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Como a Academia se vale da pobreza, da opressão e da dor para sua masturbação intelectual

Texto originalmente publicado em RaceBaitR como “How Academia Uses Poverty, Oppression, and Pain for Intellectual Masturbation”. Disponível em: http://racebaitr.com/2017/04/06/how-academia-uses-poverty-oppression/. Tradução coletiva de Bruna Paz, Helena Rosa, Marcos Queiroz, Mariana Barbosa, Roberta Borges e Uila Gabriela Cardoso.

Foto: Reprodução/Direito e Diáspora

Por Clelia O. Rodríguez Do Direito e Diáspora

Clelia O. Rodriguez é uma educadora, nascida e criada em El Salvador, América Central. É graduada pela York University em Literatura Espanhola. É mestra e doutora pela University of Toronto. Também lecionou nos programas de graduação e pós-graduação em língua, literatura e cultura hispânica na University of Toronto, no Washington College, na University of Ghana e na University of Michigan. Foi também professora visitante em Direitos Humanos nos Estados Unidos, no Nepal, na Jordânia e no Chile como parte do International Honors Program (IHP) da School of International Training (SIT). Ela lecionou Questões Comparadas nos Direitos Humanos e Ética no Trabalho de Campo e Métodos Comparativos de Pesquisa. Ela é interessada em perspectivas decoloniais para o ensino e o engajamento em métodos e pedagogias críticas para as salas de aula.

 

As políticas de decolonialidade não são o mesmo que o ato de descolonizar. A maneira como as expressões “decolonizar a mente / coração” ou simplesmente  o verbo “decolonizar” têm sido utilizados em espaços acadêmicos é preocupante. Meu avô era um decolonizador. Ele está morto agora; mas, se ele estivesse vivo, provavelmente coçaria a cabeça – em sinal de desconfiança – caso esses acadêmicos tentassem lhe explicar o conceito.

Estou preocupada sobre como o termo está começando a evocar uma pretensão de livrar-se de práticas coloniais, sob o comando daqueles entes que, em realidade, operam totalmente submetidos a essas práticas. A decolonialidade soa e significa coisas diferentes para mim, enquanto mulher de cor, do que deve significar para uma pessoa branca. E por que isso importa? Por que eu sinto um incômodo quando eu ouço este termo em espaços acadêmicos, majoritariamente brancos, onde pessoas de cor(1)permanecem como tokens(2)? Por que minha garganta se torna uma prisão de palavras que não podem ser articuladas em frases completas? É possível que seja por que nessas práticas pretensamente “decolonizantes” estamos sendo colonizados mais uma vez?

Eu não tenho o privilégio de ser tratada com a mesma humanidade com que um erudito branco ou alguém que age como tal é tratado. A atuação daqueles que nos “concedem” humanidade e que afirmam estar criando espaços para pessoas de cor, precisa ser desafiada. Eles promovem  ações afirmativas de formas risíveis. Durante os processos seletivos para vagas de emprego, somos questionados se somos imigrantes/estrangeiros/gringos ou não. Será que uma pessoa branca experimenta a sensação nauseante que vem quando uma pessoa de cor é questionada dessa maneira? Ou qualquer outra terminologia depreciativa a que sou forçada a suportar enquanto continuo na corrida para me tornar a “America’s Next Top Academic”(3)? E esses mesmos colegas brancos que não conhecem estas experiências, sorrateiramente se oferecem para fazer falas e apresentar trabalhos em conferências sobre metodologias para decolonialidade, apenas para se mostrarem aliados às pessoas de cor.

Os efeitos do networking(4) são uma das múltiplas formas de decolonização presentes neste campo das ciências humanas que se mostram, em verdade, ser uma farsa. Se eu entendo bem de história, Cristóvão Colombo foi realmente bom na criação dessas redes de contatos que chamamos networking. Ele prendeu pessoas como eu em correntes, fazendo-nos acreditar que era tudo em nome da criação de uma teia para conectar a todos nós sob o feitiço de kumbaya(5).

