Querida Sherahzedo…por Milly

Olha isso que aconteceu hoje no restaurante onde eu almoçava com amigas nos Jardins. A gente chegou, como faz toda sexta-feira, e nossa mesa estava reservada. A gente gosta muito de ir lá, o lugar é ótimo, tem estrela no Michelin, serve uma salada de vieiras deliciosa e por isso a gente não muda de lugar. Bom, nossa mesa era na calçada porque a gente não gosta muito do ar-condicionado lá de dentro que é forte demais. Sentamos, colocamos nossas bolsas na cadeira e pedimos um prosseco para a mesa.

Não passou dez minutos e a Pri foi procurar os óculos Cavalli na bolsa porque o sol estava castigando, sabe? Bom, mas aí ela notou que os óculos não estavam na bolsa. Imagina, né? Nossa, ela ficou desnorteada. Sabe quanto custa um óculos desse? Então.

E eu, que fico sempre meio com medo de colocar a bolsa na cadeira quando a gente senta na mesa da rua, comecei a olhar para os lados para ver se achava algum marginalzinho por ali. Nisso, a Pri ficou histérica e começou a chorar. Meu Cavalli, meu Cavalli, roubaram meu Cavalli, ela gritava.

Agora estava todo mundo em volta olhando. Foi quando eu vi que na mesa do nosso lado tinha um pai, uma mãe e o filho de uns nove anos. Eles já estavam na sobremesa mas eu lembrei que o menino, meio inquieto demais, ficava levantando e correndo entra as mesas quando a gente chegou. Você acredita que eu vi o Cavalli no colo dele? Aí não me agüentei.

Eu não vejo o jornal do SBT, mas uma amiga me mandou o vídeo do seu comentário e eu super concordo. Marginalzinho tem que pagar pelo que faz, e se nossa justiça é lenta, a gente tem que se defender. Então eu levantei, apontei para o menino e gritei: Tá ali o ladrão. Pega! Foi um corre pra cá e corre pra lá. O menino tentou fugir, mas um fortão que estava passando pela rua deu uma gravata nele e jogou o pirralho no chão.

A Pri saiu correndo e recuperou o Cavali, que tinha caído na rua, mas não sem antes passar pelo menino e dar um bom chute na cara dele. A mãe do moleque começou a gritar Para! Para! É meu filho, e a gente achou melhor tirar ela de perto porque a confusão já estava muito grande.

Uma mulher veio lá de dentro do restaurante com uma corda, sei lá onde ela arrumou uma corda, e nessa hora alguém tirou o casaquinho Abercrombie que o pirralho usava, tiraram também o sapatinho Camper dele, e sentaram a mão. Aí, enquanto amarravam o pentelho ao pé da mesa, me bateu uma dúvida, e até por isso te escrevo. É pra gente fazer justiça com as próprias mãos com filho de rico também ou só com gente pobre?

Fiquei pensando nisso enquanto via darem uma sova naquele moleque (eu também bati um pouquinho, kkkk), mas acho que cheguei à conclusão que você estava falando da criminalidade em geral, né? Tipo: todos os ladrões mesmo.

Bom, depois disso ninguém mais conseguiu comer de tanto nervoso. Eu fiquei uma pilha. Mas aí cheguei em casa e continuei a pensar em tudo o que você disse. O Brasil tá mesmo muito ruim. Essa roubalheira sem fim, e a gente nem pode almoçar em paz, sai na rua e não sabe se volta. Me deu muita raiva, sabe? E no fundo eu gostei de fazer justiça com minhas mãos. Aí tive uma ideia.

Olha só, vê o que você acha. A criminalidade tá essa coisa de doido. Mas o que é pior do que roubar a carteira ou a bicicleta de uma pessoa? Roubar o dinheiro de muitas, né? Tipo: o cara que ao mesmo tempo rouba milhares de pessoas, sabe? Foi nessa hora que lembrei do Maluf.

Pô, há tantos anos ele é acusado de roubar e a justiça não faz nada, né? E eu sei onde ele mora. Todo mundo sabe, menos a Interpol. Então eu queria te convidar para ir até lá comigo. Vamos dar uma lição nele? Chama umas amigas e vamos pra cima? O cara tá um velho caquético, nem vai conseguir reagir.

Depois que a gente fizer isso, você quer ir comigo dar uma sova nos caras que há décadas estão desviando dinheiro da construção do metrô de São Paulo? Fui ler um pouco sobre isso e descobri que tanto o metrô de São Paulo quanto o da Cidade de México começaram a ser construídos nos anos 70. Sabe quantos quilômetros eles construíram na Cidade do México? Duzentos! Sabe a gente em São Paulo? Setenta. Setenta!

Ah, não, né? Muita cara-de-pau desses ladrões. E não é só que eles roubaram nosso dinheiro. Sabe esse trânsito que a gente pega todos os dias e acaba culpando a faixa exclusiva de ônibus? Culpa desses caras que pegaram a grana e não construíram metrô nenhum! Pensa bem.

E é super fácil saber quem são, os nomes deles estão nos jornais. E todos moram aqui nos jardins perto da minha casa. Vamos? A gente tem que mostrar para esse país que se a justiça falha, a gente entra em ação.

Acho que era disso que você estava falando naquele seu comentário, né?

Ou será que você se referia apenas a fazer justiça pra cima de bandidos pobres e negros e não dos brancos e ricos? Ai, meu Deus, bateu outra vez a dúvida. Melhor esperar sua resposta antes de tomar qualquer atitude.

Beijo, amiga.

 

 

Fonte: Blog da Milly

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