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A nova miss EUA: linda, preta , crespa e… conservadora?

A nova miss EUA: linda, preta , crespa e… conservadora?

Na noite do último domingo (14), a linda, preta e crespa Miss Columbia, Kára McCullough, foi coroada a nova Miss Estados Unidos 2017!

Por Carolina Pinho, do Central das Divas

McCullough tem 25 anos e é formada em química e trabalha para a Comissão Reguladora Nuclear dos EUA. Para quem assistiu Estrelas além do tempo (2016), filme estrelado por Taraji P. HensonOctavia SpencerJanelle Monáe, sabe que ser uma mulher negra e cientista não é coisa fácil. Quando pensamos nas ideias contruídas sobre mulheres que são cientistas, McCullough quebra outro estereótipo. Ela é linda e tem uma carreira de cientista de sucesso. Ou seja, a bonita rompe muitos estereótipos de gênero e raça, e isso enche a gente de orgulho.

Sua pele preta e seu cabelo natural fizeram muita gente se sentir representada. Mas, antes de ganhar a coroa, McCullough precisou responder algumas perguntas sobre o cenário político do país. E aí veio a polêmica. Primeiro, ela foi questionada se ela se considerava uma feminista.

 

“Eu realmente não quero me considerar – tente não me considerar como alguém intransigente, você sabe, ‘Oh, eu realmente não me importo com os homens’. Mas uma coisa que eu vou dizer, porém, é: Mulheres, somos tão iguais quanto os homens quando se trata de oportunidade no mercado de trabalho”, afirmou.

 

Como assim, uma mulher desta não é feminista? A resposta da Miss EUA é uma excelente oportunidade para a gente discutir: Uma mulher negra é obrigada a ser feminista?

 

Eu sei que a gente sonha que toda mulher preta que receba destaque defenda os interesses de todas as outras que ficaram para trás. A gente quer se sentir representada. Mais do que isso: muitas negras lutaram para pudéssemos estudar, votar ou mesmo ganhar concursos de beleza. Assim, a gente quer que toda preta grite pelo mundo que quer melhores condições de vida para todas nós. Mas, nem todas vão fazê-lo. É isso: nem toda mulher negra é feminista e nem é obrigada a ser. O fato de ela romper com estereótipos de gênero não a obriga a ser feminista e temos que respeitar isso. O fato de ela defender posicionamentos conservadores não a torna menos mulher, ou menos negra. Eu, como feminista que sou, quero incentivar e garantir que todas as mulheres pretas possam expressar suas opiniões, mesmo que eu discorde delas.

 

Entretanto, pelo lugar que ela está ocupando, ela precisa ter responsabilidade com o que fala. Ela pode até defender o Donald Trump se quiser, mas precisa estar bem informada sobre o que fala. Quando fala que homens e mulheres são iguais no trabalho, ela ignora dados importantes da realidade. Segundo a ONU, mulheres ganham 24% a menos que os homens. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a paridade salarial entre mulheres e homens vai levar mais de 70 anos para ser alcançada. Ou seja, ainda que a gente acredite que homens e mulheres tem a mesma capacidade para ocupar postos de trabalho, sabemos que, socialmente, isso não é verdade! A gente tem que lutar muito para isso acontecer um dia.

Além disso, o que ela falou reforçou a velha ideia de que feminismo é uma luta contra os homens. Quando defende igualdade, ao invés de feminismo, ela reforça a ideia de que feminismo seria uma supremacia das mulheres. O que mostra não apenas uma opinião, mas também um equívoco. Definitivamente, FEMINISMO É SOBRE IGUAIS CONDIÇÕES ENTRE GÊNEROS!

Mas, a nova Miss Estados Unidos deu outras opiniões realmente conservadoras. Ao ser perguntada se a saúde pública nos Estados Unidos seria um direito ou um privilégio. Kára McCullough afirmou que a saúde é um privilégio para aqueles que trabalham. “Como uma funcionária do governo, eu tenho direito a assistência médica. Mas para que se tenha esse direito é preciso estar empregado. Nós precisamos cultivar as oportunidades para que os cidadãos americanos possam ter tantos empregos quanto planos de saúde.” Mais uma vez, Kara se coloca em oposição às condições da maioria da população negra estadunidense, que têm defendido um sistema de saúde público*.

 

Diante de tantas declarações conservadoras, a gente só espera que até o concurso do Miss Universo ela tenha mudado de opinião e possa usar sua posição para fortalecer a luta de mulheres pretas pelo mundo.

 

E para você: McCullough é apenas desinformada ou conservadora convicta?

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