Espaços acadêmicos não são precisamente seguros, nem mesmo são locais onde a liberdade de expressão é realmente bem-vinda. Nem todos temos o luxo de falar livremente sem sermos penalizados e chamados de radicais, emocionais demais, raivosos ou não acadêmicos. Na verdade, o trabalho de decolonização abre mão daquelas pessoas sobre as quais se referem. Afirmar que estamos no campo dos estudos de decolonialidade não é o suficiente. Não é surpresa que mesmo aqueles que estão engajados em decolonizar os métodos, reproduzam e sofisticam os métodos eurocêntricos, porque estamos envolvidos no colonialismo neste ambiente disseminado por corporações.

“Eu gostaria de saber o que esses jovens estão fazendo aqui – Ou seja, por que você viajou até a nossa terra de Mapuche? Para quê veio? Para nos questionar? Para nos transformar em objetos de estudo? Eu quero que você volte para casa e que responda a essas preocupações que eu tenho carregado em meu coração por muito tempo.”

Essa foi a resposta da líder de Mapuche, Ñana Raquel, para o grupo de estudantes de Direitos Humanos dos Estados Unidos que visitavam Curarrehue, região Araucanía, no Chile, em abril de 2015. Sua raiva me motivou a refletir em como repensar, questionar e reler perspectivas de como estou experienciando as ciências humanas e como estou politizando meus fazeres em meu sistema rizomático(6).  Fazemos isso quando nos envolvemos em pesquisas? As perguntas de Ñana Raquel, a raiva justa e sua reação me forçaram a reconsiderar múltiplas perspectivas sobre o que realmente define um território, algo que meu avô me ensinou cuidadosamente quando aprendi a ler coisas do cotidiano.

Como pensadores politizados, devemos refletir sobre essas experiências se estivermos realmente envolvidos em discussões profundas sobre solidariedade, resistência e territórios nas ciências humanas. Como nós, enquanto acadêmicos, estamos nos empenhando no trabalho de alcançar os cânones e, ao fazê-lo, podemos realmente admitir o que nos levou até lá? Muitos de nós, operando em espaços acadêmicos homogêneos (com alguns toques de tendência liberal), conformam-se quando essa pergunta é feita sem rodeios.

Como alguém que foi observada e estudada sob os microscópios dos gringos em 1980, quando pedagogos vieram nos perguntar como a vida era em uma zona de guerra em El Salvador, as questões de Raquel ecoaram especialmente em mim. Nós duas saímos de nossas terras e conseguimos adentrar os cânones norte-americanos que serviam a determinadas agendas de pesquisas. Neste sentido, nós compartilhamos experiências similares de sermos “lidas” de acordo com certo critério histórico.

A voz de Raquel era apaixonada. Naquele dia, nós tínhamos congregado na Ruka de Riholi. Diante do centro e em um círculo, nós prestávamos atenção no silêncio dos idosos. Raquel nos ensinou uma lição impagável. Após questionar os processos utilizados para realizar projetos de pesquisa no Nepal e na Jordânia, a demanda emocional e verdadeira de Raquel resultou no golpe final: ela nos mostrou que enquanto nós podemos ter a face externa da consciência política, continuamos a usar uma disciplina acadêmica para estudar comportamentos “exóticos” e, ao fazê-lo, estamos, na verdade, diminuindo, humilhando e negando lições do que realmente constitui um intercâmbio cultural na perspectiva deles?

A partir destas interações neste campo emergem questões que vão ao cerne do problema: Como lidamos com questões de compromisso social nas ciências humanas?Desaprendendo? Em vários casos, círculos acadêmicos remetem mais a circos que do que a centros de ensino superior, em que uma cultura de competição, baseada em pressões externas, motivam o relacionamento entre o professor e o aluno.

Uma das consequências trágicas de um sistema tradicional de educação superior acontece, por exemplo, com aqueles que dizem ter expertise no tópico de ativismo social, mas que nunca tiveram experiência com qualquer forma de intervenção. Eu me refiro, aqui, àqueles acadêmicos que construíram carreiras baseadas no sofrimento de outros, ao consumir o conhecimento obtido em comunidades marginalizadas. Esta mesma prática de “falar sobre o qual você sabe pouco (ou nada)” é transmitida, sendo reconhecida ou não, aos estudantes que nós, enquanto professores e mentores, estamos preparando para realizar estudos sobre decolonialidade.

