A cor da crise

Famílias brancas têm 20 vezes mais riqueza do que as negras

O racismo é real e mensurável. E definitivamente ele tem um impacto sobre os resultados econômicos. Mas em uma época na qual o racismo aberto, frontal e institucionalizado é visto como coisa do passado, a discriminação por si só não pode explicar completamente as disparidades entre as conquistas das populações negra e branca – a saber, a renda média inferior dos afro-americanos e o seu índice persistentemente elevado de pobreza e desemprego.

Essa diferença aumentou muito nos últimos anos. Em 2007, as famílias brancas tinham em média dez vezes mais riqueza acumulada do que as famílias negras de mesma renda. Isso já era bastante significativo, mas entre 2005 e 2009 a riqueza familiar média da população branca caiu em 16%, enquanto a média das famílias negras chegou a cair 52%. A riqueza familiar média da população branca era equivalente a vinte vezes a das famílias negras.

É crucial compreender a relação entre a riqueza acumulada de geração para geração e as perspectivas econômicas atuais. Central nessa relação é o conceito de “assistência intergeracional”. É um jeito sofisticado de se dizer que as chances de uma pessoa realizar progressos econômicos são condicionadas pelas possibilidades de sua família ajudá-la no começo da carreira.

Dalton Conley, diretor do Centro para Pesquisa Avançada em Ciências Sociais (Advanced Social Science Research) da Universidade de Nova York comparou duas crianças hipotéticas – uma proveniente de uma família com alguma riqueza e, a outra, pobre. Ambas nasceram com o mesmo grau de inteligência, são ambiciosas e estudaram muito. Em uma meritocracia, as duas receberiam as mesmas oportunidades para progredir. No entanto, o fato de que a primeira se graduará sem deixar quaisquer dívidas, enquanto a segunda terá de arcar com um débito de 50 mil dólares, faz uma enorme diferença em termos de perspectivas econômicas a longo prazo.

Esse é apenas um dos muitos modos pelos quais os pais transmitem aos filhos seu status econômico, segundo Conley. “Quando se fala sobre financiar a educação superior de seus filhos, ajudá-los a abrir um negócio próprio ou mudar-se em busca de melhores oportunidades, o patrimônio líquido pode fazer toda a diferença entre a ascensão social e a estagnação”.

A educação também desempenha um papel crucial na manutenção do status econômico inferior dos afro-americanos através das gerações. As escolas são financiadasprincipalmente por impostos locais e estaduais, o que produz diferenças dramáticas entre as instalações disponíveis para as crianças de comunidades ricas e pobres.

De acordo com o relatório anual do Instituto Urbano no State of Black America, as crianças afro-americana receberam cerca de 82 centavos de investimento em educação para cada dólar para as crianças brancas, em 2008. Você recebe por aquilo que pagou – e há duas vezes mais crianças negras do que brancas sendo educadas por professores com menos de três anos de experiência.

Depressão econômica

Considere agora que, 50 anos após a conquista da igualdade racial ante a lei, uma família negra tem hoje apenas 1/20 da riqueza acumulada por uma família branca com exatamente a mesma renda e, no entanto, economiza precisamente a mesma quantidade de dinheiro para os dias difíceis. A diferença na riqueza é, como Conley me disse, “o legado da desigualdade racial atravessando as gerações”.

Enquanto o país como um todo encontra-se em um lentoprocesso de recuperação, a comunidade afro-americana sofre de nada menos do queuma absoluta depressão econômica. O desemprego em toda a população chega a 9%, mas para a população negra ele aumentou em 1,5% desde que se decretou oficialmente o fim da recessão e, atualmente, encontra-se a 16,2%.

Nas comunidades mais atingidas, a taxa de desemprego é ainda maior – 34% dos homens negros que vivem atualmente em Milwaukee estão desempregados. Segundo a CBS, “em maio deste ano, o número de trabalhadores empregados entre os negros caiu para o nível mais baixo desde que o governo começou a coletar esses dados, em 1972. Apenas 56,1% dos homens negros com mais de 20 anos estão trabalhando, comparados aos 68,3% entre os brancos”.

Os afro-americanos têm tido mais problemas do que a população em geral para pagar por itens básicos e despesas como gás (55%, comparados aos 50% da população como um todo), alimentos e utilidades (44%/23%) e mesmo hipotecas e aluguéis (33%/15%), sendo que uma alta percentagem (18%/10%) perdeu o emprego ao longo do último ano.

Como resultado, a metade dos entrevistados tem sofrido de insônia por causa do estresse ou da preocupação (comparados a 41% da população como um todo), 31% teve de limitar as compras de medicamentos (contra 15% como um todo) e 23% perdeu os planos de saúde oferecidos por suas empresas (contra 13% da população toda).

Novas gerações

O contexto é importante aqui. Ao longo dos anos 1990, a comunidade negra americana conseguiu ganhos econômicos realmente significativos. No final do século, a renda média do cidadão negro era alta, e a pobreza entre afro-americanos chegou a níveis historicamente baixos. Todos esses ganhos, no entanto, têm sido revertidos; o processo se iniciou nos anos do governo Bush, antes da crise, e só se acelerou tanto durante a recessão.

O trágico é que a profundidade esmagadora do caos econômico imposto às famílias afro-americanas desde a crise irá provavelmente reverberar no interior dessa comunidade ao longo das próximas gerações.


Tradução Henrique Mendes

Texto originalmente publicado no site AlterNet

Fonte: Revista Samuel

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