A síndrome do príncipe encantado

Sempre falamos sobre como nós, mulheres, somos criadas para sermos princesinhas: delicadas, subservientes, doces e principalmente, desamparadas. Sim, desamparadas e necessitadas de cuidado. Preste bem atenção nos contos de fada: toda princesa corre perigo. E o papel de herói, do grande salvador, daquele que muda e transforma a vida da princesa? Sim, ele. O príncipe encantado. Interessante que o príncipe encantado só aparece no final para salvar, e pouco sabemos sobre quem ele é. Mas é claro, ele é o grande amor da princesa, então, só pode ser bom, certo?

Por Valeska Pereira Do Portal Fórum

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Somos vistas como o “sexo frágil” e somos educadas para pensar assim. O tempo todo restringem nossas ações com desculpas de que “isso não é coisa de menina”. Incutem em nós que precisamos de um braço forte, alguém que vá nos cuidar e nos defender das mazelas desse mundo cruel. Precisamos de um homem que seja forte, mas gentil, um verdadeiro príncipe (como se os príncipes que vemos por aí fossem algo assim). E muitas mulheres acreditam fielmente nesse “conto de fadas”.

Mas existem muitos homens que acreditam ser os salvadores das pobres donzelas indefesas.

São os caras acometidos da “síndrome do príncipe encantado”. Os “bons moços”, o cara legal que quer ser seu amigo, que enxuga suas lágrimas que algum outro cara malvado provocou. Sempre essa dicotomia: eu, desprezado, legal; o cara que você dá atenção, não presta. E a expectativa do “príncipe encantado” é de que um dia você acorde (com um beijo dele, claro) e perceba que ele é o homem dos seus sonhos. Ele salva você dessa vida miserável de sofrer pelos canalhas. Ele te resgata. É seu príncipe num cavalo branco.

O enredo é conhecido: cara conhece a garota, se aproxima, se faz de amigo, faz tudo que a garota quer, as vezes faz coisas que ela sequer pediu. Tenta a todo custo antecipar as necessidades dela, como um bom provedor faz. Como um príncipe encantado faria. Ele acha que sabe tudo sobre você e por vezes, acha que sabe mais do que você sobre você mesma. Ainda bem que ele está ao seu lado para ajudar você em sua vida, né? O que seria de você sem ele? Provavelmente ficaria perdida, coitada.

Enfim, as vezes, o cara legal que é seu amigo, é um cara legal que vira seu namorado. E convenhamos, isso pode ser uma boa. Namorar alguém com que você tem intimidade, que te conhece, que já viu seu lado bom e ruim, pode facilitar a relação.

Mas os que sofrem dessa síndrome, quando contrariados, sofrem uma mutação. O príncipe encantado se frustra e vira um monstro. Infelizmente, poucas vezes percebemos os sinais que evidenciam a síndrome, só quando a mutação acontece. Percebemos a mudança na pessoa pela agressividade, agora demonstrada, através de frases como essa: “como assim você me despreza? Eu sou tão legal, tão sensacional, tão seu amigo, você merece mesmo sofrer por esses fdps que não te dão valor, sua vadia“.

O problema deles é acreditar que toda mulher deveria se sentir honrada pelo seu interesse e por ele resolver resgatá-la da dor. Se você não se sente assim, é porque é uma vadia cruel e sem coração que coloca os caras legais na friendzonee vai morrer seca no Tinder esperando alguém legal como ele. (E alguns ainda fazem questão de espalhar aos quatro ventos como você é horrível e assim garantir que nenhum outro “bom moço” se interesse por você).

A friendzone, esse local mítico para onde somente os caras legais são mandados, é o terror do príncipe encantado. Mas amigos, sinto lhes dizer: a friendzone existe sim, mas ela é democrática. Você já a visitou e provavelmente já mandou várias “amigas” suas pra lá. Isso enquanto estava ocupado tentando conquistar alguém que nunca te deu bola ou pensou em você sexualmente.

Ele vive mandando “amigas” pra friendzone. As meninas que, assim como ele, ficam ao redor na expectativa de que um dia ele perceba que ela é sua princesa. “Mas ela é só minhas amiga, não faz meu tipo” (jamais use essa frase com um “príncipe”, ele vai dizer que seu tipo é o tipo canalha que não presta e que você só olha para as aparências). Geralmente não fazem porque não se encaixam dentro dos padrões de princesa que ele possui. No caso dele, é direito de escolha, poxa.

O príncipe encantado se revolta pelo fato de que você tem direito de escolha e USOU esse direito, escolhendo outra coisa que não ele – sendo que ele pode escolher, não é? Onde já se viu mulher escolher com quem vai ficar? Somos todas programadas para escolher errado, gente! Só gostamos dos canalhas! Ainda bem que existem esses seres iluminados e altruístas que nos libertam disso.

Não.

O lance não é que mulheres só gostam de quem não presta. Simplesmente temos essa mania de achar que quem não gosta de nós, só pode não valer nada. Mas se liga: eu hoje sou a pessoa cruel que partiu seu coração, e amanhã você será o cara canalha que partiu o coração de outra pessoa. É a vida. Xingamos, brigamos e choramos e daqui a pouco superamos e encontramos alguém e tudo muda. Se você se acha na friendzone o tempo todo, com todas as mulheres por quem se interessou, já pensou em avaliar o que você faz para se colocar sempre lá? Boa parte das vezes que uma mulher quer ser sua amiga, é isso mesmo que ela quer. Pode acontecer dela se apaixonar? Pode. Já me aconteceu. Pode acontecer de não se apaixonar? Pode também.

“Ah, mas eu fazia tudo por ela e ela nunca me deu valor”. Amigo, se você está se esforçando ao máximo para agradar alguém que pouco faz de volta, talvez você precise estabelecer limites para si mesmo. Agora, usar o pretexto de “ser amigo” quando na verdade seu interesse e outro, e no mínimo, leviano. Talvez você não seja esse cara tão legal assim, no final das contas.

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