Até quando as mães serão culpadas pelo abandono paterno?

Afirmar que mulher "escolhe errado" pai dos filhos é a forma mais opressora de justificar as falhas dos homens

Uma postagem nas redes sociais que viralizou há algumas semanas chamou minha atenção para algo que conhecemos: o machismo que mulheres praticam contra outras mulheres, em uma competição para chegar em lugar que ainda não entendi qual é, já que, na atual conjuntura da sociedade, todas sofremos.

O texto dizia que casamento só era ruim se a pessoa “casou errado”. Quem “escolhe certo”, teria uma vida de conto de fadas. A postagem vinha de uma mulher e, nas redes, foi compartilhada por muitas outras mulheres, especialmente mães.

Dizer que a mulher escolhe errado o marido —que, em muitos casos, torna-se o pai de seus filhos— é jogar sobre ela a culpa pelas falhas masculinas, especialmente no que diz respeito ao abandono paterno, seja ele dentro ou fora de casa.

Dados do Portal da Transparência do Registro Civil fornecidos pela Arpen-Brasil (Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais) mostram que, apenas neste ano, mais de 98.173 crianças das 1,4 milhão que nasceram nos seis primeiros meses do ano não têm o nome do pai na certidão de nascimento.

Além disso, há ainda um outro grupo, que não está contabilizado em estatísticas, de pais que, mesmo registrando seu nome na certidão do nascimento do filho, não são presentes. Há também os que moram com a família, mas são pais desconectados da realidade de criação de um ser humano.

Ou seja, o abandono paterno tem várias nuances, e espanta-me resumirmos tudo à “escolha errada” feita pela mulher ao relacionar-se com um parceiro. Essa dor da culpa dilacera um sem-número de mães, especialmente em datas como o Dia dos Pais.

As mulheres se sentem culpadas por homens que não fazem seu papel de pai, que não visitam, não pagam pensão, não participam e, nos casos extremos —e até comuns—, desaparecem.

Todos conhecemos a importância de se ter um pai presente. De quanto é gostoso confiar e ter alguém para ser exemplo, além da mãe. Por isso não precisamos falar disso. Está mais do que na hora de começarmos a debater uma forma de deixar para trás esse tipo de celebração.

Façamos um Dia da Família. Assim, podemos almoçar juntos, trocar presentes sem que ninguém saia triste, magoado, sentindo-se abandonado. Sou contra Dia dos Pais e Dia das Mães. Festejos que só reforçam algumas dores, especialmente de quem perdeu alguém amado.

Celebremos sim, os pais presentes, amorosos, compreensivos e que não furtam de exercer a paternidade plena, como ela deve ser. Mas jamais nos esqueçamos de ter empatia e segurar a mão daqueles que sofrem. “Mãe, você não tem culpa do comportamento do pai dos seus filhos.” Repita essa frase, hoje e sempre.

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