quinta-feira, setembro 16, 2021
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Princesa Isabel teve papel tímido na abolição e gostava mesmo era de fazer sorvete, diz a historiadora Mary del Priore

Morte da filha de Dom Pedro II completa cem anos em 2021 com personagem histórico sendo reposicionada

Princesa Isabel foi reconfigurada na história. Tradicionalmente apresentada como a libertadora dos escravizados, teve esse papel recalibrado por uma nova geração de historiadores. Os novos estudos descrevem, em vez de uma protagonista da abolição, uma dona de casa pressionada por diversos interesses, inclusive de uma classe média negra com influência na Corte. Ao GLOBO, a especialista em Brasil Imperial Mary del Priore conta a dimensão exata da aristocrata na Lei Áurea, seus interesses concentrados em religião e na família e os últimos dias da princesa, cuja morte completa cem anos em 2021.

Além de assinar a Lei Áurea, qual o papel da Princesa Isabel na abolição da escravatura?

Muito pequeno. Ela tem um grande amigo, o André Rebouças (um engenheiro negro, que viveu de 1838 a 1898) que frequentava o palácio. Ele marca no diário dele que, em fevereiro de 1888, a Princesa Isabel faz seu primeiro gesto em favor da abolição. Ou seja, podemos dizer que ela se torna abolicionista apenas três meses antes de 13 de maio. Em Petrópolis, ela passa a fazer atividades filantrópicas, oferece chás e almoços para escravos fugidos.

Depois desse primeiro passo registrado por Rebouças, o quanto Princesa Isabel se envolveu com a abolição?

A princesa faz alguns gestos. Mas não é uma militante, uma Chiquinha Gonzaga que faz concertos pela abolição. Existem livros de ouro abertos no Rio, para as pessoas depositarem quantias para alforriar escravos. Ela e Teresa Cristina (mãe da Princesa Isabel e imperatriz do Brasil) dão dinheiro. Mas não é absolutamente uma abolicionista militante. Quem foi abolicionista foi o marido dela, o Conde d’Eu. Mas ele era uma figura sem ação, impedido por Dom Pedro II.

Qual era o ambiente em que se deu a abolição?

Desde 1.870 havia inúmeros grupos de mulheres se organizando na luta pela abolição. Eram jornalistas, professoras, pianistas, lavadoras, que faziam o melhor dela solicitando a abolição. O movimento foi muito forte no Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo. Mulheres negras paulistas foram muito atuantes. Também há jornalista e políticos que vão usar a imprensa e a cena política para agilizar a abolição. Tem um movimento muito grande de fazendeiros de São Paulo que já usava mão de obra imigrante. E tem o movimento dos próprios escravizados que estão lutando, fugindo das fazendas, deixando o trabalho pra trás, negociando a liberdade com os seus senhores. É um movimento da sociedade como um todo, inclusive com figuras notáveis como Luiz Gama, José do Patrocínio e outros.

O que aconteceu com a Princesa Isabel depois daquele 13 de maio?

Não mudou muito a vida dela. A princesa sempre foi muito católica. Ela volta para Petrópolis e assiste uma missa. Ela é muito voltada para família. Nunca teve participação política em nada porque o pai dela não gostava. Não chamava para participar das reuniões ministeriais. Nunca ajudou a princesa a ter um conhecimento maior sobre a vida política no Brasil. Enquanto foi vivo, sempre fechou as portas para ela e para o Conde d’Eu. Ele achava que não precisava.

E ela combatia isso?

Não. Nas regências (períodos em que o pai estava ausente e ela assumia o trono, como quando assinou a Lei Áurea), quem administrava era o Conde d’Eu. A princesa mesmo disse que passava as questões para o marido. E ela assinava os papeis. Nunca foi envolvida com política. Tanto é que não tinha menor ideia no golpe republicano. Vivia isolada numa bolha preparando os filhos para a primeira comunhão, preocupada com a alfabetização de um deles que tinha um problema no braço, gostava de fazer sorvete… Era uma vida de dona de casa.

Como foi a vida dela na Europa após a expulsão da Corte com a Proclamação da República?

Logo que chegam na Europa, a mãe da Princesa Isabel morre em Portugal e depois ela perde o pai, na França. A princesa e o conde chegam sem muitos recursos e quando o sogro falece eles recebem um dinheiro que usam para comprar um castelo na Normandia, onde moraram até o fim da vida. Nesse período ela também perde os dois filhos. A princesa sempre foi uma mulher de amigas, de fazer filantropia e caridade. Não era de fazer grandes bailes, mas tinha uma vida de muita caridade e voltada para a família. E seguiu assim até sua morte, em 1921.

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