Erraram, por Sueli Carneiro

onte: Jornal Correio Braziliense – Coluna Opinião

Em um dos primeiros pronunciamentos, o presidente Lula disse que ele e o seu partido não tinham o direito de errar. Estava certo. Ele se referia, sem dúvida, aos preconceitos e expectativas negativas que sempre o cercaram em função de sua origem social. Não pude deixar de associar essa idéia a outras semelhantes e correntes entre os negros e as mulheres.

Negros têm internalizada a visão de que precisam fazer tudo melhor do que os brancos para terem a chance de serem considerados ou tratados como iguais; as mulheres sabem que devem ter desempenho superior ao dos homens, e deficientes precisam realizar atos que beiram ao de super-heróis como os do cego Jatobá da novela América. É injusto, mas real. A profecia auto-realizadora nos persegue a todos que não somos seres hegemônicos. E essa foi a advertência fundamental da qual se esqueceu o presidente e que permanece ausente em suas análises e nas de seu partido sobre a natureza da crise política.

A maioria do eleitorado sempre manifestou dúvidas sobre a capacidade administrativa do PT enquanto, ao contrário, depositava nele confiança quase irrestrita no plano parlamentar. Seus parlamentares tornaram-se os guardiões da moralidade pública. Mais do que qualquer outro valor que porventura podiam encarnar na vida pública, a ética era, sem dúvida, aquele com o qual o partido melhor foi capaz de associar a sua imagem. Acoplou-se grandemente ao PT o inverso da lógica do “rouba mas faz”, ou seja, não se tinha completa certeza de que eram capazes de bem fazer, mas corrupção jamais. É certo que só recentemente os eleitores tiveram acesso às suspeitas que envolvem a República de Ribeirão Preto, aos fatos ainda obscuros sobre a prefeitura de Santo André que resultaram no assassinato do prefeito Celso Daniel embora anteriores à eleição de Lula.

Mesmo os aparentemente mais lúcidos analistas do partido na esfera pública, padecem de um viés infantil de tentar tributar a uma mídia controlada por partidos ou políticos de direita a extensão da crise que atravessam partido e governo. Ora, a lógica aí implicada é a de que a substância da crise está na sua divulgação, não nos fatos que a suportam e alimentam. Na hipótese de ser a mídia um instrumento a serviço da direita para potencializar erros governamentais e partidários, a única maneira de neutralizá-la seria, não errar. E, não errar, sobretudo, em relação àquilo em que se constituiu o maior patrimônio político do partido em questão no campo da ética porque em outras dimensões a expectativa sempre foi muito menor.

As leituras da crise partem, na maioria das vezes, do pressuposto de que a opinião pública é mera massa de manobra dos conglomerados midiáticos e que portanto não há indignação legítima em relação aos erros, praticados pelo governo e o partido. Assim o leitor, o eleitor, o cidadão ou cidadã são massas inertes, consciências moldadas pelas interpretações interessadas deste ou daquele veículo de comunicação. Vítimas inocentes ou instrumentadas por partidos de oposição. Aliás esses discursos tornam irrelevantes a crítica cidadã porque os únicos contextos reconhecidos de análise e atenção são as posições da situação ou da oposição ao governo. O debate se inicia e se encerra na relação situação versus oposição como se todos os demais que não se situam em numa ou noutra posição, que somos a absoluta maioria, fôssemos meros expectadores dessa contenda. Fora dessa polaridade é como se não houvesse pensamento crítico, posições políticas e ideológicas e sobretudo posicionamento ético. Transformar o que resta de capacidade legítima de indignação diante de desvios de conduta inaceitáveis em macartismo moralista é insistir na mistificação uma vez mais.

Assim a crítica petista busca deslocar aquele que é o ponto essencial da crise política para territórios periféricos, sendo no entanto incontornável que o centro das expectativas em relação ao governo petista estava na esperança de ética na política e em uma inovadora sensibilidade social. São os dois grandes fracassos que permitiram a previsível instrumentalização política da crise pela oposição que certamente, fosse petista, teria agido com grau de contundência muito superior e com apoio de grande parte da sociedade especialmente das ONGs e dos movimentos sociais. Fossem quaisquer outros os agentes políticos dessa crise, estaríamos há meses nas ruas exigindo punições.

Para os que votaram na mudança e na esperança de renovação na vida pública e serão obrigados a votar novamente em breve, não importa se o valerioduto é anterior ao governo petista. Sabemos simplesmente que ele não deveria ter sido mantido, reproduzido ou expandido nesse governo, que sabia que não podia errar, pois, ao fazê-lo, nos comprometia a todos, o que inclui muitos outros além dos petistas, tornando mais ampla aquela raça da qual alguns imaginam ficarão livres por uns 30 anos. Estão muito perto de conseguir graças àqueles que não tinham o direito de errar.

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