quarta-feira, setembro 22, 2021

Direitos Humanos para quem?

Na última sexta-feira, 26 de fevereiro, foi inaugurada, no Paço Imperial, a exposição “A Luz no Brasil”, que tinha como um dos subtítulos o “Caminho dos Direitos Humanos”, da arquiteta e artista plástica, Françoise Schein. Apesar do título e subtítulo, a exposição desconsiderava o artigo 5 da constituição brasileira a respeito do inviolável direito de imagem.

No desenvolvimento desse trabalho, a artista não trilhou um caminho respeitoso, compatível com a dignidade humana. O título é equivocado, a exposição é equivocada e a artista também. Isso porque o evento tinha como identidade visual a imagem de um homem negro e favelado, que não permitiu que sua foto fizesse parte da exposição.

Em 1998, Françoise Schein foi convidada pelo programa “Apoio às Populações Desfavorecidas”, criado pela prefeitura do Rio de Janeiro e pela a Comissão Europeia, como uma continuidade do Favela Bairro, para criar um painel de azulejo com a temática dos Direitos Humanos, na praça do Vidigal. Na ocasião da inauguração desse trabalho, em 2001, houve apresentações artísticas e culturais, entre alas, a exibição de capoeira com o professor Ninho do Vidigal (Willian Lucas de Paula) e seus alunos. Foi quando a sua imagem e a da sua sobrinha Thamires Custódio (que tinha 10 anos na época) foram capturadas pela lente da Françoise Schein.

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(Foto: Rui Zilnet)

A artista procurou o capoeirista pedindo autorização para que sua foto pudesse compor uma exposição, que ocorreria na saída do metrô da Siqueira Campos, em Copacabana. A autorização foi concedida para esse único fim. No entanto, a imagem do Ninho exposta no local compõe um painel permanente de aproximadamente 20 metros, além de outros painéis também criados por Françoise Schein: na Vila Benjamin Constant, no Parque da Cidade, na Vila União da Paz, na Vila Moretti, na Vila São Bento e no Morro da Providência. Considerando que a Associação INSCRIRE (fundada pela artista) tem trabalhos espalhados por diversos países (Bélgica, França, Portugal, Estados Unidos, Suécia, Israel, Alemanha, Peru, Espanha, Grécia, Romênia, Irlanda, Estônia, República Checa, Inglaterra, Palestina, Uruguai, Suíça, Haiti, Áustria e El Salvador), é possível que seu rosto estampe outros painéis.

Durante esses 20 anos, Françoise Schein não entrou em contato com o Ninho informando sobre os desdobramentos do projeto e pedindo autorização para multiplicar sua imagem. Ao saber que uma exposição com sua foto ocorreria no Paço Imperial, o capoeirista e conselheiro tutelar procurou auxílio jurídico, juntou um grupo de amigos, na maioria, também favelados e organizou um protesto pacífico na abertura do evento.

O grupo ficou incrédulo com a discrepância entre o que era descrito nos textos expostos e o proceder colonizador de Françoise Schein. Destaco uma frase da própria autora: “A favela abriga uma riqueza de laços humanos que nenhum outro habitat social conseguiu até hoje”. Pois então, foram esses laços que nos levaram até ali. Somos subjugados, temos a nossa individualidade e humanidade esvaziadas, vivenciamos cotidianamente opressões de várias ordens. Logo, a exploração e apropriação direcionadas ao Ninho são sentidas como se fossem sofridas por todos nós.

Na parede em que haviam balões de falas intitulados “E agora? A terra precisa de suas ideias” deixamos frases e palavras de ordem em repúdio à postura apropriadora da belga erradicada na França. Do lado de fora do Paço Imperial, Ninho com o microfone em punho fez um discurso contundente para os transeuntes. Durante sua fala, lembrou que o espaço que abriga uma exposição que desrespeita o corpo negro é o mesmo onde a Lei Áurea foi assinada.

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(Foto: Rui Zilnet)

“Nós estamos aqui para falar para a francesa e artista plástica Françoise Schein a nossa indignação. É típico do colonizador que chega e se apropria do que você tem de mais sagrado, a sua identidade. Eu hoje estou conselheiro tutelar e ela nunca poderia imaginar, me tornei professor e ela nunca poderia imaginar, me tornei agente público e ela nunca poderia imaginar. Ela já imaginava, como é estatística da favela, que eu já estivesse morto. Essa é a narrativa que contam.” (Ninho)

André Constantine, responsável pelo movimento “Favela não se cala” e morador do Morro da Babilônia, fez uma fala potente. O também comunicador pontuou as diversas formas de usurpação da dignidade negra e findou dizendo que “favela não é zoológico”. Na exposição que tem como cartaz de abertura a imagem do Ninho, a única menção a sua identidade o resume a “o capoeirista” e sua sobrinha a “uma jovem menina”. Segundo a curadoria, ambos representam “imagens de um futuro que se espera melhor”. Na verdade, ambos representam a resistência e busca por respeito à dignidade do povo negro, mas não em um tempo vindouro; agora.

Outro ponto alto do protesto foi a demonstração de capoeira entre Ninho e sua advogada. Ficou evidente que para além da representação jurídica, havia uma identidade racial compartilhada. Cristina Gomes da Luz é uma mulher negra.

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(Foto: Rui Zilnet)

Poucas horas após o término do protesto, a exposição foi fechada ao público. No sábado, reabriu, mas as imagens do Ninho foram cobertas por uma tarja preta, o cartaz principal foi retirado da fachada do prédio e as frases escritas pelos manifestantes foram apagadas.

“Me senti ainda mais ofendido, pois a exposição ainda permanece e além de terem usado minha imagem sem permissão por anos, não colocam meu nome em nenhuma foto, e para assumir o erro que fizeram, ainda colocam um tarja preta nas minhas fotos. Só irei me sentir contemplado com a retirada da exposição e um processo indenizatório” (Ninho).

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