minoritária entre os negros, mas defendida por pessoas que dizem que essas cotas “agravam o racismo”. “Não deveria haver cotas em nenhum setor. Todos somos parecidos, sob a pele todos temos sangue vermelho”, disse ele.

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