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Dia da Consciência Negra: quais são nossas tarefas na construção de uma agenda revolucionária antirracista e antissexista?

Dia da Consciência Negra: quais são nossas tarefas na construção de uma agenda revolucionária antirracista e antissexista?

Rio de Janeiro – As lutas pela radicalidade democrática e republicana no Brasil seguem diferentes estratégias de acordo com as concepções ideológicas, métodos propostos e características singulares dos sujeitos que constituem os seus diferentes movimentos e instituições. Essas proximidades e diferenças se manifestam quando nos vemos diante de mais um “Dia da Consciência Negra”: devemos nessa data celebrar as conquistas e lutas da população negra e de pessoas/organizações aliadas? Devemos enfatizar mais as violências contras as populações negras e denunciar os mecanismos estruturais que reproduzem a desigualdade brasileira – e que tem o racismo institucional como seu elemento estruturante? Ou devemos buscar valorizar/reconhecer/construir novas agendas que nos permitam avançar nos campos institucionais e na vida cotidiana coletiva de modo a melhorar a vida das pessoas pretas?

Por Jailson de Souza e Silva, do  Observatório de Favelas

Reconheço minhas dificuldades históricas com os grupos que se dedicam apenas à denúncia das ações dos grupos dominantes – que controlam o Estado, o Mercado e tantas outras instituições – em relação aos subalternizados. Penso que isso faz com reconheçamos apenas o protagonismo de suas ações e proposições, deixando de valorizar a imensa potência presente nas práticas sociais dos grupos periféricos. Desse modo, não valorizamos a originalidade, inovação e capacidade de construção protagonista presente no campo dedicado à transformação do mundo social brasileiro.

Diante, todavia, do avanço das forças reacionárias, que assumem de forma transparente sua consciência e práticas escravocratas, penso que a denúncia e o discurso da resistência devem ser mais visibilizados. Pois, impossível não ver a desfaçatez, a partir da liderança do governo golpista de Temer, com que se atacam as bases da frágil e insuficiente democracia nacional. Seja através do desmonte do sistema de proteção ao trabalho, no fortalecimento do trabalho escravo, na destruição do sistema previdenciário e na destruição do princípio republicano – nunca cumprido, mas nunca tão desmoralizado – que todos os cidadãos são iguais diante da lei.

Mas, mesmo afirmando a necessidade de resistir/denunciar, não se pode deixar de centrar atenção na energia pulsante e avassaladora das mulheres negras e seus coletivos; nas práticas culturais de coletivos negros; nos milhões de pessoas negras nas universidades, afirmando seu lugar e se apropriando dessa forma de saber; na valorização do saber dos ancestrais e na disseminação da resposta às intolerâncias no campo religioso; na afirmação das ações afirmativas no funcionalismo público e na busca de sua ampliação para as organizações de Mercado. Enfim, há uma agenda negra em cena que se fortalece a cada dia e que deve também ser reconhecida e estimulada.

Por isso, temos de parar de usar o “ou”, estabelecendo hierarquias ou disputas entre as estratégias contra os conservadores e reacionários e passar a usar o “e”. Logo, denúncias contra o racismo, resistência contra as forças reacionárias e a afirmação de agendas que afirmem a radicalidade democrática para a superação do racismo institucional e do sexismo – que afeta de forma ainda mais violenta as mulheres negras – são as formas complementares que, em suas diferenças, as organizações, coletivos e movimentos usam para afirmar: Zumbi está em cada um de nós e cada um de nós, todos nós, somos Zumbi! Nessas lutas que se somam e nos tornam mais fortes é que vamos aprendendo uma sábia lição: que não nos esqueçamos, nos embates cotidianos, sobre quem são os verdadeiros adversários e a quem devemos combater.

* Jailson de Souza e Silva é Fundador do Observatório de Favelas e Diretor Geral do Instituto Maria e João Aleixo

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