domingo, novembro 27, 2022
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Atriz de ‘Pose’ que aprendeu a programar sozinha vem ao Brasil divulgar startup de TI que criou para ajudar pessoas trans como ela

Angelica Ross veio falar sobre a Trans Tech Social e cantar na Marcha Trans, em São Paulo.

Quem viu Angelica Ross brilhando na série “Pose” como a atrevida Candy talvez se surpreenda ao saber que o primeiro sucesso na vida da atriz foi como programadora.

Com 20 anos, “estava cansada de ser mandada embora dos empregos quando as pessoas percebiam que eu era trans”, contou a atriz ao g1 na chegada ao Brasil para eventos do mês do orgulho LGBTQIAP+.

Parecia que o único caminho para se manter seria a prostituição ou o entretenimento adulto, saída comum para muitas mulheres trans e travestis em todo o mundo diante da rejeição da família, na escola e do mercado de trabalho.

Angelica Ross, como Candy (à esq), na série “Pose” (Foto: Divulgação)

Angelica chegou a trabalhar para um site adulto, mas foi percebida de forma diferente pela dona, que acabou decidindo pagar para que ela garantisse não o faturamento, mas o bom funcionamento da página.

“Ela me achou esperta”, conta Angelica. “Aprendi sozinha a programar em HTML e CSS. Comecei com o básico e fui indo passo a passo, vendo tutoriais. E me tornei webmaster.”

Angelica passou a trabalhar na área como freelancer enquanto também perseguia a carreira de atriz.

“Em tecnologia, não importava qual era minha aparência ou como era a minha voz”, completa. “Então, percebi que era um plano que eu podia dividir com outras garotas.”

A promessa foi cumprida de forma mais ampla alguns anos depois. Em 2014, Angelica criou a startup Trans Tech Social, com a intenção de oferecer treinamento na área para pessoas trans e com não-conformidade de gênero.

Não foi fácil. “Pose”, que proporcionou a ascensão em sua carreira artística, só estreou quatro anos depois, em 2018. “Não sou Caitlyn Jenner. Eu não nasci rica”, diz Angelica.

Angelica Ross, atriz da série ‘Pose’, dá palestra em São Paulo sobre sua startup Trans Tech Social (Foto: Daniela Villar)

“Quando criei a Trans Tech, eu não tinha dinheiro. Mas eu tenho um privilégio que chamam de passabilidade [ela usa a expressão inglesa “cis-assumed”, que significa que sua aparência faz com que pessoas a vejam como uma mulher cisgênera por causa de estereótipos estéticos]. As pessoas não acham que sou trans”, explica.

“Então, dependendo da forma como eu me apresentava, as pessoas pensavam: ‘Ah, ela tá bem, não precisa de nada’. Quando eu tentava levantar dinheiro [para o projeto] ninguém queria que o dinheiro fosse também para me pagar um salário.”

“Até hoje eu não tenho nenhuma remuneração por comandar a Trans Tech; todo o dinheiro [obtido pelo projeto] vai para lá”, afirma a atriz de 41 anos. “Eu sempre tive que trabalhar também fora dali para mostrar para a minha comunidade que eu não quero tirar nada deles.”

A startup, com sede nos Estados Unidos, se prepara para se tornar global. Atualmente, tem apoio de Google.org, Fundação Linux e da comunidade LesbiansWhoTech, entre outros, mas também recebe doações em dinheiro.

O foco não é só ensinar programação, mas todo tipo de tecnologia que possa ajudar uma pessoa trans a dar um passo além: desde a montagem do currículo a administração de redes sociais, declaração de impostos, etc.

“Quando falo em tecnologia, não é só programação. Se a pessoa faz maquiagem e aprende a usar uma ring light, uma câmera, a fazer vídeos para as redes sociais, pode ter mais seguidores e chegar a ser uma referência no assunto, abrir um canal no YouTube e monetizar os vídeos”, exemplifica a atriz.

Uma parceria com a plataforma de empregos Upwork permite encontrar vagas como freelancer ou mesmo em empresas que busquem o perfil. Também há um trabalho de mentoria.

E Angelica não tem problemas em dizer que a tecnologia pode até ajudar quem ainda esteja recorrendo ao sexo para sobreviver.

“Talvez a gente não esteja anunciando ‘Olha, estamos fazendo coisas para sites de sexo’. Mas, se eu posso ensinar uma garota a ter seu próprio site, ela pode até continuar a trabalhar com sexo, mas [fazendo isso online] ela estará segura e ninguém vai tocá-la.”

Para o pesquisador e artista social Pri Bertucci, que está à frente da Feira Trans, em São Paulo, da qual Angelica participou no último dia 10, já existe uma evolução na entrada de pessoas trans no mercado de trabalho.

Angelica Ross ao lado de Pri Bertucci em palestra na Feira Trans, no último dia 10, em São Paulo (Foto: Daniela Villar)

“Segundo a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), recentemente a gente estava com 94% de pessoas trans fora do mercado de trabalho formal. Há 3, 4 anos atrás eram 99%, então quer dizer que algo está acontecendo”, afirma. “Estão começando a contratar, né? O nosso trabalho de décadas está tendo resultado. A gente tem aqui, por exemplo, uma pessoa que participou de um evento nosso em 2018 e foi contratada por uma grande multinacional. Saiu de estagiária e foi efetivada. É muito lindo ver isso.”

Uma semana depois de fazer a concorrida palestra na Feira Trans, Angelica Ross participou na última sexta-feira (17) da Marcha Trans, no Centro da capital paulista, também organizada por Bertucci. Ali encontrou expoentes da comunidade no Brasil, como a vereadora de São Paulo Erika Hilton, e ofereceu mais um talento: o de cantora.

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