AFRO DENGOS – Na masculinidade

Artigo produzido por Redação de Geledés

“Nos ensinaram que o amor e o cuidado não são para nós homens pretos, mas nós temos direito a amar e temos o dever de cuidar uns dos outros; de nós, de nossos amigos, de nossas famílias e principalmente das nossas crianças”. Professor/Antropólogo: Vinicius Rodrigues.

Existe muita falta de informação quando perguntamos para todos sobre masculinidade e a validação dela para a sociedade; ouvimos desses homens que: o homem é o provedor; o homem tem que ser forte todo o tempo; o homem não chora; o homem não demonstra suas fraquezas e frustrações; o homem não tem uma troca de carinho, afetos e dengos com outros homens ou familiares; homem não lava a louça, homem não cozinha, homens não acessam seus sentimentos. A discussão se refere ao gênero masculino sem distinção de raça e etnia, mas ela se agrava consideravelmente quando trazemos a atenção desse assunto para o contexto do homem preto, que é e sempre foi estereotipado como esse homem bruto; super dotado; insensível; desprovido de sentimentos e até mesmo o violento. Isso nos mostra que a pauta sobre a masculinidade preta vai muito mais além de uma personificação de homem ideal, como nos dá a oportunidade de visualizarmos as demais camadas e muros que facilitam a negligência masculina quando o assunto é cultivar atitudes saudáveis nos relacionamentos e até mesmo sobre: saúde mental; saúde pública; educação sexual e convivência.

“Eu sonhava em ser um piloto de avião, pela forma como o céu trazia o sentimento de liberdade! Liberdade, tranquilidade, leveza… Conceitos que são tirados dos garotos, impondo um posicionamento masculino machista e patriarcal que seguirá pelo resto de suas vidas. Que priva, corta as asas, entristece e adoece já nos primeiros anos de vida” – Guilherme Tobias, 31, preto, fotógrafo paulistano, que topou contar um pouco da sua época de criança ao grupo AFRO DENGOS.

É esse o motivo de darmos forças aos debates em face da masculinidade, tal como somar com o desmonte de seus estereótipos sociais atuais considerados negativos, sendo este um assunto importante de ser disseminado e ressignificado, pensando em gerações futuras e o resgate de um conceito saudável, regido por afetos e dengos, afinal, quantos meninos mais como o Guilherme perderão suas infâncias por conta de uma estrutura de gênero já defasada?

Quantos homens pretos vamos perder mais?

É dentro desse cenário, estrutura e códigos entre os homens, que erradicar o que a sociedade já normalizou, como frases do tipo: “deixa de viadagem”; “nunca ouvi um eu te amo do meu pai, mas ele fazia um lanche toda tarde para mim”; “é a forma de amar dele”; “homens são assim mesmo”; “meninos usam azul, meninas usam rosa”; “isso é coisa de mulher”; “você é homem ou um saco de batata”, dentre muitas outras frases, que trazem uma estrutura machista na construção da masculinidade de todo homem, ao percorrer de sua vida. Desconstruir-se do que foi imposto ao homem torna-se um processo cada vez mais frequente e presente nas novas gerações. Por isso, conversamos com: Guilherme Tobias; Thiago Soares, conhecido por Tago Elewa Dahoma; Kaique Cardoso; Noemi Machado e Vinícius Rodrigues, que explicam e compartilham suas experiências e vivências com o tema, enquanto homens negros.

Mestrando em Saúde Pública na USP e escritor, Tago, 37, é um homem que fomenta e espalha a ideia e discussão sobre o tema masculinidade, para que outros homens tenham e se sintam no direito de acessarem seus sentimentos. Para Tago, falta um olhar específico para as questões masculinas, principalmente sobre as masculinidades negras: “São os outros homens, é o grupo que assegura esse valor do masculino, esse valor da virilidade”, diz. Tago pontua que o medo é um falar sobre medos é um fator inibidor: “Os homens têm medo de demonstrar fraqueza, porque eles têm medo de que essa fraqueza seja usada contra eles. Não vão contar fraquezas, não vão contar traumas”, diz. Para ele, reconhecer as fragilidades e sentimentos é importante para que o indivíduo esteja em segurança. Atualmente, o foco de Tago está direcionado à saúde dos homens.

O desenhista Kaique Cardoso, 23 anos, é dono de um portfólio de animações e projetos, considerados efeminados, voltados para o poder da mulher no universo da arte e do desenho. O artista traz uma questão pouco discutida quando falamos de masculinidades e seus estereótipos, como suas consequências: a pornografia, ou melhor, “Como a falta de educação sexual e o acesso livre a pornografia potencializam ainda mais o machismo entre os homens”. “A SAÚDE MENTAL É A EVOLUÇÃO, A FALTA DELA, A DESTRUIÇÃO” – ILUSTRAÇÃO POR: KAIQUE CARDOSO

Para Kaique, esses “são pilares que refletem os homens tóxicos de hoje”, e que muitas vezes “reforçam o uso das mulheres para satisfação pessoal, baseada em violência e degradação do corpo feminino”

Na visão de Kaique, esse uso pode refletir nas situações de violência que ocorrem nas relações de afeto dos homens. Essa linha de pensamento pode traçar um paralelo com dados da pesquisa Pense, através do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizada em 2022, onde 1 a cada 7 adolescentes já tiveram alguma experiência com violência sexual, considerando que, na ausência de conversas sinceras sobre o tema, a visualização dos vídeos sem um parâmetro de comparação real e sem uma visão crítica pode fazer com que eles entendam que suas ações sexuais devam replicar o que foi visto.

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