terça-feira, janeiro 31, 2023

Racismo no centro de Londrina

Ruthe Oliveira é jornalista, uma das pessoas que conhece de perto a luta contra o racismo. Ruthe, hoje em sua rede social fez um texto sobre uma discriminação destas que imaginamos estar longe, mas quando vemos está aqui no meio do nosso caminho, ali naquela aglomeração, bem no centro de Londrina!

por Ruthe Oliveira no Facebook

Divido aqui seu relato no Facebook sobre a triste coincidência de se deparar com o tumulto racista hoje no centro de nossa cidade. Não somente pelo fato absurdo, divido este este texto por não conseguir relatar este caso como ela e pela forma que teve de arrancar homenagens, emoções e reconhecimentos de seus colegas e ex-professores na UEL. Ela agora acompanha o andamento do caso, e divide esta luta!
Leia o Relato da Ruthe Oliveira

Ao acordar hoje, pensei que o dia tinha nascido bonito e feliz. E para confirmar minha suspeita, me levantei bem disposta, pois teria uma entrevista de emprego logo mais… e precisava estar bem.
Fui e saí da entrevista otimista.



Tomei um ônibus em direção ao centro, para resolver umas “paradas”. Quando cheguei ao Shopping Royal, que ainda estava fechado, conheci a querida Zelinda e sua filha Yasmin, duas simpáticas moradoras de Santa Cecília do Pavão, cidade na qual o corpo da minha mãe, dona Maria, jaz. A conversa com as queridas me fizeram visitar as lembranças da cidadezinha vizinha, Nova Santa Bárbara, na qual vivi minha gostosa infância. Despedi-me das queridas acreditando que, realmente, meu dia tinha tudo para ser lindo. Logo mais, eu me convenceria de que não.

Ao sair do shopping, pouco depois das 10 horas, vi uma aglomeração na calçada do outro lado da Rua Maranhão. Muitas pessoas falavam alto, outras gritavam. Aproximei-me. Algumas pessoas relatavam o que acontecera a Ngale Ndiaye, um homem senegalês que trabalha como vendedor ambulante no local, há 11 meses. 

O rapaz havia acabado de sofrer agressões físicas e ofensas racistas, e várias pessoas presenciaram as agressões. Ngale estava visivelmente abalado, e como se comunica pouco em português, não conseguiu explicar o que acontecera.

Pessoas no local me informaram que a agressora, moradora do sétimo andar do edifício Albamar, havia descido até calçada com uma sacola com bananas, que havia comprado há poucos minutos. A mulher, claramente descontrolada, passou a ofender Ngale, chamando-o de “macaco”, “preto fedido”, “filho da puta”, “ladrão”. Não se contentando com as ofensas racistas, a mulher agrediu o rapaz com tapas e chutou suas mercadorias.

Débora, que é orientadora de trânsito na Zona Azul, presenciou as cenas de violência. “Eu tava ali conversando com um homem, aí, do nada, esta mulher apareceu. O rapaz tava parado, com as mercadorias dele, trabalhando, né?! Ela apareceu falando ‘eu já falei para você que eu não quero essas coisas aqui na frente do meu prédio, seu negro!’ Eu não tava acreditando no que eu estava ouvindo.”

Débora me disse que o rapaz ficou sem reação, mas argumentava que estava trabalhando, apenas trabalhando. Ela ainda disse que a mulher o agrediu com um tijolo e jogou as bananas na cara dele. “Ele tentou segurar ela, quando ela começou a bater no rosto dele e, ainda, falava ‘eu sou racista mesmo!’ e ‘não quero negro na frente do meu prédio!’. E quando chegou um rapaz para tentar ajudar, a mulher agrediu ele também.”

Sei que no Brasil, em muitos casos, o crime de racismo é enquadrado como injúria racial, mas Vanderlei, uma das pessoas que passava pelo local e presenciou as cenas, disse trêmulo e revoltado, que se Ngale não fizesse o boletim de ocorrência, ele mesmo faria: “nós todos fomos vítimas de racismo, ela não xingou só ele. Foi um caso de racismo, não é só injúria racial.”

Uma funcionária de uma loja próxima, que era conhecida de Ngale, ficou tão revoltada com toda a situação que agrediu a mulher. Outra moradora do edifício, que não quis se identificar, falou que a mulher tem esquizofrenia e que deve ter tido um surto, pois passou a noite inteira gritando. De acordo com outra moradora, a mulher já agrediu um adolescente há poucos dias.

A agressora foi ouvida por policiais. O Samu foi chamado e a mulher foi encaminhada para o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), onde deverá passar por tratamento.

Procurei ajuda de Oscar do Nascimento, antigo advogado de Londrina, que já atuou em diversos casos de racismo. Ele garantiu que vai acompanhar o caso do Ngale.

Ngale mora com mais três amigos senegaleses, na região central, e todos estão muito perplexos com o que aconteceu. Se alguém puder auxiliá-los em alguma questão, eu passo seus contatos.

Os dias são tristes, cruéis.
Falamos e lutamos contra o racismo TODOS OS DIAS não porque gostamos de ser vítimas. Lutamos contra o racismo, porque cansamos disso tudo! As pessoas de pele preta neste país não aguentam mais serem alvos, todos os dias, de seres desumanos. Só queremos andar e viver em paz!

Mas, infelizmente sabemos que não temos e não teremos paz. Então o que nos resta? A Luta. Chega de esperar que situações como a de hoje aconteçam para que enxerguemos o caos em que este país está enfiado há séculos.

E não, o racismo não está acabando. Chega de tapar o sol com a peneira! Chega de tentar silenciar a voz das pessoas que foram e são, por séculos, socialmente oprimidas. E, faça-me um favor: chega de falar que racismo não existe!

Tá doendo em mim. Mas apesar da dor, voltei para casa mais fortalecida também.
Porque os dias de luta são os dias de força.

Josiane Medeiros Manoel Dourado Bastos Carina Paccola

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