Linda Smith fala sobre o desdém que ela tem pela palavra research (pesquisa), a qual ela vê como uma das palavras mais “sujas” da língua inglesa. Eu não poderia concordar mais. Quando sentamos cada semestre para escrever um guia para “desaprender”, ou melhor, um programa de estudos, nós devemos refletir sobre como podemos incluir conteúdo que irá ajudar a transmitir uma disciplina pré-definida das ciências humanas com realidades sociais atuais. Como podemos criar um espaço no qual um estudante pode se expressar livremente sem ter medo de receber uma má avaliação?

Hoje, tudo ou qualquer coisa é permitido se houver o selo de aprovação pós-colonial ou decolonial, mesmo se o assunto for desprovido de qualquer urgência política. Essas tendências parecem, na melhor das hipóteses, serem apenas decorativas, e por isso devemos desafiar as bases dessas tentativas. Não adianta continuarmos criticando o sistema neoliberal se ao mesmo tempo mantemos visões superficiais de solidariedade sem nos aprofundarmos para um melhor entendimento.  Essas são atitudes em que damos tapas em nossas próprias costas, mas no final só estamos abrindo espaços para os futuros consumidores de prestigio ou insufladores de ego acadêmico.

Os corredores da instituição em que eu atualmente trabalho estão cheios dessa falsa solidariedade em posters/cartazes sobre conferências, colóquios e viagens sobre o hemisfério sul que custam o olho da cara. Desde que você tenha dinheiro para pagar a sua tarifa aérea, hotel, refeições e transporte, você pode adicionar também duas linhas em seu curriculum vitae e falar sobre o novo movimento social e suas estratégias radicais para desmantelar o sistema. Você também pode participar dos diálogos academicistas sobre pobreza e direitos trabalhistas ao mesmo tempo em que você passa por uma faxineira trabalhando em condições ilegais e desumanas que irá arrumar a sua cama enquanto você vai para uma importante conferência falar sobre as dificuldades que ela passa.

Nós devemos fazer um trabalho melhor quando se trata dos resultados que obtemos sobre pobreza, horror, opressões – que seriam as partes essenciais para se chegar ao orgasmo – por meio da “masturbação intelectual”.  O que nos levaria ao êxtase e liberaria formas de discussão, propondo questões, escrevendo propostas, etc. E então nós mudaríamos para outras formas de entretenimento. O neoliberalismo fez com que tudo virasse um produto ou uma experiência.  Nós devemos examinar com cuidado a lógica de poder que está por trás dos nossos projetos e trabalhos de pesquisa. Nós devemos escutar o silêncio, o que não está escrito, e prestar atenção nas dinâmicas internas das comunidades e como nós classificamos as suas experiências, se estivermos mesmo comprometidos com o trabalho epistemológico da decolonialidade.

NOTAS

(1) POC = people of color = pessoas de cor – pessoas negras, latinas, indígenas ou miscigenadas de forma geral

(2) Dispositivo eletrônico gerador de senhas. Utilizado como chave de segurança para acesso a sistemas processuais eletrônicos desenvolvidos pelo judiciário. Nesse caso, tokenizar seria o ato de se utilizar da presença, da proximidade ou de uma relação com uma pessoa negra para se eximir de cometer racismo. Também ocorre quando uma pessoa negra, num espaço ocupado pela branquitude, é usada para legitimar atos racistas naquele espaço ou grupo. Como se a presença de um pessoa negra num determinado espaço ou numa relação eximisse o emissor de ser racista.

(3) Referência ao reality show estadunidense “America’s Next Top Model”, no qual busca-se a consagração da melhor supermodelo do país a cada temporada. Numa tradução literal, seria o Próximo ‘Top-Acadêmico’ Americano.

(4) Networking é o ato de criar uma rede de conexões acadêmicas e/ou profissionais, com o intuito de fortalecer o debate sobre determinado tema. Tradução literal: networking = rede.

(5) Kumbaya é uma palavra de um dialeto negro utilizado para comunicação entre os escravizados no período da escravatura estadunidense. Representa um chamado de Deus, um pedido de ajuda. Originalmente presente num spiritual – espécie de mantra musical – cantado pelos escravizados em momentos de desespero.

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