Suécia: o país onde o racismo é apenas uma piada

Por: Jallow Momodou

Suécia criou uma imagem de si de paraíso e harmonia, que foi comprada pelo resto do mundo e dificulta a compreensão sobre o racismo que toma conta do país.

 

 

A maioria das pessoas consideraria a mutilação genital feminina uma questão profundamente angustiante, e que suas vítimas devem ser tratadas com respeito e sensibilidade. Na Suécia, porém, parece que é motivo de riso e que os insultos racionais são piadas.

A ministra da cultura da Suécia, Lena Adelsohn Lijieroth, comemorou o Dia da arte, visitando uma instalação criada para destacar a questão da mutilação. Mas, surpreendentemente, o artista escolheu fazer isso por meio de um bolo e representando uma mulher estereotipada preta com um rosto grotesco. O público, exclusivamente branco, ovacionou a ministra rindo, cortando o bolo em torno do “clitóris” e oferecendo ao artista.

É difícil ver como as mulheres que são vitimas de mutilação genital feminina, podem se beneficiar com essa contribuição para a degradação e humilhação das mulheres negras.

Em sua tentativa de justificar a participação no evento, Adelsohn Lijieroth disse que a arte é para ser provocativa e que as obras foram incompreendidas. Isso revela a sua atitude descuidada em relação a este incidente racista, mas é também uma manifestação familiar da política sueca com as pessoas regras.

Claramente, Adelsohn Lijeroth participou e incentivou um ato racista bruto em sua qualidade de representante do governo. O que torna a coisa pior é que ela posteriormente não expressou nenhum arrependimento, em vez de se questionar sobre a inteligência de todos aqueles que a criticaram. Se um político do topo pode ser demitido por coisas como a compra de fraldas com cartões de crédito do governo, como aconteceu recentemente, a ministra deve assumir a responsabilidade pelo que aconteceu e se demitir.

Mas, mais do que isso, por que é que o Museu de Arte Moderna de Estocolmo, uma instituição do estado maior, organizou um espetáculo como este? Isso só pode ser compreendido olhando o país como um todo. Racismo e representações racistas são comuns na Suécia.

Em março de 2011, uma celebridade popular, Alexander Bard, declarou em rede nacional, na emissora SVT, que não há nada de errado em chamar os negros de “crioulos”: “Se eu posso me referir a mim como uma bicha, então eu deveria poder chamar um negro de crioulo”, disse. E quando confrontado sobre mídias sociais por um afro-sueco, ele insistia em usar a palavra várias vezes para explicar seu ponto de vista.

Em abril de 2011, em uma festa na prestigiada Universidade de Lund, os alunos chegaram com os rostos enegrecidos, com

laços e correntes no pescoço e braços, e intitulados como “um mercado de escravos” brancos. No decorrer da noite, um leilão de escravos foi promulgado.

Quando eu fui prestar queixa, fui submetido a uma represália racista. Além de ameaças e a mim e a minha família, uma imagem manipulada minha como um escravo em manilhas foi colocada em cartazes com as palavras, em sueco: “Este é o nosso escravo fugitivo e ele responde pelo nome de Momodou Jallow. Se você encontrá-lo, ligue para esse número”. Os cartazes foram colocados em vários pontos da cidade, ao redor do meu local de trabalho e da Universidade de Malmo. Em outubro de 2010, um homem sueco branco foi a Malmo e disparou em mais de 20 pessoas de cor e matou um. O assassino foi oficialmente considerado um caso isolado, com problemas psicológicos, em vez de um terrorista com motivos racistas e ele ainda não foi processado.

No início de 2011, um filme de educação sexual causou indignação, porque mostrou um negro tendo relações sexuais com uma garota branca. Mais de meio milhão de comentários foram postados na internet, principalmente comentando sobre o nojo que eles estavam sentindo daquela “traição” branca e da corrupção da pureza da genética sueca. Todo o incidente, porém, não foi ainda comentado por um único político. No entanto, apesar de todos estes casos, a Suécia criou uma imagem de si de paraíso e harmonia, que foi comprada pelo resto do mundo. É um desafio para todos nós rever a auto-imagem, começando em nossas escolas, para entender como o racismo tomou conta do país.

A Suécia aboliu o comércio de escravos em 1847, bem depois de nações como a Grã-Bretanha, mas poucas pessoas conhecem essa parte de sua história. O excepcionalismo sueco – a ideia de que a Suécia é diferente do resto da Europa, desconectada da escravidão e do colonialismo – tornou muito difícil a discussão das estruturas racistas que os negros enfrentam hoje. Racismo é uma forma de poder, se aqueles que o operam acreditarem que é aceitável discriminar, desumanizar e denegrir sem conseqüências. Isto é o que a ministra da Cultura está fazendo: uma estrutura racista que ignora incidentes raciais e, finalmente, torna-os parte da norma. Está é a verdadeira sociedade sueca.

*Porta-voz da Associação Nacional dos afro-suecos e coordenador nacional da rede europeia contra o racismo

 

 

 

Fonte: Jornal da Imprensa

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