domingo, janeiro 16, 2022
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Êpa! Preto e Viado, Sim

Relacionado aos diversos modos de ser que venho falar sobre quem sou e o que represento na sociedade que lutamos diariamente para ser menos racista, menos machista e menos LGBTfóbica. Antes de tudo, falo sobre meu lugar enquanto homossexual (extremamente pintoso), negro (em contínua construção do ser), candomblecista (com orgulho) e nordestino (sem pestanejar). Essas quatro identidades me empoderam de tal forma que consigo, com elas, dá sentido a minha existência: O meu modo diverso de ser é extremamente político, nasci para incomodar os opressores.

Antes de definir categoricamente quem são eles (se posso, assim, definir), inicio com uma frase de guerra que levo tatuada no peito blindado com empoderamento: Além de Preto, é Viado! Uso todos os dias na batalha, pois cada dia, para quem diverge desse senso comum, do padrão opressor, é uma guerra. Certa feita, minha aluna me reclamou, dizendo que eu não era Preto e Viado, eu era Homossexual e Negro. Eu olhei nos olhos dela e disse: Sou Preto e Viado porque é assim que vocês me conhecem, quando dou as costas, é assim que me chamam, quando pensarem em me ofender, é assim que vocês me chamarão.

Então, para deixar bem claro, ser Preto e Viado para mim é motivo de orgulho. Se hoje estou nessa sala de aula, mesmo participando de um programa de acesso a universidade, é a custa de muita luta, minha e de meus companheiros e ancestrais que defenderam, e defendem, as suas liberdades – expliquei a aluna. Desse modo acredito que além da opressão também ser personificada, tudo acontece por causa do sistema opressor, essa conjuntura de fatores históricos, sociais e religiosos (sic) que operam e instituem a seu favor: a institucionalização. Precisamos destruí-lo, mas isso não é nada, absolutamente nada, fácil. Eles estão tão impregnados, tanto nos opressores quanto nas vítimas, as últimas são condicionadas a uma conformidade da subalternidade social. O combate as opressões só pode ser vitoriosa quando empoderarmos: darmos o PODER.

No que tange a comunicação, é impossível não falar sobre direito, e falar sobre é trazer o tema Democratização dos Meios. Quando ouço isso, eu, um estudante de Museologia, que não está familiarizado com as pautas políticas da área de formação da Comunicação Social, vem automaticamente uma palavra: Representatividade. No contexto midiático, no qual é tema dessa plenária, posso dizer com bastante exatidão: Nós, pretos e pretas e comunidade LGBT não estamos na TV, e isso não é novidade. Quando estamos, a problematização se dá na maneira de como nós somos representados. Um grande exemplo do conformismo da subalternidade social se dá pelo fato de que todos os dias milhares e milhares de brasileiros, pretos e pretas, assistem TV e não consegue se incomodar com a representatividade, ou a falta dela. É um conto de fada distante, quase impossível ver um de nós com destaque. A grande mídia hegemônica já tem comprovações experimentais que trazer “gente de verdade” para o centro, dá audiência. Mas porque, demônios, ainda não estamos? Racismo. Definição curta e que diz, infelizmente, muito.

Não podemos nos sujeitar a migalhas! Pensando nisso, acredito que esse ponto ou eixo estrutural não pode, nem deve, se dá apenas ao fato da representatividade. Precisamos pensar nos avanços da produção do povo preto. Conformar-nos com a representatividade dada pelo poder hegemônico midiático que já conhecemos, também é nos sujeitar a subalternidade. Para isso não nos devemos conformar! Precisamos (clamamos) de mídias feitas pelo preto, para o preto e que fale sobre o povo preto, desde modo nos alforriaremos desse sistema, do qual ainda, de certo modo, somos escravos. Ainda falta muito, no que se refere ao Brasil ter uma Black Entreteniment Television, a ponto recusar, por exemplo, um artista subir no palco de sua premiação por ser branco (nem vamos entrar no papo do racismo reverso aqui, ok?!), como aconteceu no último BET Awards. Porém, já temos grandes passos relacionados a isso, como a Revista Afirmativa e Produção Tela Preta, Revista Raça, Portal Geledés, sem desconsiderar também os blogs e páginas virtuais como Bicha Nagô, Os Entendidos (com a coluna Enegrecendo), e muitos outros. Além da representatividade, a democratização deve ser pensada nesse sentido, pois estamos cansados de depararmos com casos semelhantes ao qual começarei a relatar agora.

Sobre representação midiática, destaco dois casos que me chamaram bastante atenção nos últimos meses. O primeiro, que levantou a questão da hiper-sexualização da mulher preta, foi o seriado Sexo e as Nêga, de um autor branco. Ganhamos destaque, porém não da forma que queremos, não da forma que querem as mulheres pretas, pois o nome do seriado já diz tudo por si só, talvez a não-acensão social/profissional das personagens também provocassem certos questionamentos. Resolvemos, então, assistir a série: Surpresa!

