terça-feira, dezembro 6, 2022

Projeto de futuro

Só um projeto de Educação gera um projeto de país, e tornar o MEC um balcão de negócios também é um projeto de país

Mais de uma hora de fila para votar, no domingo, me serviu para pensar o Rio, ou pelo menos a Zona Norte, ou pelo menos o Engenho Novo, ou pelo menos a Rua Barão do Bom Retiro. Eu nunca havia visto tanta gente nas filas, inclusive me surpreendeu saber dos 22,76% de abstenção. Talvez seja necessário usar uma lupa para olhar melhor o estado, ou quem sabe as cidades, ou quem sabe as zonas, ou quem sabe os bairros, quem sabe até as ruas.

Havia muita gente confusa com tantos números. Durante estes meses, parecia até que a gente só precisava escolher um candidato. Eu mesma percebi que havia esquecido de colocar o número para senador na colinha. Não é de se espantar que a gente tenha levado sustos nos primeiros resultados divulgados dos eleitos para o Senado nos estados.

Foi bom estar na fila, sair da bolha, olhar de verdade as pessoas, ouvir as conversas paralelas, os sotaques, ver como as pessoas estão calçando, o que elas estão vestindo, saber suas impaciências, suas preferências, seus preconceitos, suas declarações e não declarações de voto.

Abre parêntese para contar a triste história do homem que estava bem na minha frente. Vestindo uma camisa do Flamengo verde e amarela, ele tentava puxar assunto com o senhor na frente dele. Depois de uns cochichos, disse em alto e bom som que o voto do Sudeste deveria ter peso dois, “porque nós contribuímos mais com as riquezas do país.”

O senhor à frente dele sorriu meio sem graça, sem concordar nem discordar. O homem então virou-se para mim, como se quisesse aprovação ou briga, qualquer coisa que fizesse ele (e eu) passar mais rápido pelo tempo da fila. Decidi não fazer contato visual, porque eu teria que brigar e já havia decidido qual seria a minha missão de domingo. Fecha parêntese.

Depois de tanto ver pessoas, comecei a ver a escola. Eu me lembro de entrar pela primeira vez para votar no Pedro II do Engenho Novo. Aos 16 e já no ensino médio, estudava numa escola pública muito boa: com jardim, biblioteca farta, meia parede entre salas e muita dedicação dos professores.

Se você é de escola pública, aprende a invejar os alunos do Pedro II desde sempre, com suas roupinhas lindas e seus cabelos esvoaçantes. Na minha época, nenhum aluno do Pedro II do Engenho Novo morava em alguma favela do Engenho Novo.

Eu senti toda essa inveja voltando, observando os murais do corredor. Inúmeros papéis convidavam os alunos para atividades como roda de conversa com cientista, oficina de dança popular, grupo de estudos de literatura de ficção científica, monitoria de francês. Realmente um projeto de futuro.

Percebi que a minha inveja nem era de aluna, era de professora. Eu às vezes esqueço, mas fiz Licenciatura, me apaixonei pela Educação e não consigo desconectá-la da Cultura. Me deu uma vontade de usar finalmente o meu diploma, que eu nem peguei, e correr pra sala de aula.

Só um projeto de Educação gera um projeto de país, e tornar o MEC um balcão de negócios também é um projeto de país. É perceptível a frustração de ter que jogar todas as fichas em um único candidato, em mais uma vez depender de um salvador e, sim, isso é o que precisa ser feito agora.

Agora estamos correndo os cem metros, mas não dá para continuar deixando na mão dos que acham que são “peso dois” correr (e vencer) a maratona.

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