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A cultura e a renda na narrativa do negro brasileiro
Créditos da foto: Pixabay/enviado para o Portal Geledés

A cultura e a renda na narrativa do negro brasileiro

Faz algum tempo que temos observado uma tendência de enfrentamento do racismo no Brasil, a qual chamaremos de estratégia cultural de enfrentamento do racismo. Podemos definir a estratégia cultural de enfrentamento do racismo no Brasil como o movimento de resistência cultural à lógica racista de desprezo e obstaculização do reconhecimento do negro na sociedade brasileira.

Por Lúcio Antônio Machado Almeida enviado para o Portal Geledés

Foto: Pixabay/enviado para o Portal Geledés

Exemplos dessa estratégia são as formas de conscientização, em especial, no dia 20 de novembro, onde os congressos, conferências e palestras tratam, em sua grande maioria, da valorização cultural do negro.

Ainda que, na maioria das vezes, tragam um aumento da consciência da situação periclitante pela qual passa a população negra no Brasil, como, por exemplo, a violência policial pela qual são destinatários e da ausência de oportunidades, o que verificamos é a insistente e persistente ausência da abordagem do problema econômico do negro em suas diversas facetas.

Uma avaliação mais sincera, poderíamos dizer que, temas como educação financeira, inciativa privada, organização de negócios, disputa pela renda no mercado empresarial passam incólumes por quase todas as discussões, salvo raras exceções como, por exemplo, o debate acerca do “afroempreendedorismo”.

Há, francamente, um desprezo por temas relacionados com a renda do negro. Embora a discussão sobre as cotas raciais tenha avivado o tema do negro no mercado de trabalho, observamos que essa discussão não ultrapassa a noção de emprego formal, muitas vezes pautada no acesso aos cargos públicos.

Em nosso entendimento, teríamos que reforçar a ênfase no problema da renda na vida dos negros, respondendo as seguintes perguntas: por que em bairros majoritariamente negros ou de expressiva população negra, a iniciativa privada (farmácias, armazéns, lojas) não está em mãos de proprietários negros?

Por que mesmo a expressão cultural não se traduz em renda para os negros e, tristemente (apropriação cultural), traduz-se em renda dos não negros? Respondendo com honestidade estas perguntas, podemos afirmar categoricamente que o problema do negro no Brasil foi a inclusão cultural não ter se traduzido em inclusão de renda, muito em razão do racismo, mas, também, por uma equivocada estratégia dos atores sociais negros em abordar o problema da renda na vida dos negros.

Por fim, cabe perguntar: inclusão cultural dos negros sem a devida inclusão de renda é uma nova ou velha forma de alienação?

Autor: Lúcio Antônio Machado Almeida/Doutor em Direito pela UFRGS/ Professor Universitário/Advogado/Diretor da Escola do Legislativo de Porto Alegre/Escritor.

** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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