Qual a dificuldade em discutir racismo e cotas?

O espaço universitário de argumentação ainda apresenta dura resistência ao debate

por ANA PAULA MACHADO, do Jornal do Campus 

Segunda-feira, 16/4, aula de microeconomia na FEA. Pausa para um recado dos militantes negros a respeito da discussão de cotas raciais na USP. Poderia ter passado batido. Ou poderia ter sido um debate enriquecedor sobre racismo na sociedade brasileira. Infelizmente, o que se passou naqueles quase intermináveis 15 minutos de tensão foi mais uma cena lastimável na Universidade.

Os ânimos se exaltaram quando a paciência acabou entre a professora que não queria perder tempo de aula, militantes que insistentemente buscavam voz para a causa e alunos que estavam mais interessados na aula. Faltou respeito e tolerância, sobraram insultos e xingamentos.

O bate-boca entre os estudantes foi registrado em vídeo por um dos personagens principais do conflito, que ficou famoso na Internet, bombou de comentários e virou notícia. Notícia triste de se dar. Não só pela situação em si, mas porque ela poderia ter acontecido em muitas outras salas da Universidade ou em tantos outros lugares do país. Poderia, não. Acontece. A intolerância entre pessoas que discordam de pontos de vista é recorrente no cotidiano brasileiro. Os comentários relacionados ao vídeo são provas disso. E isso prejudica, e até elimina, a resolução do problema em questão, no caso, as cotas na USP e o racismo no Brasil.
Mas o debate não pode parar, pois a adversidade persiste e é grave. Como disse um dos militantes no vídeo, “é bom que, nessas situações, nós conseguimos discutir tudo isso e expomos certas falas ao ridículo”. As frases em destaque, a seguir, são algumas das falas do aluno que gravou o vídeo e que, no entanto, refletem o pensamento de milhões de outras pessoas no Brasil. Merecem ser expostas, problematizadas, esmiuçadas, quetionadas à absoluta exaustão e refutadas por todos, para que, enfim, não sejam mais repetidas.

“Qual a dificuldade de entrar [na universidade]? Estuda aí, champs”
A dificuldade de acesso ao estudo pela população negra e parda, principalmente ao ensino superior, é questão histórica. Foram séculos vivendo à margem de uma sociedade branca e elitista, que resultaram em um problema socioeconômico racial.

Hoje, 53% da população brasileira é considerada negra e/ou parda, segundo pesquisa do IBGE. No entanto, quantos deles temos como colegas nas salas de aula? Quantos deles ocupam o cargo de docente? Uma minoria, ínfima. Não podemos nem dizer ao certo, já que a Universidade não tem — ou não divulga — esses números. O anuário de controle da USP só apresenta dados de gênero. Mas, para se ter uma idéia, de acordo com o levantamento feito pela FUVEST com os calouros em 2013, quase 79% dos estudantes que ingressaram na graduação eram brancos e apenas 2,4% negros. Ainda, entre os cincos cursos mais concorridos daquele ano, que somavam 533 matriculados, apenas um negro foi contabilizado. A dificuldade, pois, é clara.

“Tá bom, não precisa se vitimizar, eu só quero ter aula”
A resposta foi dada a uma militante que abordou a figura da mulher negra na periferia. Essas mulheres não se fazem de vítimas. Elas são, de fato, vítimas de suas condições. Representam a parcela mais vulnerável às opressões da sociedade brasileira, sendo inclusive, o perfil que recebe menor remuneração. Imagine o quanto, elas também, querem ter aula.

“O papai trabalhou muito para pagar o meu colégio e eu me orgulho muito disso”
É para agradecer muito ao papai e à sorte pela oportunidade. Segundo o último censo do IBGE, de 2010, quase 60% dos domicílios brasileiros viviam com menos de um salário mínimo mensal per capita. Isso significa que, se você fizesse parte dessa maioria, hoje, precisaria de, pelos menos, cinco vezes este valor para pagar, somente, o seu colégio. Não é só uma questão de muito trabalho.

Leia também: Cotas na USP: uma questão ideológica?

“Eu me considero igual a todo mundo”
Infelizmente, aluno feano que gravou o vídeo, você não é igual a todo mundo. Você é um homem, branco, de classe média alta e estudante de uma universidade pública de destaque. Portanto, faz parte de uma elite no Brasil que corresponde a menos de 3% da população.

“Marca um horário [para discutir as cotas], quem quiser cola lá, eu só quero estudar”
É compreensível a relutância em ceder espaço para uma discussão, assim de surpresa, em plena aula que antecede a uma prova. Mas o racismo não marca hora para acontecer. Ele está presente na vida de milhões de pessoas no país e, se não nos afeta como indivíduos diretamente, não deixa de nos rodear. A todos nós, estudantes, professores, cidadãos. Se apenas uma discussão sobre o assunto incomoda, imagine conviver diariamente com o problema.

Por fim, fica aqui a fala — que, pelo contrário, merece ser repetida — de um dos poucos alunos negros do curso de Administração: “Eu, como estudante da FEA, também sempre estudei em escola particular. Estudei em um cursinho em que eu era o único negro dentro de uma sala de 170 alunos. É uma questão que, para vocês [brancos], realmente não faz nenhuma diferença. Mas, para mim, sempre doeu, sempre machucou. É muito fácil falar de uma coisa que você não viveu. Eu vivi isso, a minha vida inteira. Vocês estão reclamando de perder aula, mas na aula passada, a professora liberou duas horas mais cedo. Hoje, o cara está tirando trinta minutos. Para vocês não faz diferença, mas na minha vida, isso faz diferença.”

 

(Ilustração: Stella Bonici)

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