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Coletivos negros da Ufes se unem em defesa da universidade pública

Vários grupos participam da campanha Afronta, que aponta como cortes afetam especialmente alunos negros

Por Vitor Taveira. Do Século Diário

(Foto: Reprodução/ Facebook)

Com uma carta conjunta de seis entidades universitárias e juvenis do movimento negro, foi lançada a “Campanha #Afronta, É Guerra!”, em defesa da luta pela universidade pública e de qualidade. São elas o Coletivo Ama da Psicologia, Coletivo Negro das Artes, Coletivo Negrada, Negras e Negros das Ciências Sociais e Coletivo Winnie Mandela do Serviço Social, todos surgidos na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), além do Fórum Estadual de Juventude Negra (Fejunes). Esses grupos incluem estudantes, servidores e professores da universidade.

“Nos apresentamos para lutar contra os cortes na Educação perpetrados pelo atual governo, mas também estamos aqui para lutar por um novo modelo de universidade pública, que garanta a dignidade para nossos corpos negros e periféricos. Não defendemos uma universidade que nunca nos quis aqui, mais do que isso, defendemos em meio ao caos e aos destroços, uma outra universidade. Não há, portanto, nenhum projeto fajuto de ‘Futuro’ que se ponha em nosso caminho. Estamos aqui, para construir o nosso futuro negro”, diz a carta.

O grupo de entidades escolheu como lema “É Guerra” para evidenciar a violência que se revela nas estatísticas e consideram mortes e encarceramento sobretudo da população negra, que se perpetuam historicamente no Brasil. Na universidade pública, que passou por um processo de democratização nos últimos anos a partir de ações afirmativas, os cortes do governo federal têm afetado fortemente seu funcionamento e ameaçado a manutenção dos estudantes de baixa renda, em sua maioria negros.

O grupo já se manifestou contra o cancelamento do Programa Integrado de Bolsas (PIB) da Ufes, anunciado de forma abrupta pela Administração Central por conta da falta de recursos. “Ao todo mais de mil estudantes foram diretamente atingidos com essa deliberação. Mas precisamos enfatizar que essa ação afeta de diferentes modos os diferentes corpos que habitam o espaço acadêmico”, posicionou o grupo em outra carta, lembrando que o processo seletivo de algumas bolsas contava com cotas socioeconômicas para inclusão de estudantes de baixa renda.

Das 480 bolsas de Projetos Especiais de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão, por exemplo, 305 eram de alunos atendidos pela assistência estudantil, o que agrava as condições de permanência desses estudantes na universidade, ameaçando a continuidade de seus cursos de graduação por conta da falta de recursos financeiros. Nas bolsas de iniciação científica (Pibic), que contribuem para a formação de pesquisadores e fomento da produção científica, os cortes além de afetarem os estudantes que perderam sua fonte de renda e de formação em investigação, paralisa ou precariza projetos e pesquisas que trabalham diretamente com comunidades negras e indígenas.

Leia a carta de apresentação do Afronta na íntegra

“Somos a Campanha #AFRONTA É GUERRA, somos a comunidade negra universitária organizada – Estudantes, servidores (técnicos administrativos em educação e docentes), terceirizados, prestadores de serviços e público dos projetos de extensão – temos lutado por uma universidade pública de qualidade feita por e para nosso povo.

Mas antes disso, somos filhos e filhas de ancestrais corajosos que resistiram ao massacre escravocrata e as violências dos governos ditos democráticos. Existimos e re-existimos em cada corpo negro que se afirma nesse espaço educacional de supremacia branca.

Somos AFROnta, pois partimos de um viés racializado negro para sonhar, propor e reivindicar novos futuros. Somos aFRONTa porque nos recusamos a sair da linha de frente para proteger os nossos nesse tempo presente, em que há uma guerra declarada ao povo negro. Seguimos assim, Afrontando as estruturas racistas de um mundo que se ancora em nossa negação. Nomeamos “É Guerra” para configurar as ações do Estado como práticas genocidas, que colocam, nossos corpos como alvos diretos de seus projetos nacionais.

Nos apresentamos para lutar contra os cortes na Educação perpetrados pelo atual Governo, mas também estamos aqui para lutar por um novo modelo de universidade pública, que garanta a dignidade para nossos corpos negros e periféricos. Não defendemos uma universidade que nunca nos quis aqui, mais do que isso, defendemos em meio ao caos e aos destroços, uma OUTRA UNIVERSIDADE. Não há portanto nenhum projeto fajuto de “Futuro” que se ponha em nosso caminho. Estamos aqui, para construir O NOSSO FUTURO NEGRO!

A comunidade universitária negra e colaboradores (que compreendem a necessidade de se fazer antirracista, para que não mais vidas, sejam encerradas), está cada vez mais se achegando para a construção dessa campanha, que deve articular o que pensamos enquanto projeto de universidade, e sobretudo demandar, para além das fronteiras da Universidade que habitamos, porque nosso projeto, é contra o RACISMO.

É necessário aquilombar a universidade!”

Assinam essa Carta:
Coletivo Ama da Psicologia
Coletivo Negro das Artes
Coletivo Negrada
Fórum Estadual de Juventude Negra (FEJUNES)
Negras e Negros das Ciências Sociais
Coletivo Winnie Mandela do Serviço Social

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