Quando  Orí Protagoniza Uma Sessão de Animação

Um dos destaques da programação da sexta edição do Lanterna Mágica, festival de cinema de animação que acontece entre os dias 19 e 24 de março em Goiânia; certamente é a competitiva nacional de curtas metragens. Na quarta-feira dia 20 de março, primeiro dia desta mostra, foram exibidos seis filmes vindos de cinco estados brasileiros. Ao final da sessão acompanhada de debate com realizadores, a audiência estava em puro deleite, agraciada pela oportunidade rara de assistir a esses filmes e se perguntando como o país pode desconhecer a potência do nosso cinema de animação. 

O primeiro curta exibido foi o Diafragma, dirigido por Robson Cavalcante, vindo de Alagoas e bravamente representado por sua produtora a Renah Berindelli. O filme conta a história de Carlos, uma criança sensível que ganha uma câmera fotográfica de seu avô. Engenhoso, concerta o diafragma do equipamento e passa a contemplar o mundo através das lentes do seu estimado presente. Ainda na adolescência, Carlos conhece o amor de sua vida, mas é diagnosticado com diabetes e recebe a sentença de que está perdendo a visão. Na cegueira Carlos se reinventa como um grande escritor. O filme traz de modo singelo o debate sobre os perigos do vício em automedicação, flertando ainda com o debate sobre masculinidades e negacionismos  em saúde. 

Na sequência foi exibido  Jussara, da diretora Camila Ribeiro. O filme que se passa numa idílica roça, acompanha o cotidiano de Jussara, uma griot que conta histórias para sua vizinhança campesina. Caracterizada como uma jovem Conceição Evaristo, Jussara ainda reverencia Carolina Maria de Jesus e Ana Maria Gonçalves. Numa casa/biblioteca, Jussara oferece a riqueza que possui: distribui livros enquanto se revela ainda mais sábia. Interessante destacar que o filme cria um dialeto próprio, que nos convoca a imaginar que história Jussara estaria contando, nos convidando assim, a co-criar diálogos. Jussara tem ancestralidade baiana e negra, como sua diretora, Camila Ribeiro, que tem feito uma trajetória premiada em grandes laboratórios de desenvolvimentos de projetos como Projeto Paradiso e BrLab. 

A animação A Cabeça e o Corpo, conta o dilema de uma cabeça (in)compatível com seu corpo, tendo o divórcio como ápice do conflito. Enquanto a cabeça perambula em profundo sofrimento, o corpo livre segue gozando novas possibilidades de ser. Em sua jornada errática, a cabeça encontra um cavalo-marinho que também é unicórnio, que lhe dá o pontapé de coragem para reencontrar seu corpo. A reconciliação entre corpo e cabeça traz a leveza de um dente de leão fruto das angústias ressignificadas. Dirigido  pela dupla Val Dobler e Mirian Miranda, apesar de ser o  trabalho de conclusão de curso de estudantes da Universidade Federal de Santa Catarina, o filme traz uma maturidade narrativa impressionante, chancelada pela carreira que o filme tem feito, sobretudo em festivais LGBTQIAP+, que tem celebrado tanto a beleza do filme, como a (R)existência de realizadoras como a Miriam Miranda, mulher negra e trans. 

Divulgação

Carcinização de Denis de Souza também é um filme de conclusão de curso, vindo de Pelotas. Conta a história fantástica de um processo que realmente existe de evolução de espécies ao estágio de caranguejo. Tão inusitado quanto poder ser caranguejo é desejar se transformar em  caranguejo. Esse é o sonho de P1, insatisfeitx com sua condição humana, mas não é x únicx a querer viver outra pele, já que faz parte de um trio em que Liz quer mudar o estilo de música e Mari quer trancar a faculdade. Com criatividade técnica, pulsante e colorida, o filme traz um retrato angustiante de uma juventude deslocada. 

O filme O Cactus dirigido por Ricardo Kump de São Paulo conta a história de um homem acometido de uma grave doença psíquica e que após um acidente se vê paralisado num ambiente hostil, sendo obrigado a aceitar sua nova condição, que é bem pior do que a morte. Inspirado no conto Ser Polvo de Santiago Dabove, essa animação de terror tem feito uma carreira incrível em grandes festivais internacionais como Animafest Zagreb, Annecy Festival e ainda ganhou o prêmio de melhor curta metragem latinoamericano no Anima Latina em Buenos Aires. 

Encerrando essa sessão primorosa, foi exibido o Curacanga de Mateus Di Mambro, representado no festival por sua diretora de arte, Maíra Moura Miranda. Baseado no mito da Curacanga, o filme narra o terror de um vale assombrado por uma criatura que acaba de matar uma criança. Buscando vingança por sua irmãzinha, Jaciara pede que seu amado lhe traga a cabeça de Curacanga. Cego de paixão, o caçador de poucas habilidades vai ao encalço do monstro, num desfecho surpreendente. 

Nesta diversidade narrativa e de técnicas de animação, a sessão de abertura trouxe uma curadoria muito sensível à uma temática fundamental, quase que sub-reptícia:  O Ori como pulsão de criatividade, sabedoria, reinvenção de si, bem como de adoecimento e terror. Seja o Ori diafragma que come o mundo pelos olhos, seja o Ori biblioteca, o Ori em sua transexualidade, o Ori adoecido cuja paralisia é fonte eterna de martírio ou o Ori de perenidade coletiva dos mitos e crenças populares. Essa sessão convocou de modo muito refinado, a pensar de modo lúdico e muito politizado, como temos alimentado nosso Ori, aconselhando a cuidar do Ori para não padecer do Complexo de Atlas. 


Viviane Pistache é preta das Minas Gerais, pesquisadora, roteirista, curadora, júri e por vezes crítica de cinema.


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