Desafios da militância: participação e protagonismo

Nos espaços de diálogo e militância que participo a discussão sobre a participação e o protagonismo de pessoas privilegiadas é permanente.

Texto de Jussara Oliveira.

Não pretendo nesse texto questionar a existência de espaços mistos (dentro da militância ou fora), principalmente porque esses pontos de encontro já estão por toda parte. E alguma hora vamos ter de conviver em conjunto. Acho importante lembrar que certas pessoas podem sofrer conjuntos de opressões, ou até mesmo fazer parte de um grupo opressor e de opressão ao mesmo tempo, então, imagine quantos mini-grupos intersecionais podemos criar, e o quão pequenos e mais fracos seriam se esses grupos não dialogassem.

Também não questiono — e não acho que deva ser questionada — a necessidade de se criar espaços exclusivos. Porque, no meu entendimento, esses espaços exclusivos podem contribuir muito para o empoderamento de minorias que vivem constantemente sendo silenciadas por outros grupos. É preciso construir espaços mais abertos para o desenvolvimento pessoal e a militância e, muitas pessoas que fazem partes de grupos minoritários precisam de espaço e liberdade para desenvolver o próprio discurso sem sentir medo de expor suas experiências, idéias ou dúvidas.

“Existe muita força nos espaços exclusivos, eles ajudam uma vez que criam a oportunidade da troca de experiências e consequente fortalecimento. Se você está em um ambiente em que se sente segura, é mais fácil se expressar e com isso se desenvolver.”  Referência: Que as meninas conheçam o poder que tem dentro delas. Entrevista com Geisa e Flavia, organizadoras do Girls Rock Camp por Lola Aronovich

Agora, quando participamos de certos espaços mistos creio que é importante se atentar a alguns pontos para não desrespeitar ou deslegitimar as outras pessoas que fazem parte do movimento.

Em alguns momentos pode ser tênue a diferença entre escrever ou falar SOBRE um grupo e escrever ou falar POR um grupo. É muito importante observar essa distinção. É preciso sempre refletir sobre isso de forma bastante crítica e com muito diálogo. Devemos buscar por exemplos e exercícios que respeitem e estimulem o protagonismo das pessoas que sejam o foco da luta desse grupo misto, seja na organização dos espaços ou nas falas. Esse é um processo contínuo e vai ser diferente para cada espaço, pois deve ser pensado de acordo com suas próprias dinâmicas.

Não adianta também acreditar que apenas uma ou poucas pessoas, num ambiente majoritariamente privilegiado, vão poder falar por todo um grupo. Porque, além de ser um trabalho desgastante, por si só não garante nada. É importante participar de espaços de diálogos dos outros (quando houver essa abertura), criar ambientes mais acolhedores e diversos, ao invés de ficar achando que as pessoas não participam porque não querem. Outra questão que merece atenção especial são as formas de lidar com situações de abuso, violência e silenciamento nesses espaços. É preciso ter uma preocupação em ouvir as minorias porque é nesse momento que estamos mais vulneráveis. Não adianta querer achar que espaços de militância são naturalmente seguros porque não são. E é preciso ter muita paciência e sensibilidade para lidar com conflitos entre duas pessoas desprivilegiadas de forma diferente.

Obviamente, as ações a serem tomadas vão depender da dinâmica, dos recursos e das possibilidades de cada grupo. Mas podemos pensar que numa marcha nas ruas, por exemplo, alguns cuidados a serem tomados incluem observar quem está na frente do movimento, quem fala no microfone ou megafone, quem é o sujeito que aparece como tema, de que maneira há representatividade nos cartazes e como se faz a comunicação com a imprensa. Numa roda de conversa a preocupação deve ser com os temas e com quem tem a palavra. Nas mídias (informais ou não) o desafio está em como apresentar experiências dos outros quando não são as nossas, sem nos colocarmos como porta-vozes, mas também refletir sobre a nossa experiência frente a essas diferenças. Um caminho é pesquisar muito, mas melhor que isso é, sempre que possível, dar o espaço para as pessoas que sofrem aquelas opressões falarem por si.

Claro que não podemos nos restringir apenas aos nossos espaços de militância. Acredito que é importante que o feminismo e as reflexões sobre as diferentes formas de opressão ocupem mais e mais espaços. Sempre lembrando que as melhores pessoas para pautar COMO se dão essas opressões são as minorias que as sofrem, porém, sabemos o quanto o trabalho de conscientização é árduo e que a desconstrução de opressões estruturais tomam tempo e carecem de uma grande quantidade de energia, equilíbrio emocional, paciência, etc. É comum que muitas pessoas privilegiadas nesse processo de desconstrução acabam reforçando atitudes discriminatórias e ficam bastante reativas quando tem suas atitudes apontadas como preconceituosas.

É bem difícil estar na linha de frente nesse momento, principalmente quando se vive essa opressão que você está tentando demonstrar/debater sobre. Nessas horas, fico bastante agradecida se vejo alguém que já sofreu menos que eu — com certos silenciamentos e violências — contribuindo para disseminar os ideais de igualdade, apontar problemas de discurso, promover reflexões e divulgar o trabalho de ativistas que tem experiência nessas vivências de forma consciente e coerente. Se alguém faz isso em espaços onde não tenho voz e consegue causar no mínimo um desconforto nas outras pessoas ou até mesmo uma mudança na forma de observar a questão, vejo o resultado do trabalho de formiguinha que fazemos gerando frutos.

Entretanto, não acredito que quem fala em favor das minorias é automaticamente aliado ou aliada, muito menos representante de uma minoria em qualquer espaço. Ainda mais de movimentos tão plurais como o feminismo, por mais que vivamos diversas experiências em diversos espaços.

Aliás, é preciso refletir bastante sobre a separação do discurso e do debate das pessoas em si. Porque, ao debater situações que são comuns a determinados grupos podemos nos identificar nas falas dos outros ou não, dependendo do caso. Nesse sentido, entendo e respeito a posição de quem não quer ver determinadas pessoas ou grupos falando sobre suas lutas, experiências, ainda mais equivocadamente.

Podemos e devemos nos posicionar contra (e devemos ter espaço para) quando vemos injustiças. E, se o espaço realmente se propõe a lutar contra desigualdades o minimo que as pessoas privilegiadas tem de fazer é aceitar e refletir sobre as críticas, tendo o cuidado de não personalizar aquilo que não é do pessoal, apontando de forma crítica quando os problemas estão no discurso, na postura ou na simples ocupação dos espaços.

Estamos num grande momento crítico em que depois de muita luta e muito silenciamento as diversas vertentes do feminismo tem ganhado espaço nas discussões internas de coletivos, na mídia, nas mesas de bar, nas festas de família, etc. Mas com isso, vem também o oportunismo e as distorções.

Não temos controle sobre o que os outros pensam, sobre o que os outros fazem, sobre o que os outros falam. E sim, é muito cansativo debater, mas acredito que o melhor que podemos fazer é continuar pontuando, repetindo, cobrando posições, porque simplesmente tirar as pessoas privilegiadas dos espaços ou silenciá-las não vai necessariamente tornar nossa voz mais respeitada e fazê-la ser mais ouvida. Nossos espaços precisam ser construídos por nós mesmos e tenho esperança de que ainda vai chegar o dia em que não vai ser preciso construí-los para bater nas mesmas teclas sobre o quanto todos merecemos acesso aos mesmos direitos.

 

Jussara Oliveira

Nerd em tempo integral, baladeira nas horas vagas. Ativista de espirito e aventureira por hobby.

Foto de Mídia Ninja no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Fonte: Blogueiras Feministas

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