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Literatura e representatividade

Literatura e representatividade

Destacando-se como resposta para ausência de obras de autores negros, Editora Malê lança selo para crianças

Por JOYCE ATHIÊ, do O Tempo 

A história da Editora Malê, dedicada à publicação e à divulgação de obras produzidas por escritores negros, ainda é recente. Lançada em junho de 2016, ainda faltam alguns meses para que a iniciativa alcance seu primeiro ano de permanência, mas as celebrações já começaram. A editora lançou, no mês de março, um selo infantil, a Malê Mirim.

“Entendemos a importância de se trabalhar a temática das culturas e das histórias afro-brasileira e africana e também da história indígena com as crianças. Percebemos no Brasil um movimento característico de avanço e retrocesso, em especial, com as leis que obrigam o estudo dessas disciplinas na escola. O mercado se aqueceu com esta obrigatoriedade, mas, rapidamente, a pauta é esquecida e há um enfraquecimento da questão. O selo vem para reafirmar isso”, explica Vagner Amaro, um dos fundadores da Malê.

O lançamento aconteceu na Primavera Literária Brasileira, realizada em quatro países da Europa, França, Bélgica, Portugal e Espanha –, com a publicação de “O Pé de Meia e o Guarda-Chuva”, de Henrique Rodrigues e ilustração de Walther Moreira Santos. O selo mirim segue a proposta de editar livros que tratem de temas como identidade e alteridade, além de textos voltados para a valorização das histórias e das culturas afro-brasileira, indígena e africana.

História. Durante a organização de um evento literário em uma ONG no Rio de Janeiro, Vagner Amaro, jornalista e bibliotecário, e Francisco Jorge, bacharel em Letras e gestor de projetos sociais, se depararam com um sintoma de um problema que veio a tomar ainda maior consciência na busca por publicações afro-brasileiras. Eles pretendiam realizar um trabalho de mediação de leitura com jovens a partir da obra de Conceição Evaristo, escritora mineira que participaria do encontro. Apesar dos esforços, eles não conseguiram efetivar a compra dos livros porque não encontraram nenhum.

Foi exatamente Conceição a primeira escritora a abraçar e a ser abraçada pela Malê, editora criada há apenas nove meses por Vagner e Francisco, afim de contribuir para o fim de um problema: a ausência de livros escritos por autores negros brasileiros nas livrarias e nas bibliotecas do país. A estreia aconteceu com “Histórias de Leves Enganos e Parecenças” e seguiu com nomes como Muniz Sodré, com “A Lei do Santo”; Cristiane Sobral, com “O Tapete Voador”; e Rosana Borges, com “Esboços de um Tempo Presente”. E ainda tem no prelo uma antologia de crônicas de Martinho da Vila, que foram publicadas no jornal “O Dia”.

“Em um primeiro momento, pensamos em pessoas que estão produzindo há muito tempo, que têm uma trajetória reconhecida. Queríamos mostrar a boa literatura que está sendo feita e indagar por que essas obras estavam fora do catálogo”, conta Vagner.

Contexto. Ao longo da experiência de 12 anos na área da literatura, como bibliotecário, mediador de leituras e organizador de eventos literários, a busca particular de Vagner Amaro por um acervo afro-brasileiro levou-o a uma investigação. “Fui entender por que não encontrava esses livros. Fui à Flip e a outros encontros de literatura diversas vezes, frequentava bibliotecas, buscava esses livros e não os encontrava”, completa.

A ausência tornou-se uma inquietação. “Em minha investigação, descubro que autores negros brasileiros que tinham lançado livros já estavam com suas publicações esgotadas porque tinham uma pequena tiragem, feita por editoras pequenas ou por produção independente. Havia uma dificuldade de comprar essas obras, e essa era uma das razões para elas não estarem próximos de seus leitores. Foi para isso que eu e Francisco criamos a Malê”, diz.

Para ele, havia desafios a serem resolvidos em todas as fases da cadeia do mercado editorial. “Primeiro, os autores negros não entram em todas as editoras, acredito que pela temática e pela forma de suas escritas. Nas pequenas editoras, o problema é a distribuição. Além do alcance, esses autores não são convidados para os grandes eventos de literatura que são possibilidades de divulgação”, aponta.

Ele conta que, ainda que bibliotecário e interessado na literatura afro-brasileira, só conheceu Conceição Evaristo quando ela ganhou o Prêmio Jabuti, em 2015, com “Olhos d’Água”, ainda que ela tivesse lançado “Ponciá Vicêncio”, seu primeiro livro, em 2003. “Existe uma estrutura que não permite o acesso dessas obras ao público, e é preciso se perguntar sobre isso. Outras literaturas chegam até você, mas a afro-brasileira, ainda é preciso buscá-la”, enfatiza.

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