“Quero escrever minha história em paz”, diz Gilberto Braga sobre polêmica racial com Lázaro Ramos

Mal começou e Insensato Coração, a novela das 21h da Globo escrita por Gilberto Braga e Ricardo Linhares, já é alvo de polêmica. Tudo por conta do personagem interpretado pelo ator baiano Lázaro Ramos.

Na sinopse, André Gurgel é definido como “solteiro e bem-sucedido, é o mais badalado nome do design no Rio”. E continua: “sucesso na profissão e na sedução; arrojado, seguro de si no trabalho e na cama, seu único pudor é nunca transar mais de uma vez com a mesma mulher”.

Entretanto, o que tem causado polêmica não é o fato de mais um mulherengo ocupar o horário nobre da TV, mas, sim, o de um ator negro ter sido escalado para o papel.

Logo de cara, Lázaro foi alvo de críticas na imprensa, por conta da interpretação. Na crítica do R7, foi dito que Lázaro “exagerou na canastrice”. No meio impresso também não foi diferente. O jornalista Thiago Mariano, do Diário do Grande ABC, afirmou que “a caricatura chega a ser deslavada, o que, infelizmente, faz com que o personagem perca a profundidade”.

Se as primeiras críticas foram focadas no trabalho de ator desenvolvido por Lázaro, no último domingo, a Folha de S.Paulo, em texto assinado pelo jornalista Maurício Stycer, focou sua avaliação na questão racial.

O jornal acusou os autores do folhetim de “tratar como natural algo que não é natural”. O texto ainda afirmou que “não há ninguém ao redor do personagem com coragem de dizer que ele é negro”.

Em entrevista exclusiva ao R7 (leia, abaixo, a conversa na íntegra), Gilberto Braga afirma que ainda “há muita hipocrisia no Brasil”. E faz o pedido: “Quero escrever minha história em paz”.

O que foi colocado pelo jornal como problema – a falta de menção racial a um personagem – é visto por muitos atores negros da TV como solução.

Mulher de Lázaro Ramos, Taís Araújo, a primeira protagonista negra da Globo, sempre disse que sonhava em, um dia, ser escalada para um papel sem que o fato de ser negra fosse levado em conta – como agora acontece com seu marido.

A atriz Maria Ceiça, que já viveu uma personagem que sofria racismo do próprio marido em Por Amor (1997), faz um discurso afinado ao de Taís.

– O personagem do Lázaro está perfeito. É bem-sucedido com a cor e com a carreira. Jamais ele vai deixar de ser negro, porque isso está estampado na cara. Não queremos só personagens estereotipados. Também quero fazer uma personagem linda, rica e bem-sucedida.

No elenco da Globo desde a fundação da emissora, há 45 anos, o ator Milton Gonçalves vê como “positivo” o fato de Lázaro interpretar alguém bem-sucedido sem que a questão racial precise ser abordada.

– Acho uma mensagem positiva. Criticar a maneira de interpretar é uma coisa. Agora, se as pessoas não entendem [o fato de um negro interpretar um personagem rico e desejado], não há o que discutir. O preconceito é uma anomalia que sempre vai existir.

Já o cineasta Joel Zito Viana, que considera André Gurgel um personagem “interessante e necessário”, diz que a questão racial deveria entrar, sim, na trama.

– A ousadia muito bem-vinda de uma novela que incorpora um ator negão, sem traços caucasianos, como exemplo de sucesso profissional e sexual, pode perder a força se não tiver jogo de cintura ao tratar o problema racial.

O pesquisador da sociedade brasileira Daniel Martins, mestre em sociologia pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), não concorda que a trama tenha a necessidade de fazer o personagem de Lázaro ser vítima de racismo.

– No Brasil de hoje é possível um negro bem-sucedido. Temos no Supremo Tribunal Federal um juiz negro, o Joaquim Barbosa. E ele não vai circular nas melhores rodas de Brasília? Isso sem falar em Barack Obama, presidente da principal nação do mundo, que é negro. Não entendo o estranhamento em relação ao personagem do Lázaro alugar um iate.

O sociólogo aprova o fato de Lázaro viver o galã da trama das 21h.

– O André Gurgel serve como espelho positivo para a população negra. Por que ninguém questionou o fato de o Lázaro fazer sucesso com as mulheres do Pelourinho em Ó Paí, Ó? Agora, ele não pega só as meninas do Pelourinho, mas as mulheres mais bonitas da zona sul carioca. E é negro. E isto não faz diferença. O fato de ele ser negro é só um detalhe.

O novelista Gilberto Braga deu sua opinião sobre a polêmica e afirma que não pretende tocar no tema racial em sua trama. Leia a entrevista exclusiva:

R7 – O que o achou da crítica da Folha no último domingo, que o classifica de “tratar como natural algo que não é natural” ao colocar na novela um negro bem posto na sociedade e desejado pelas mulheres?
Gilberto Braga –
Não vou discutir a crítica da Folha em outro órgão da imprensa, não me sinto confortável na situação.

R7 – Mas qual é a sua opinião sobre o desempenho de Lázaro no papel? Acha que ele exagerou um pouco nos primeiros capítulos como afirmou a imprensa? Acha que ele pode melhorar?
Braga –
Não, eu acho a atuação do Lázaro perfeita.

R7 – Você acredita que haja preconceito velado nas críticas que Lázaro vem recebendo?
Braga –
Eu tenho consciência de que ainda há muito racismo no Brasil. Quanto a críticas ao Lázaro, não me chegou nenhuma.

R7 – É possível um negro ser rico, ter sucesso profissional e ainda ser desejado neste país, como acontece em sua novela?
Braga –
Sim. Há uma série deles… Pelé e Neguinho da Beija-Flor são só alguns exemplos.

R7 – Você esperava que este personagem causasse tanta polêmica assim?
Braga –
Não. Além de tudo, eu não suporto polêmica. Quero escrever a minha história em paz com meus companheiros.

R7 – Você acha que ainda há muita hipocrisia no Brasil quando se trata do tema do negro? Por quê?
Braga –
Acho que há muita hipocrisia no Brasil de um modo geral.

R7 – Você pretende fazer com que o personagem de Lázaro sofra preconceito racial na trama? Por quê?
Braga –
Não, porque a novela não tem essa proposta. Lembro, aliás, que estamos escrevendo uma novela e não fazendo um documentário sobre o nosso momento no Brasil.

 

 

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