Ela usa o Twitter para dar ‘match’ entre alunos negros e doadores de livros

Ao acompanhar as manifestações nas redes sociais embaladas pelo dia da Consciência Negra, em 20 de novembro do ano passado, a gaúcha Winnie Bueno, 31, decidiu publicar em seu Twitter uma proposta de ação prática para quem quisesse contribuir com a redução da desigualdade racial no Brasil.

Por Cristiane Capuchinho, do Tilt

A doutoranda em sociologia da UFRGS Winnie Bueno criou um projeto que permite doação de livros para universitários negros Imagem: Josemar Afrovulto/Acervo pessoal

“Tinha um número importante de pessoas que se diziam dispostas a combater o racismo. Sugeri que as pessoas tivessem um gesto antirracista como, por exemplo, o de doar um livro para uma pessoa preta que precisa de um livro. E para minha surpresa, tinha umas quinze pessoas dizendo que se colocavam à disposição para doar”, conta Winnie.

Ali começava um projeto que toma de duas a três horas de todos os seus dias e leva centenas de livros para os cantos mais longínquos do país: o “Tinder dos Livros”.

Funciona assim: negros que precisam de livros escrevem uma mensagem pessoal para ela com o título do livro e o endereço para entrega. De Porto Alegre, Winnie envia os dados a um dos doadores, que fica responsável pelo envio do título.

No cenário brasileiro, em que a chance de um negro ser pobre é o dobro da de um branco e que a renda de um profissional preto ou pardo é, em média, 42% menor que a de um branco, o projeto da doutoranda em sociologia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) é uma forma de distribuir oportunidades de leitura.

Quase um ano depois da primeira provocação, Winnie estima já ter dado cerca de 700 “matches” entre seus mais de 25 mil seguidores.

Na lista de títulos, tem um pouco de tudo: romances, livros acadêmicos de biologia, estatística, medicina, livros de estudos negros e feministas. Tudo depende do pedido e da disposição dos doadores.

Em São Manuel (SP), o estudante do ensino médio Marcos Franco, 17, recebeu em agosto dois livros por meio da conexão feita pela gaúcha: “Carcereiros”, de Drauzio Varella, e “Estranhos à Nossa Porta”, do filósofo Zygmunt Bauman.

Não foi a primeira vez que Marcos recorreu ao projeto. O primeiro livro chegou em julho: “Sonhe alto: como dar o melhor de si mesmo”, livro do político e neurocirurgião Ben Carson.

“Eu gosto de ler, mas por ser de uma família de baixa renda, não tenho condições de comprar os livros”, contou o adolescente. “Os livros trazem em mim uma nova visão de mundo.”

O depoimento de Marcos atinge em cheio o objetivo de Winnie. “Se muitos instrumentos acadêmicos não estão tão à disposição assim da população negra, os livros estão, e servem para construir uma educação autônoma. Tenho tentado usar as redes e minha visibilidade para fazer com que o conhecimento chegue às mãos de quem precisa.”

A desigualdade de acesso à educação pela população negra está marcada nas estatísticas brasileiras.

Em 2018, 55,8% da população branca com mais de 25 anos tinha completado, ao menos, o ensino médio; entre os negros (pretos e pardos) a taxa era de apenas 40,3%, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Entre a população de 18 a 24 anos, 36,1% dos brancos frequentavam o ensino superior em 2018, enquanto o índice entre jovens negros era de 18,3%.

Visibilidade negra

Uma segunda finalidade de seu projeto pessoal é ampliar a visibilidade e o acesso a livros voltados a questões raciais e de intelectuais negros. “Embora as universidades, principalmente as públicas, tenham bibliotecas, os livros dos intelectuais negros não estão lá ou não estão em grande número dentro dessas bibliotecas”, comenta a doutoranda.

Fotos de felizes leitores com títulos de Angela Davis, Bell Hooks, Franz Fanon e Abdias Nascimento acompanhadas pela hashtag #Tinderdoslivros são frequentes nesta timeline de trocas.

O professor de geografia Nilberto Gonçalves, 35, pediu pelo Twitter o clássico dos estudos decoloniais “Pele Negra, Máscaras Brancas”, de Franz Fanon. Em duas semanas, o livro pedido pelo “Tinder dos Livros” estava na casa dele em Ananindeua (PA), pronto para começar o semestre do mestrado na UEPA (Universidade Estadual do Pará).

Licenciado da rede estadual para fazer sua pós-graduação, Nilberto conta que recorreu ao projeto porque sua renda foi reduzida significativamente no período de licenciamento, o que dificulta a continuidade dos estudos e das despesas da família de quatro pessoas.

Até agora, o projeto tem funcionado por DM (mensagem pessoal) e depende que Winnie faça a articulação entre as informações de quem quer o livro e de quem pode doar de maneira artesanal. Atualmente, ela está em contato com uma desenvolvedora para que o projeto possa virar um aplicativo e, assim, “chegar em mais e mais pessoas”

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