Foi uma apropriação do imaginário colonizador da mulher preta (mulata) e elas não tinham protagonismo algum, as personagens eram secundárias no enredo e o foco estava numa famosa artista branca. “Vamos usar do universo periférico, feitichá-lo, estereotipá-lo e colocar tudo isso na TV, pois o exótico dá audiência”, certamente eles pensavam. Havia outra que questão me massacrava: O que passa pela cabeça das quatro atrizes pretas que aceitam se submeter a um papel desses? O conformismo da subalternidade social? Ou, talvez, a necessidade, o clamor pela realização profissional como atriz de TV, pela ascensão midiática, pela oportunidade de poder ser exemplo de que mulheres pretas também podem ter sucesso na produção midiática brasileira. Refletiremos! O mais triste de tudo isso foi ver outras poucas representações midiáticas negras explicitar publicamente o seu apoio, contra ao nosso manifesto, contra ao manifesto das mulheres pretas, dizendo que # AmamosSexoeAsNegas . Queridas, acho melhor nos amarmos mais, amarmos mais nossa ancestralidade. Inclusive, entristeceu-me, tanto quanto, o posicionamento de um dos meus maiores mentores intelectuais e políticos contemporâneos, colocando a culpa de tudo aquilo no poder ambivalente da comunicação.

Outro caso de grande “comoção” midiática foi a campanha #SomosTodosMaju. A repórter que já trabalhava há anos na famosa redação, foi ser a garota do tempo (risos). Com simpatia e competência, brilhou! (pena que não vemos muitas mulheres jornalistas negras discutindo política ou economia, por exemplo). Logo, os cyber-racistas de plantão vomitoram nas redes sociais. Maju passou por cima! (Menos mal seria se sofrer racismo fosse apenas as boca dos racistas, e não institucionalmente.) Porém, o jornal resolveu lançar uma campanha hipócrita com as famosas “hagstag”. O mesmo grupo que é UM DOS responsáveis pela invisibilidade dos pretos na mídia, faz uma campanha dizendo que eles se solidarizam com sofrimento de Maju. Errado! Nem todos eles, nem todos “nós” somos Maju. Sobre isso, trago o pequeno e excelente texto de Fabio Luiz. 

veja o texto: Vocês não são todos Maju!

É importante observar que os dois casos que trouxe são de mulheres pretas. Talvez, porque na mídia, a opressão dessa representação preta, quem sofra mais é a mulher. São textos e contextos do qual eu poderia citar nomes e casos, mas não sairíamos hoje daqui. Deixo algumas questões a ser refletidas: Por que ocupamos o lugar da subalternidade na mídia? Será porque temos vivido a base do pensamento branco? Ter mais gente nas novelas, apresentando jornais e nos comerciais de margarina desconstruiria o pensamento hegemônico que nos subalterniza?

Por fim, fico feliz em ver tantos pretos e pretas nessa plenária, precisamos nos formar e qualificar para entrarmos e mudarmos esse sistema, e a base de muita luta, nos fazer representados. Não acreditamos no famoso discurso embasado na democracia racial “Todos nós somos iguais”. Não, eu não quero ser igual! Queremos viver com diversos, com diversidades, com especificidades. Quero ver povo preto em todos os lugares, quero ver bichas pretas em todos os espaços, com isso me dou conta da responsabilidade que todos temos, comunicólogos ou não: Comunicar o diverso através dos atos. Xotocô Beroló ao egun do saudoso Jorge Lafond, mas “êpa! bicha sim!”, bicha preta, política, consciente e empoderada. Aqui, sentado pela primeira vez como convidado num evento nacional, venho a partir das minhas pequenas, porém grandes e significadas lutas, representar todos os diversos, como eu: todas as bichas nagôs. Saúdo a todos nós na figura de grandes protagonistas, Enzio Rosa, Leop Duarte e Arthur Romeu.

Minha participação aqui, iniciando esse debate, responde ao questionamento que ouço todos os dias de meus amigos (vítimas do “tal” sistema), por incrível que pareça, também homossexuais, que dizem: “viado, procure seu lugar, se dê ao respeito!” Estou no meu lugar. Fechando, dando pinta, lacrando o cu das inimigas, meu lugar é aqui, discutindo sobre mim, discutindo sobre nós. Meu lugar é ser Preto e Viado. Obrigado!


Universidade Federal do Recôncavo da Bahia
Coletivo Aquenda! de Diversidade Sexual
Executiva Nacional dos Estudantes de Museologia – Região Nordeste Preto, Viado, Macumbeiro e Nordestino

** ESTE ARTIGO É DE AUTORIA DE COLABORADORES OU ARTICULISTAS DO PORTAL GELEDÉS E NÃO REPRESENTA IDEIAS OU OPINIÕES DO VEÍCULO. PORTAL GELEDÉS OFERECE ESPAÇO PARA VOZES DIVERSAS DA ESFERA PÚBLICA, GARANTINDO ASSIM A PLURALIDADE DO DEBATE NA SOCIEDADE. 

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